Independência à brasileira

Independência à brasileira

Reportagem por Maria Luíza Ramos Quintela


Revisado por Rebeca Bernardes Marques

Publicado por Artur Mayrink

 Independência ou Morte, Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).

7 de setembro de 1822: essa é a data que carrega o simbolismo de um novo período na história brasileira, o independente. Embora obras como Independência ou Morte, de Pedro Américo, retratem o episódio como glorioso e épico, a historiografia aponta para divergências e uma tentativa, que perdura há pelo menos dois séculos, de construir tal narrativa. Não bastou que Dom Pedro ergue-se sua espada e proclamasse o surgimento de uma nova nação. Na verdade, esse processo foi gradual e complexo e Portugal só reconheceu a independência brasileira três anos depois, em 1825. Mesmo assim, essa ruptura não trouxe mudanças para a maioria das estruturas sociais: a monarquia e a escravidão que ainda estavam de pé. Desmascarando essa farsa, que tal entender um pouco mais a fundo o que de fato constituiu esse momento?

No dia 14 de agosto de 1822, Dom Pedro partiu rumo a São Paulo, aproximando-se do Rio Ipiranga, em busca de apoio político para o movimento de emancipação. Nesse momento, o estopim o atingiu: ordens de Lisboa sinalizaram que a Corte portuguesa desaprovava suas ações e exigia seu retorno a Portugal. Então, temendo a perda total de suas funções, Dom Pedro supostamente teria exclamado “Independência ou morte!”, inaugurando um tempo de múltiplas guerras de independência em diferentes regiões, além da resistência portuguesa até 1824. Não havia cavalos, e sim mulas, o príncipe não era altivo, mas sofria de fortes problemas intestinais e estava indisposto e a comitiva real que o acompanhava era pequena e simples, cerca de dez pessoas, destituída de uniformes militares suntuosos.

As ausências eram grandes em relação ao esperado para algo tão decisivo na história de um país, porém, uma se destacou perante as demais: a ausência de coerência. Enquanto o Brasil levantava “slogans” pedindo liberdade e autonomia, uma parcela significativa de sua população ainda residia em uma submissão indescritível: a escravidão. Não se tratava de uma revolução social, mas sim de uma mudança na maneira de cultivar culturas de privilégio. Mulheres, indígenas, e escravizados não passaram a integrar as atividades sociais. Na verdade, nem sequer os homens tiveram maior participação política, uma vez que a forma de governo ainda era monárquica. Em suma, mudou-se a bandeira da estrutura de poder, mas não necessariamente quem ocupava seu topo. E as turbulências na busca pela separação não acabam por aqui. Portugal só legitimou a reivindicação de Dom Pedro através do Tratado de Paz, Amizade e Aliança de 29 de agosto de 1825. Esse acordo determinava que o Brasil deveria pagar uma indenização (cujo valor era de 2 milhões de libras esterlinas), o que gerou uma necessidade de pedir empréstimos estrangeiros.

Essa trajetória evidencia o apagamento histórico e cultural do que de fato caracterizou a formação de um Brasil independente. A elite vigente no período construiu uma narrativa dramática e sensacionalista sobre o passado do povo brasileiro, e isso, infelizmente, resultou em um presente onde historiadores e instituições de ensino diversas enfrentam uma grande luta para desconstruir essa história e levantar uma memória nacional verídica. O sete de setembro é um marco que deve ser utilizado para levantar o debate acerca da conscientização acerca da real história e como a população e seus líderes estiveram de fato engajados nos grandes acontecimentos históricos. 

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