Sua redação no ChatGPT agrava a desigualdade social

Artigo de opinião por Isadora Macário


Publicado por Luana Crespo

Em julho deste ano, a revista Harvard Business Review, organizada por alunos de Harvard, publicou uma matéria explicando os impactos ambientais causados pela inteligência artificial e como estes impactam desigualmente o globo. Esse é só um exemplo dos inúmeros prejuízos que o avanço da inteligência artificial causa na sociedade. Diversos estudos estão sendo feitos para entendermos as consequências dessa nova tecnologia no nosso cotidiano, evidenciando resultados negativos e que corroboram a ideia de que as IAs devem ser uma preocupação mundial e generalizada.

O artigo de Harvard destaca o grande uso de água e energia para o desenvolvimento e aprimoramento de um único modelo de inteligência artificial, relegando o impacto da manufatura e construção das partes que o compõem, apesar de ressaltar que tem um dano significativo para o meio ambiente. Aprimorar um único modelo atualmente gasta centenas de toneladas de carbono, milhares de megawatts-hora de energia e evapora uma quantidade exorbitante de água potável. E esses números só tendem a crescer: em 2026 é esperado que o gasto energético exceda o gasto anual da Bélgica e representará 6% do gasto total dos Estados Unidos. O grande uso de água potável dessa tecnologia já preocupa os estudantes, que apontam como consequência o aumento do período de secas em diversos locais, como o Chile.

Ademais, esses problemas não impactam só a natureza, mas também a desigualdade, uma vez que interferem nos países de forma heterogênea. A título de exemplo, as fábricas da Google, dona da Gemini, funcionam, na Finlândia, com 97% de energia sem liberação de carbono, enquanto, na Ásia, somente 4% a 18% da energia utilizada é livre da emissão desse gás. Essa correlação é análoga ao levarmos em consideração o gasto de água potável. Nesse sentido, a inteligência artificial aumentará a discrepância socioeconômica entre os países, haja vista que reduz drasticamente a disponibilidade de recursos em áreas menos favorecidas e, por conseguinte, provoca o aumento do custo de energia e água potável.

Entretanto, o efeito da inteligência artificial na desigualdade social transcende uma consequência indireta do seu impacto no meio ambiente. Diversos trabalhos são ameaçados com o avanço das IAs e, diferentemente do que ocorreu com máquinas, não apenas os trabalhos braçais, mas também os que requerem certo nível de especialização. No mês passado, a Microsoft demitiu 4% dos seus empregados e, apesar de negar que a ação tenha sido feita pela substituição por inteligência artificial, a Forbes tem fortes pontos para demonstrar o contrário. Estamos falando de pessoas com estudos e um currículo diverso que já estão perdendo seus empregos. Os CEOs do mundo todo já falam como a inteligência artificial pode substituir a maior parte de seus atuais empregados, como os CEOs do Duolingo e da Amazon, os quais esclareceram que não têm receio em fazer essa substituição. Porém, alguns CEOs mostram-se preocupados com a situação, como Micha Kaufman, responsável pela Fiverr, a qual mandou um e-mail para seus funcionários dizendo “IA está ameaçando seus trabalhos, está ameaçando o meu trabalho. Isso é um sinal para acordarmos”. O sentimento de incerteza está se espalhando e as pessoas não sabem como se precaver.

Outro grupo extremamente afetado são os artistas que já vêm protestando contra o uso dessa tecnologia há muito tempo. Artistas pequenos já são conhecidos por terem uma condição de trabalho ruim, mas com a perspectiva de terem sua arte roubada tudo muda. Em 2023, vivemos a maior greve de atores e roteiristas já registrada na história, na qual eles lutavam, entre outras coisas, pela proteção contra a inteligência artificial. A remoção de atores e roteiristas era assustadora. Apesar do movimento ter criado uma regulação do uso de inteligência artificial, ela não é totalmente eficaz e artistas de outras áreas continuam a ser abusados. Considerar uma criação de IA arte é um desrespeito, uma vez que ela as faz por meio de plágio de outros artistas. O jornal “The Atlantic” expôs que, para preparar uma inteligência artificial, foi necessário utilizar diversos textos de alta qualidade. Entretanto, a maioria das empresas não segue o protocolo de direitos autorais, usando da arte dos outros para criar um aparato que irá reproduzi-la sem levar em consideração o significado do trabalho de quem a fez. A obsessão das empresas em lucrar torna a tecnologia uma ferramenta que desemprega milhares de mentes talentosas.

Nesse sentido, é importante ressaltar que, quanto pior a sua condição social, maior a ameaça que a inteligência artificial representa. A falta de acesso à tecnologia, o uso descontrolado da inteligência artificial, a carência de um emprego, contas de água e luz com maior valor ou a falta de acesso a esses recursos: tudo isso contribui para o recrudescimento da desigualdade socioeconômica. Sem uma boa regulamentação e a conscientização das pessoas, essa nova tecnologia tende a retirar, e não a agregar. Essa ameaça pode não ser a você, mas é necessário que alguém se verbalize em relação ao que está acontecendo. É necessário que quem tenha consciência do que está acontecendo fale por aqueles que não serão ouvidos.

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