Artigo de opinião por Mariana Mota
Publicado por Isabella Dias
Confesse: você também já sentiu uma ponta de orgulho ao dizer que estava”na correria”. Já exibiu as olheiras como medalhas de guerra e respondeu emails fora do horário como se estivesse provando seu valor ao mundo. Os gênios do século XXI transformaram o cansaço em um artigo de luxo, um atestado de importância. Vestimos a exaustão como uma armadura reluzente,acreditando que ela nos protege da acusação de sermos medíocres ou descompromissados. Mas, enquanto competimos para ver quem dorme menos, trabalha durante madrugadas e flerta mais com um colapso nervoso,
uma pergunta incômoda começa a ecoar no silêncio das noites insones: quem é que realmente ganha essa competição?
Essa seita glorificante da exaustão tem um nome muito bonito: “Hustle Culture”,ou seja, a cultura da agitação. Ela nos sussurra o ouvido que o sucesso é filho do sacrifício extremo, que cada hora de sono perdida é um degrau a mais na escada da sociedade. As redes sociais viraram o grande palco dessa peça, onde os protagonistas são sempre os CEOʼS que acordam 4 da manhã para meditar em meio a planilhas de Excel. O problema é que, por trás das cortinas, o cenário é bem menos glamoroso. A Síndrome de Burnout,oficialmente reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença do trabalho, não é mais uma exceção, mas uma epidemia silenciosa, e no Brasil, os números são alarmantes: De acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho(Anamt), cerca de 30% dos trabalhadores sofrem com o esgotamento, colocando o país entre os mais afetados do mundo.
A lógica da romantização da exaustão é perversa e se alimenta de uma falácia meritocrática. A “Hustle Culture” vende a ideia de que o esforço sobre-humano é a essência da meritocracia. “Trabalhe enquanto eles dormem”, dizem os gurus da produtividade que se alimentam do esforço alheio. O que eles não contam é que enquanto você trabalha, os que falam isso estão dormindo, e muito bem, diga-se de passagem. A verdade é que nossa exaustão serve a um modelo de trabalho que lucra com o nosso medo: o medo de sermos substituíveis, de parecermos descomprometidos, de ficarmos para trás.Enquanto nos orgulhamos de “dar o sangue”, entregamos nossa saúde física e mental em troca de um tapinha nas costas e uma falsa sensação de indispensabilidade.
O mais irônico é que essa cultura não apenas nos adoece, mas também nos torna profissionais piores. Um funcionário esgotado é um funcionário com
menor capacidade de resolver problemas complexos, de colaborar com a equipe e de enxergar novas oportunidades. O Burnout se manifesta não só no
cansaço, mas também no cinismo que ele forma e na sensação de ineficácia.Aos poucos, a paixão pela profissão se transforma em ressentimento, e o
engajamento dá lugar a uma apatia defensiva. Dessa forma, o sistema que exige sacrifício máximo acaba, paradoxalmente, sabotando o próprio resultado
que diz buscar.
Felizmente, uma resistência silenciosa começa a tomar forma, não como umato de rebeldia, mas de autopreservação. Movimentos como o “quiet quitting”,
a demissão silenciosa, não são sobre preguiça, mas sobre a coragem de impor limites e redefinir o que é ser um bom profissional, de finalmente entender que um CPF vale mais que um CNPJ. Trata-se de reivindicar o direito ao descanso,ao tédio criativo e aos momentos de “inutilidade” que, no fim das contas, são oque nos tornam humanos e, inclusive, mais inovadores.
Então, da próxima vez que você quiser aplaudir seu cansaço, pare e pense. A sua exaustão não deveria ser um troféu a ser exibido, mas sim um alarme numa casa que você mesmo botou fogo. Precisamos desconstruir a ideia de que nosso valor reside em nossa capacidade de produção. Afinal, no seu leito de
morte, ninguém vai pedir para ver seu relatório de performance.
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