Artigo de opinião

O futuro da Seleção Brasileira não é tão assustador quanto seu passado recente sugere.

O futuro da Seleção Brasileira não é tão assustador quanto seu passado recente sugere.

Artigo de Opinião por Gabriel Loureiro


Revisado por Rafaela Quintas

Publicado por Mariana Mota Lopes

Vinícius Júnior comemora gol em vitória contra a seleção escocesa. Foto: Rafael Ribeiro/CBF; Disponível em: https://www.fotospublicas.com/acervo/copa-2026/vini-jr-e-matheus-cunha-brilham-de-novo-e-brasil-vence-escocia-e-garante-primeiro-lugar-do-grupo-c

O final da Copa do Mundo de 2026, a maior já disputada, trouxe para a torcida brasileira um saldo verdadeiramente eufórico: o hexa. O único detalhe é que, para a tristeza de muitos e a alegria provavelmente apenas dos argentinos, trata-se não da sexta estrela no escudo da Canarinha, mas sim da cereja do bolo numa sequência de 24 amargos anos, que se tornarão 28 até a disputa da próxima edição, nos quais a torcida é forçada a ver a equipe que a representa nos maiores palcos do esporte exibindo performances no máximo medíocres, enquanto mira, milagrosamente, equiparar-se aos seus momentos de glórias passadas. Nessas quase três décadas, a propósito, ainda marcam o maior período entre conquistas, superando aquele entre o tricampeonato, em 1970, e o tetra, em 1994.

Na expectativa de que fosse dada continuidade ao bom período que a Canarinha viveu entre os anos do tetra e do penta, as pobres almas que acompanham a seleção foram obrigadas a atrelar suas esperanças a superstições e coincidências existentes entre anos em que o desempenho da seleção foi satisfatório e as últimas seis edições do torneio, tendo que se conformar, subsequentemente, com eliminações precoces e dolorosas. Um pequeno infortúnio a somar-se à seca é a cicatriz mais profunda da história do futebol brasileiro: o fatídico 7×1. Na sua própria casa, os guerreiros desprovidos dos poderes místicos de Neymar Jr. foram derrotados. Depois, perderam mais uma partida, dessa vez contra a Holanda na disputa pela 3ª colocação, e nada puderam fazer diante de uma final entre seus rivais argentinos e a equipe pela qual acabara de ser humilhada.

Tentou-se recomeçar com Tite, mas a estratégia adotada, de confiar os resultados do time, basicamente, apenas na criatividade de Neymar, provou, depois de três edições infelizes, que era um modelo insustentável. Dessa forma, mesmo com um dos jogadores que mais representou o “jogo bonito”, que sempre definiu a identidade da seleção, o futebol apresentado seria muito melhor caracterizado como “jogo feio e mal”. A decadência desse estilo tão caro aos fãs brasileiros, sendo ela proposital ou não, é um fator que vem consolidando a decadência da Canarinha nos últimos anos.

Pouco se importando com a situação brasileira, no entanto, estão nossos “hermanos” (apelido cada vez mais incoerente). Maravilharam-se ao ver sua seleção, liderada mais uma vez pelo nunca obsoleto Lionel Messi, mostrando um futebol extremamente forte e perseverante, que impressionou (além de enfurecer) grande parte dos espectadores do torneio. A cultura desenvolvida pela Albiceleste culminou na disputa de sua segunda final seguida e provavelmente seguirá sendo parte central da identidade dessa geração argentina, mesmo após a aposentadoria de Messi da seleção nacional.

Quem também se beneficia com o pobre futebol tupiniquim é o esporte no contexto do Velho Continente que, tirando proveito da dormência da Canarinha, vem se consolidando como o melhor e mais moderno na atualidade, enquanto esta se vê sendo ultrapassada, com sua relevância e o respeito construídos por alguns dos maiores nomes da história do futebol sendo marginalizados, situação cuja gravidade se torna cristalina ao perceber-se que a torcida mais jovem não tem glórias das quais possa se orgulhar.

Curiosamente, a situação da esfera de clubes brasileiros não poderia ser mais distante daquela que a seleção enfrenta. Ao analisar o desempenho deles nas competições da CONMEBOL, é nítido que a CBF tem muito o que aprender com os clubes que a ela se subordinam. Apesar de muitos dos que têm sido bem-sucedidos nesses anos recentes terem como principais astros jogadores estrangeiros, a dominância do futebol brasileiro na Libertadores, por exemplo, é inquestionável: sediaram-se na terra de Pelé os últimos sete campeões da América, sem contar os que chegaram às fases mais avançadas do torneio, além da forte presença na Copa Sul-Americana. Por outro lado, os clubes argentinos, mesmo tendo observado algum sucesso no âmbito continental, não se comparam ao sucesso alcançado por seus rivais brasileiros.

