Artigo por Maria Clara Machado
Publicado por Leon Pires
Ler, no Brasil, é quase um ato de teimosia. Em meio a tantas urgências — a correria do dia a dia, a desigualdade que marca o acesso ao conhecimento, a pressão por informações rápidas e descartáveis — sentar-se para abrir um livro parece um gesto fora de moda. Mas é justamente aí que mora sua força. Quem lê resiste. Resiste ao esquecimento, à invisibilidade e à ideia de que nossas histórias não importam.
O editor Rafael Guimaraens já disse que “o livro é um fabricante de memória”. E é isso mesmo: cada página lida é uma pequena fábrica que guarda lembranças, preserva vozes, eterniza experiências. Um romance não é só uma narrativa inventada, mas um pedaço de humanidade guardado em letras. Uma biografia não conta apenas a vida de alguém, mas cria pontes com a vida de todos nós.
Bons exemplos mostram essa potência. O Museu da Pessoa, por exemplo, coleta histórias de gente comum e as transforma em patrimônio público. São memórias de trabalhadores, donas de casa, crianças e idosos que, de outra forma, talvez nunca fossem registradas. Durante a pandemia, o projeto “Inumeráveis” fez algo parecido: deu rosto e voz às vítimas da Covid-19, transformando números frios em relatos emocionantes. Em vez de desaparecerem no silêncio, essas vidas permaneceram. Foram lidas, compartilhadas, lembradas.
E é isso que a leitura nos dá: a chance de sentir com o outro. Um livro nos transporta para lugares que nunca visitamos e nos coloca diante de pessoas que talvez jamais conheceríamos. Essa experiência, como já destacou a educadora Marisa Lajolo, é essencial para que populações marginalizadas tenham acesso à cidadania cultural. Ler é, portanto, uma forma de inclusão — mas, para muitos brasileiros, ainda é um direito negado.
O fato é que o livro continua sendo visto quase como um privilégio. Bibliotecas públicas caem no esquecimento, escolas carecem de acervos, e o preço dos livros muitas vezes os afasta de quem mais precisa. Ainda assim, a resistência acontece: feiras populares, bibliotecas comunitárias e clubes de leitura seguem florescendo, provando que a literatura encontra seus caminhos, mesmo quando o poder público falha.
No fundo, abrir um livro é um gesto político. É escolher não se deixar levar apenas pelo imediatismo das telas, nem aceitar que nossa memória coletiva seja apagada. É se lembrar de que cada voz merece ser escutada. Quando lemos, nos tornamos guardiões das histórias que nos formam — e ao mesmo tempo, criadores de novas possibilidades para o futuro.
Resistir lendo é um ato profundamente humano. Não é só virar páginas, mas se permitir ser tocado, se deixar atravessar por outras vidas, e sair do outro lado diferente do que se entrou. É por isso que, num país que insiste em esquecer, cada leitura é também uma forma de dizer: “eu lembro, eu importo, nós existimos”.
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