Biografia

Vaganova: o sobrenome que carrega uma história surpreendente

Vaganova: o sobrenome que carrega uma história surpreendente

Biografia por Brunna Alencar


Publicado por Leonardo Dantas

Corpo de Ballet

Agrippina Vaganova, conhecida por muitos apenas por seu sobrenome, nasceu em São Petersburgo, no ano de 1879. Desde sempre esteve ligada ao Balé Imperial do Teatro Mariinsky por causa do trabalho de seu pai, que era recepcionista do teatro. Aos nove anos de idade, em 1888, ingressou na Escola Imperial de Ballet, berço dos maiores nomes da dança clássica. Em 1897, formou-se na classe de aperfeiçoamento, que representava um nível mais avançado de treinamento para bailarinos profissionais. Após sua formatura, conseguiu entrar no Balé Imperial. Não demorou muito para se tornar solista e ser apelidada de “Rainha das Variações” por outros bailarinos.

Mas o que transformou Vaganova em um nome eternizado na história do balé não foi apenas sua técnica como bailarina, mas também a forma revolucionária com que passou a ensinar. Após sua aposentadoria, em 1916, Vaganova começou a dar aulas na Escola da Frota do Báltico. Cinco anos depois, tornou-se professora do Colégio Coreográfico, que, naquela época, era conhecido como Escola Imperial de Teatro. Além disso, em um momento histórico de profundas transformações sociais na Rússia, ela se destacou pela preservação e reinvenção do legado do balé clássico. Após a famosa Revolução de Outubro, o balé na Rússia passou a ser visto apenas como um símbolo elitista, um entretenimento da corte. No entanto, Vaganova “lutou com unhas e dentes” para não apagar o legado do Balé Imperial e,com isso, transformou a dança clássica em uma arte acessível, viva e moderna.

Outro marco importante de sua trajetória foi o período como diretora artística do Balé do Teatro de Ópera e do Balé de Leningrado, entre os anos de 1931 e 1937. Em 1933, encenou o clássico ” O Lago dos Cisnes” e, em 1935, “La Esmeralda”, com parte da coreografia criada por ela mesma. Vale destacar que sua abordagem nas coreografias não era apenas técnica, mas profundamente pedagógica: ela reformulou a movimentação com base na estrutura corporal e nas possibilidades reais dos bailarinos, o que tornava a dança ao mesmo tempo rigorosa e mais humana. Isso representava, para muitos artistas da época, – especialmente mulheres -, uma nova forma de se expressar e resistir em cena.

Um ano antes da remontagem de “La Esmeralda”, em 1934, lançou seu livro chamado “Fundamento da Dança Clássica”. A obra viria a se tornar a base do famoso método Vaganova, que até hoje é adotado por escolas de dança ao redor do mundo. O método combinava a elegância francesa, a força italiana e a precisão russa, formando bailarinos completos e conscientes do próprio corpo. Ainda nesse mesmo ano, criou um departamento pedagógico para futuros professores de balé no Conservatório de Leningrado. Muitos de seus ex-alunos da escola de dança se tornaram seus alunos novamente, mas dessa vez para se tornarem professores assim como ela. Ou seja, Vaganova formava não apenas artistas, mas também educadores, garantindo a continuidade de seu legado.

Durante muitos anos, foi professora no Balé Kirov, antes chamado de Ballet Mariinsky, até 1951, quando foi substituída por Natalia Dudinskaya. Infelizmente, Vaganova faleceu em 1o de novembro de 1951. Pouco depois disso, o Colégio Coreográfico, onde havia sido professora, foi renomeado em sua homenagem. Em 1961, foi titulado como acadêmico e, em 1991 se tornou a “Academia Vaganova de Ballet Russo”, como é conhecida até os dias atuais.

Entretanto, por que essa história ainda importa hoje? Justamente porque Agrippina Vaganova foi precursora de uma nova forma de ensinar, sentir e viver o balé. Ela abriu espaço para que mulheres ocupassem posições de liderança em um universo que, à época, ainda era dominado por estruturas rígidas e masculinas. Seu método, seu livro, suas coreografias e sua luta política e pedagógica não pertencem apenas ao passado: continuam vivos em cada sala de aula de dança, em cada nova bailarina que se forma.

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