Não é preciso analisar o âmbito continental para identificar o quão forte o futebol brasileiro, apresentado pelos clubes, pelo menos, tem sido. O Campeonato Brasileiro tem sido, ativamente, um dos que crescem no cenário mundial e, com isso, ao contrário da seleção que os representa, tem batido de frente com suas contrapartes europeias. Com diversos jogadores renomados do futebol internacional tentando a sorte em terras tropicais nos últimos anos, além da competitividade já familiar aos brasileiros sendo exportada aos mais diversos cantos do mundo, são injustificáveis as falhas que foram capazes de condenar as últimas gerações da Canarinha.

A verdade é que, nesses últimos anos, os habitantes do País do Futebol têm questionado se sua nação merece, de fato, essa alcunha. Com jogadores se importando muito mais com suas próprias imagens e lucro, o futebol tem ficado em segundo plano. Porém, apesar dos desempenhos contrastantes entre os melhores do mundo e a podridão apresentada pela seleção brasileira, se engana o torcedor que acredita que a camisa mais pesada da história do esporte vai permitir que o topo do futebol mundial continue sem ouvir o canto do Canarinho.

Não interprete, leitor, essa tentativa de trazer esperança aos corações verde-amarelos erroneamente: o início da era Ancelotti não foi ideal, com mais uma eliminação no segundo jogo de mata-mata — mandamento desde a Copa da Rússia, em 2018 — que nessa oportunidade, ao invés de se dar nas quartas de final, antecipou-se e ocorreu numa das novidades da edição: a fase de 16 avos de final, o que significa que os soldados de Ancelotti conseguiram, surpreendentemente, diminuir ainda mais o rendimento que já era mínimo.

Mesmo com esse belo desempenho a ser adicionado em seu repertório, é inquestionável que Carletto é um técnico extremamente competente, amplamente testado nas mais diferentes ocasiões, e que se saiu bem em uma considerável parte delas. A mais recente foi sua passagem pelo Real Madrid que, com as presenças de Vini Jr. e Rodrygo, rendeu a ele o título de melhor técnico do mundo na visão de grande parte da comunidade esportiva mundial, especialmente na das mentes por trás da seleção verde-amarela, que o viram como a luz no fim do túnel.

Tendo na dupla de brasileiros que treinou na Espanha, ferramentas não faltam para Ancelotti trabalhar da melhor forma possível. Afinal, ao ser a cabeça do esquadrão que representa o País do Futebol, é claro que não faltarão opções para serem convocadas e testadas na tentativa de alterar o rumo do esquadrão nacional, em direção a uma modalidade do esporte que possa ser mais condizente com os padrões construídos durante tantos anos.

Evidentemente, uma chave que deve ser contemplada pelo treinador e sua comissão é o resgate do “jogo bonito”, em detrimento do pseudo-futebol apresentado recentemente. A criatividade e a ousadia sempre foram centrais no estilo de jogo verde-amarelo, tendo como expoentes nomes que variam de Garrincha até Ronaldinho Gaúcho. Felizmente, é justamente dessas qualidades que a próxima geração é dotada em abundância. Com Vinícius Jr. liderando uma legião que conta com Endrick, Rodrygo, Estêvão e muitos outros, o talento que está à disposição de Ancelotti é incontestável.

Apesar do histórico questionável do técnico em relação a jovens talentos, é praticamente impossível que a cobrança generalizada quanto à utilização e ao desenvolvimento desses jogadores permita que eles sejam excluídos das escalações na “nova era” da seleção brasileira que está por vir.

Em contraste, porém, com esses pontos positivos a serem considerados quando se pensa nos próximos anos do futebol brasileiro, alguns “fanáticos” frustrados podem dizer que não há salvação em vista para esse time. Não devem estar familiarizados esses “torcedores” com o conceito de torcida. O futebol brasileiro, sendo aquele em que a paixão pelo esporte está mais presente, exige, tradicionalmente, suporte incondicional à equipe que se apoia. A seleção brasileira sempre contou com isso e há de continuar contando, pois o apelido de “País do Futebol” não foi dado ao Brasil à toa: a torcida continuará fazendo sua parte, mesmo que o time não faça o mesmo em campo.

Logicamente, o apoio sempre vai ser diretamente proporcional à atuação do time em campo, porém, novamente, é incompatível com a identidade esportiva brasileira a ausência do constante apoio e da cantoria vindo não só das arquibancadas, mas dos cantos da América do Sul e do planeta. Vêm aí, torcedores, uma nova seleção brasileira. O Canarinho voltará aos holofotes globais em 2030, novamente em seu próprio continente, para mostrar que tem memória curta: já são passados os tempos medíocres da equipe nacional. Canarinho Hexa. 13 letras.

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