Um sopro de vida
Resenha por Maria Eduarda Azevedo
Publicado por Júlia Aucélio

Um dos livros mais marcantes de Clarice Lispector foi publicado após sua morte e editado por Olga Borelli, sua amiga e confidente. Muitos dizem que é como o último suspiro da autora em forma de escrita, sua expressão mesmo após a morte, sua palavra sendo proferida, sua voz sendo ouvida e sua arte se perpetuando pelas gerações futuras. O livro foge do tradicional, não possui um enredo linear, mas é construído como um diálogo entre o Autor e a personagem Ângela Pralini. Clarice busca representar nesses dois personagens os dois lados de si mesma: o Autor simboliza a razão, o criador, o pensamento consciente, enquanto Ângela representa o sentimento, o impulso, o inconsciente, a alma.
A autora mostra que ambos os lados vivem em conflito e que, muitas vezes, é difícil saber quem realmente somos dentro da confusão. Onde mora o amor? Onde se esconde a raiva? É preciso sempre agir pelo impulso ou a razão também faz morada? Qual desses lados dá sentido à vida e à sua construção? É perceptível a presença dos questionamentos existenciais quase apagados pela pressa do cotidiano e pela omissão de quem somos. Clarice, como sempre, expõe o medo, o medo que escondemos até de nós mesmos, o medo de ser quem somos e de viver como nos é conveniente.
Em todas as suas obras, Clarice sempre explicitou quem era. É comum ouvir que, em outro texto, ela escreveu que “depois do medo vinha o mundo”, e de fato, ela sempre deixou claro como era difícil calar o medo em um mundo onde ser quem se é torna-se atípico. Aqueles que têm coragem de ser seu verdadeiro “eu” estão, na verdade, fugindo de um sistema, um sistema pior do que o político ou o racional, um sistema prisional, onde a prisão é em si mesmo. Nesse mundo, ser o moralmente correto parece ser o único caminho digno, mas Clarice mostra que a dignidade da alma está em aceitar a própria subjetividade e toda a “moral condenável” que vem junto com ela. Esse é o verdadeiro fardo da verdade de si.
Em um viés de importância literária, é notório que Um Sopro de Vida é o testamento espiritual e artístico de Clarice Lispector. É onde ela se encontra e encontra o amor em suas mais diversas formas, o divino em forma de escrita. É um livro que revela Clarice em sua forma mais pura e despojada, quase como se dissesse: “Este é meu último recado para você, leitor: viva a sua vida e seja quem você é. O preço da mentira pode ser caro demais para se pagar depois.”
O livro soa como um adeus, uma despedida da vida e uma entrega à eternidade.
“Amar é não ter paz, é ter uma vida clandestina.”
