Mulheres na arte: A pintura brasileira e os movimentos contra a misoginia desde os anos 20
Noticia por Luma Carvalho
Revisado por Luíza Nogueira
Publicado por Fernanda Martins

As artistas, nos anos de 1920, produziram profundas mudanças na sociedade brasileira. Naquela época, elas enfrentaram um sistema extremamente misógino de diversas maneiras, começando por questionar a estrutura social que as colocava em uma posição inferior à dos homens. As artes visuais se tornaram uma forma de expressão essencial utilizada pelas mulheres para denunciar e criticar o desprezo ao feminino, pois, principalmente antes desses movimentos, essas pintoras eram praticamente apagadas da história. Essa situação ocorria pelo fato de que muitas obras feitas por mulheres eram atribuídas a homens ou simplesmente ignoradas. Isso se deve, principalmente, às dificuldades de acesso aos equipamentos de ensino da arte em academias, como a de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e aos obstáculos sociais que impediam a dedicação das artistas a essa ocupação. Essas condições são consequências plenas de fatores histórico-sociais que, embora com os direitos e a relevância do sexo feminino no século XXI, persistem até os dias atuais.
Quando se pensa em pintoras brasileiras com alto reconhecimento, a lista não é muito grande, mas nomes como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral são reconhecidos. Uma das principais artistas dos anos 20, pouco estudada e tampouco comentada, é Georgina de Albuquerque, uma pintora que transcendeu as barreiras do seu tempo e se consolidou com obras de extrema importância no meio artístico e para a história do Brasil. Sua biografia foi marcada por seu amor pela arte, por seu conhecimento e por seu talento. Fatores esses que a fizeram ganhar uma medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes, colocando a artista em uma posição favorável e relevante dentro da academia. Ela ocupou um papel fundamental na perspectiva feminina na arte, levando em consideração que a função atribuída à mulher na época era colaborar de maneira positiva para o protagonismo do homem, contribuindo para as ideologias patriarcais que silenciavam as suas vozes e os seus trabalhos. Albuquerque começou sua carreira pintando tanto mulheres em seus afazeres diários e em seus momentos descontraídos quanto em momentos de destaque na sociedade. Dessa forma, suas criações foram consideradas um mecanismo de exaltação à mulher brasileira, que era sujeito de liderança e centralidade dentro de seu trabalho.
As pinturas acerca de questões sociais ganharam muita força no período modernista, momento esse que rompeu com tradições, buscando inovações e liberdade criativa. Porém, é essencial reconhecer que artistas como Georgina já pintavam sobre essa temática desde os anos 20. “Sessão do Conselho de Estado” é uma das principais obras de Albuquerque. A tela é uma das criações mais emblemáticas da artista, uma vez que, ao pintar uma obra histórica, ela utilizou um gênero que era restrito aos homens, devido à proibição da participação das mulheres nas academias de arte oficiais naquele momento. A criação retrata o instante da assinatura da Independência do Brasil, em 1822, e desafiava as narrativas tradicionais que expressavam apenas o grito de independência de Dom Pedro I: “Independência ou morte”. Em contrapartida, o que de fato fez o Brasil se tornar independente foi um processo gradual, incluindo a assinatura da princesa Maria Leopoldina, que protagonizou a obra de Georgina. A interpretação desse trabalho consistiu em colocar em primeiro plano as mulheres que foram essenciais em momentos históricos, mas que foram excluídas devido à construção patriarcal.
O fundamento mais impactante de Georgina de Albuquerque é a maneira como ela retratava a mulher em sua integridade e psicologia. Além disso, suas obras variam a posição feminina, explorando a figura de uma criança em sua plena inocência até a de uma mãe de família. Essas manifestações se afastaram dos estereótipos atribuídos à mulher, tornando-se, então, um ato transformador e ousado para a época. A artista atribui vulnerabilidade e consciência às mulheres através de suas paletas de cores e da iluminação, que exploravam tonalidades vibrantes e, geralmente, uma luz central, permitindo uma harmonia em suas telas e um efeito sutil, porém marcante.
Desse modo, conclui-se que a artista influenciou diversos movimentos sociais brasileiros em uma humanidade extremamente conservadora e abriu portas para o feminino na área das artes visuais. Ela provou, de maneira relevante, que gênero não é critério para talento e competência. Além disso, contribuiu para um pensamento menos eurocêntrico e se opôs à misoginia, valorizando uma identidade nacional da arte de uma maneira brilhante. No presente, suas criações estão expostas em diversos museus pelo Brasil, e seu legado é marcado pela valorização das mulheres na história.
“Georgina não só pintou mulheres, ela as empoderou através de sua arte, tornando-se uma voz pioneira em um universo dominado por homens.” — Manuela Nogueira, estudante de Artes Visuais da Universidade de São Paulo.
