O Som da Ancestralidade: música afro-brasileira como forma de resistência
Notícia por Valentina Lopes Abrahão
Revisado por Sofia Bernardino Torres
Publicado por Ana Clara Motta Lourenço

O lançamento do álbum EQUILIBRIVM, da cantora Anitta, no dia 16 de abril de 2026, marcou um dos momentos de maior repercussão da música brasileira atualmente, tanto pela dimensão artística do projeto, quanto pelas discussões socioculturais que ele provocou nas redes sociais e entre o próprio público da artista. Conhecida por utilizar sua visibilidade para abordar diferentes aspectos da cultura brasileira, a cantora apresentou um trabalho marcado por fortes referências às religiões de matriz africana, especialmente ao Candomblé, aos orixás, à ancestralidade e aos elementos tradicionais dos terreiros. Com faixas como Desgraça, Nanã, Mandinga, Bemba e Vai Dar Caô, o álbum contou ainda com a participação de artistas como Marina Sena e Rincon Sapiência, que ampliam a valorização da cultura afro-brasileira no cenário musical nacional. Entretanto, junto da repercussão positiva e do reconhecimento artístico, o álbum reacendeu um debate antigo e ainda muito presente no país: a intolerância religiosa contra religiões de matriz africana e o preconceito direcionado a artistas que escolhem expor publicamente sua fé. Esse debate evidencia como a diversidade religiosa brasileira ainda enfrenta dificuldades de aceitação social.
O Brasil é, oficialmente, um país laico, o que significa que nenhuma religião deve ser considerada superior às outras e que todos os cidadãos possuem o direito de exercer livremente sua crença. Além disso, o país apresenta enorme diversidade religiosa, que reúne catolicismo, protestantismo evangélico, espiritismo, judaísmo, islamismo, budismo e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Apesar dessa pluralidade, a convivência entre diferentes crenças ainda enfrenta dificuldades. Religiões afro-brasileiras continuam sendo alvo de estereótipos, desinformação e ataques, situação diretamente ligada ao racismo estrutural herdado da escravidão e da marginalização histórica da cultura negra no Brasil. Durante décadas, praticantes dessas religiões esconderam sua fé para evitar perseguições policiais, discriminação social e violência. Terreiros sofreram invasões, objetos religiosos foram destruídos e rituais passaram a ser tratados como criminosos ou “demonizados”. Esse apagamento histórico fez com que muitos brasileiros crescessem sem conhecer verdadeiramente a riqueza cultural e espiritual das religiões de origem africana, situação que ajuda a explicar o motivo das manifestações ligadas a essas crenças ainda causarem estranhamento na sociedade.
Esse preconceito aparece na diferença de tratamento entre religiões no Brasil. Símbolos cristãos costumam surgir com naturalidade em espaços públicos, programas de televisão, músicas e até instituições governamentais. Em contrapartida, elementos ligados às entidades africanas, aos espaços sagrados e aos rituais afro-brasileiros frequentemente despertam ataques virtuais e discursos preconceituosos. Essa foi a situação vivida por Anitta quando passou a falar abertamente sobre sua devoção ao Candomblé. Em maio de 2024, ao divulgar o clipe da música “Aceita”, gravado dentro de um terreiro e repleto de referências espirituais da religião, a artista perdeu mais de 300 mil seguidores em poucos dias. Já em janeiro de 2025, após publicar fotos vestida de branco ao lado de seu Pai de Santo, Sérgio Pina, outros 100 mil seguidores deixaram de acompanhá-la imediatamente. A situação expôs como as redes sociais se transformaram em ambientes nos quais a intolerância religiosa se espalha rapidamente por meio de comentários preconceituosos, fake news e associações negativas contra praticantes de Candomblé e Umbanda. Ainda assim, a cantora afirmou que não se abalou com a perda de público e declarou enxergar a situação como uma espécie de “limpeza espiritual”, de maneira que reforça o mantimento de um público alinhado aos seus valores ao invés de esconder sua fé para agradar parte da internet. Sua postura contribuiu para ampliar ainda mais a visibilidade e aceitação dessas tradições dentro da música brasileira. Em vez de recuar, a cantora aprofundou essas referências em sua arte.
Além de Anitta, diversos nomes da música brasileira utilizam sua arte para valorizar a ancestralidade, espiritualidade e cultura afro-brasileira. Luedji Luna, Emicida, BaianaSystem, Gilberto Gil e Maria Bethânia frequentemente abordam em suas música-temas ligados aos orixás, à memória ancestral africana e à resistência negra. Em muitos casos, cantar sobre essas tradições vai além da música e se transforma em um ato político e cultural. Em uma sociedade que tentou apagar manifestações afro-brasileiras historicamente, abordar essas referências para o centro da cultura pop significa preservar tradições e fortalecer identidades. Tal representatividade possui impacto importante para jovens praticantes dessas religiões, que muitas vezes cresceram vendo sua fé ser desrespeitada ou invisibilizada. Ao presenciarem artistas famosos exaltando sua ancestralidade com orgulho, muitos passam a se sentir mais representados e menos isolados socialmente. Esse fortalecimento da representatividade também reforça a necessidade de ampliar o conhecimento da população sobre a cultura afro-brasileira.
Portanto, a presença cada vez mais abundante das religiões de matriz africana na música brasileira representa muito mais do que uma tendência artística. Quando diferentes artistas utilizam suas plataformas para falar sobre orixás, ancestralidade e espiritualidade, não só afro-brasileira, eles ajudam a combater décadas de invisibilização e preconceito. A arte assume, assim, o papel de resistência cultural e preservação histórica. Ao mesmo tempo, os ataques sofridos por muitos desses músicos demonstram que ainda há desigualdade na forma como diferentes religiões são abordadas socialmente. Por isso, ampliar discussões sobre diversidade religiosa, fortalecer a educação sobre cultura afro-brasileira e combater discursos de ódio nas redes sociais são passos essenciais para construir uma sociedade mais respeitosa. Em um país tão diverso quanto o Brasil, reconhecer e valorizar diferentes formas de fé deveria ser visto não como motivo de julgamento, mas como parte da própria identidade cultural brasileira.
