Infância contemporânea: a disputa entre bonecos e telas

Dissertação argumentativa por Maria Eduarda Azevedo Cunha


Publicado por Maria Luisa Peres

Imagem ilustrativa do tema que diz respeito à influência de telas na infância.

Cada vez mais, sob efeito de uma crescente exposição avolumada e precoce à tecnologia, parece ser encurtada a primeira fase da vida de um indivíduo, a infância. Na etapa inicial da vida, compreendida desde o nascimento até os 12 anos de idade, as experiências vividas são cientificamente reconhecidas por afetarem profundamente o desenvolvimento físico, mental, social e, inclusive, emocional do ser que se forma. Nesse sentido, as tarefas às quais são submetidas as crianças são de extrema importância para o molde de seus comportamentos. Dessa forma, faz-se imprescindível assistí-las em suas primeiras experiências, garantindo seu bom proveito. 

Ao comparar gerações, entretanto, faz-se notória nítida diferença entre os costumes de indivíduos enquadrados nessa faixa-etária ao longo do tempo. Como costumam relatar os nascidos entre o final da década de 1940 e meados da década de 1960, popularmente batizados “Baby Boomers”, em alusão ao aumento volumoso dos índices natalícios pós-Segunda Guerra Mundial, a infância costumava ser preenchida por momentos de lazer externo, situações cotidianas e quase rotineiras, muito marcantes para esses indivíduos. De 1965 até 1980, aqueles que compõem a atual Geração X continuam a relatar memórias parecidas. Era comum que brincassem nas ruas, uma vez que, à época, o movimento automobilístico possuía, ainda, menor volume. 

Para os “Millennials”, Geração Y, ainda eram muito frequentes alguns hábitos externos. O intervalo estabelecido de 1981 até meados da década de 1990, entretanto, é marcado por um avanço tecnológico exponencial, que se intensifica progressivamente. Aqui estabelecem-se com mais potência alguns hábitos internos. Com a transição para a Geração Z, compreendida por aqueles nascidos entre 1997 e 2010, alguns hábitos, como a locação de fitas, “games” e gibis, as horas de pesquisa com longas enciclopédias e as brincadeiras de rua, perdem força e passam a ser substituídos por alternativas digitais.

Os rápidos avanços tecnológicos evidenciados por essas duas últimas gerações propiciaram, evidentemente, uma maior facilidade na execução das tarefas do dia a dia. O acesso a filmes e conteúdos congêneres é ampliado pelas plataformas de “streaming”, difundido por uma muito mais ampla abrangência. As pesquisas são facilitadas por navegadores virtuais capazes de acessar extensos bancos de dados e de reproduzi-los aos usuários. Há, entretanto, legítima preocupação de que essas muitas facilidades acabem acompanhadas de diversos malefícios aos jovens em desenvolvimento. Sucedem as brincadeiras de rua, por exemplo, horas de jogatina ou o uso abusivo de redes sociais por longos períodos. 

De acordo com o portal “Electronics Hub”, estima-se que, no Brasil, o tempo de tela médio seja de 9 horas e 13 minutos, diariamente. O dado aponta que, em relação ao horário que se mantêm acordados, cerca de 54,7% do tempo dos brasileiros é dedicado às telas. O país ocupa, como propõe a análise, a segunda colocação no ranking global dos “maiores tempos de tela”. Estima-se, também, uma média diária de 3 horas e 37 minutos exclusivamente para o uso de redes sociais. Sherry Turkle, psicanalista do Massachusetts Institute of Technology (MIT), pesquisou extensamente o impacto das redes sociais nas relações e afirma que estas debilitam os laços humanos. Em seu livro “Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other”, descreve detalhadamente os impactos negativos de estarmos constantemente conectados, o que paradoxalmente já implica uma certa sensação de solidão. Como afirma, “os laços que formamos através da Internet não são, no final, os laços que unem, mas sim os laços que preocupam”.

Como exposto, o acesso a todo tipo de conteúdo passa a ser facilitado a todos os públicos, inclusive ao infanto-juvenil. O mal proveito de tal facilidade pode causar eventuais antecipações e contatos precoces para com experiências que seriam mais oportunas se postergadas. Mais além, pode culminar em processos como a “adultização” ou a sexualização de menores, tópicos delicados evidenciados por uma série de postagens recentes, como o vídeo do influenciador Felca, pelo qual denunciou os atos perversos de aproveitadores que utilizavam da imagem de menores para a produção de conteúdos impróprios, a fim de cativar um público devasso a partir da sensualidade. 

Além do fim em si mesmas, a indecência e a obscuridade dos atos denunciados podem, potencialmente, implicar uma série de efeitos degradantes aos menores envolvidos, promovendo o estabelecimento de óbices ao seu desenvolvimento. Quaisquer ações que atentem contra a integridade ou que obstruam o desenvolvimento pleno do indivíduo jovem devem ser afincadamente caçadas e severamente corrigidas. É importante ratificar que, nessa etapa de suas vidas, ainda não possuem o senso cognitivo mais apurado e, portanto, as escolhas dessas crianças, bem como suas ações, devem sempre ser assistidas, acompanhadas e ponderadas pelo bom senso de um responsável já desenvolvido. 

À criança cabe ser criança, e ao seu responsável, torná-lo viável! Afinal, preservar a infância é preservar o futuro, e, por uma geração mais capaz, criativa e saudável, precisamos garantir que nenhuma tela seja capaz de roubar o tempo daquilo que prepara o indivíduo para a vida: ser criança, errar e brincar.

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