Aos 83 anos, Paul McCartney prova sua genialidade com um dos discos mais profundos de sua carreira solo.
Resenha Crítica por Gabriel Loureiro
Revisado por Rafaela Quintas
Publicado por Thiago Pacheco

Depois de quase 6 anos desde seu último álbum e aproximadamente 1 ano após o fim de sua última turnê, Paul McCartney retornou à ativa com o lançamento do seu tão aguardado 18º disco de estúdio, The Boys of Dungeon Lane, na última sexta-feira (29), que já vem recebendo avaliações majoritariamente positivas. Aos 83 anos, o ex-Beatle demonstra que, mesmo com a idade avançada, demonstra não ter intenção de desacelerar tão cedo.
Com o lançamento do novo disco, fica evidente uma tendência já observada nas suas canções há um bom tempo: a idade vem afetando, mais do que qualquer outra característica do lendário músico britânico, o seu alcance vocal, que outrora era uma das suas mais fortes “armas”, garantindo-lhe um espectro criativo muito maior no período de apogeu. Mesmo assim, a sonoridade mais veterana de sua voz está longe de apagar a genialidade de McCartney, como é comprovado pelas 14 belíssimas canções do recente disco.
O tema explorado extensivamente por toda a duração do disco é uma viagem extremamente sentimental e nostálgica pelas memórias de McCartney de sua juventude, que, com a excelente co-produção do jovem Andrew Watt, já conhecido no mundo do rock por trabalhos recentes com os Rolling Stones, captura perfeitamente o sentimento idealizado pelo ex-Beatle de sua infância pelas ruas de Liverpool no pós Segunda Guerra Mundial.
Ao aceitar o convite de McCartney para um passeio pelas memórias de seu passado, o ouvinte passa por canções profundamente sensíveis e saudosistas. O álbum começa com “As You Lie There”, que é resultado do primeiro encontro do artista com Watt, ainda em abril de 2021. Segundo o próprio McCartney, a música foi escrita sobre uma garota da qual ele gostava em algum momento de sua infância. Durante os versos, apresenta uma atmosfera de tensão que cede lugar a sequências melódicas calmantes e tranquilizadoras, que podem evocar o próprio sentimento de McCartney em relação à menina (chamada Jasmine), mas também às próprias memórias de sua infância.
Relativamente a essas mesmas memórias, “Days We Left Behind”, o primeiro single lançado para divulgar o álbum, ainda em março de 2026 e terceira canção do primeiro lado do disco, surge como expoente principal do obra. Com frases como “Mas nada dura para sempre (…) / Ninguém pode apagar / Os dias que nós deixamos para trás”, Paul McCartney estabelece, com maestria, a atmosfera perfeita para envolver o ouvinte nas ruas de Liverpool durante sua infância. Tendo McCartney tocando todos os instrumentos, relembrando sua série de álbuns “McCartney” (I, II e III), é construída uma atmosfera confortável não só a McCartney, mas de certa forma aos ouvintes também. Ele ainda cita a rua que dá nome ao álbum, Dungeon Lane, onde ele e George Harrison se conheceram e habitaram durante suas infâncias.
Outra música que relembra sua relação com Harrison, mas dessa vez incluindo momentos do início de sua amizade com John Lennon, é “Down South”, que, diferente de “As You Lie There” e “Days We Left Behind”, é uma faixa de tom muito mais aberto e animado, que narra as aventuras de McCartney em sua juventude com ambos, passando por viagens de carona com Harrison, até estadias com Lennon em Paris, focando muito bem em como a amizade entre ele e os dois companheiros foi construída, muito antes de “Aprenderem a Twist and Shout ”.
Seguindo a mesma linha de “Down South”, uma das músicas mais animadas do álbum é “Home to Us”, o segundo single lançado, que marca o primeiro encontro entre McCartney e Ringo Starr nas carreiras solo de ambos. Segue a vertente nostálgica e sentimental da obra; no entanto, foca majoritariamente em reconhecer como as condições enfrentadas por ambos em suas infâncias não eram necessariamente as ideais, porém guardam grande valor sentimental.
Outra música notável é “Salesman Saint”, a penúltima do disco, que remete ao sentimento de esperança difuso no Reino Unido no fim da Segunda Guerra Mundial, período no qual Paul McCartney viveu sua infância. Com ritmos de marcha por boa parte da música e trompetes remetem à lendária canção de Vera Lynn, “We’ll Meet Again”, muitas vezes considerada um hino desse período na Inglaterra.
No fim, é evidente que “Dungeon Lane” está longe de ser o melhor trabalho já lançado por McCartney, o que, de maneira alguma, faz desse álbum algo descartável. Por um lado, era de se esperar que esse disco não atingiria a qualidade de outros já promovidos por ele, já que, sendo um dos artistas que definiu a sonoridade das canções modernas, McCartney não tem mais nada a provar. Seu nome está consolidado como uma das maiores lendas da história da música, e esse álbum, que nunca teve o propósito de desempenhar bem nas paradas, pode muito bem ter sido seu último. Esse fato, sem dúvidas, soma aos sentimentos mirados por McCartney ao produzir esse álbum: emocionante, sentimental e nostálgico.
