TCC por Bernardo Luís Giacomelli Fernandes em 31 de Outubro de 2022
Publicado por Beatriz Pinheiro Martins
Resumo
O presente texto tem como objetivo comparar, em questão de eficiência, dois métodos numéricos que surgiram em diferentes momentos históricos: o Método da Exaustão de Arquimedes e o Método da Bisseção de Newton. Para isso, foram feitos algoritmos na linguagem de programação Python. Feito isso, optou-se por aproximar a constante π utilizando cada método e compará-los a partir disso
Palavras-chave:
Método da Exaustão de Arquimedes. Método da Bisseção de Newton. Python. Aproximação de Pi. Métodos Numéricos.
Abstract:
This text aims to compare, in terms of efficiency, two numerical methods that emerged in different historical moments: Archimedes’ Exhaustion Method and Newton’s Bisection Method. For this, algorithms were made in the Python programming language. After that, it was chosen to approximate the constant π using each method and compare them from there.
Keywords:
Archimedes’ Exhaustion Method. Newton’s Bisection Method. Python. Approximation of Pi. Numerical Methods.
1. Introdução
Métodos numéricos são um conjunto de operações matemáticas cujo objetivo é descobrir resultados com precisão arbitrária. Quando aliados à computação, utilizam a rapidez e praticidade oferecida pelo potencial de processamento dos computadores, utilizando, conforme a demanda, uma aproximação do valor a ser encontrado.
Nesse contexto, a obtenção de valores aproximados para aplicação em situações da realidade é um fato que ocorre desde a antiguidade. Arquimedes, filósofo e matemático grego, é um exemplo disso. Além de contribuições na física e astronomia, trouxe avanços na Geometria, sendo notável o Método da Exaustão, o qual estima a área de um círculo a partir da inscrição de polígonos nele, conforme mostra a Figura 1. No tempo do geômetra, a humanidade ainda não tinha o conhecimento da constante π, de fundamental importância para o cálculo envolvendo a circunferência. Graças a Arquimedes, tal valor foi descoberto, e foi estimado a partir do Método da Exaustão.
Dessa forma, as contribuições de Arquimedes não se limitam à Geometria. Exemplo disso é a contribuição do Método da Exaustão no desenvolvimento de um artifício de aproximação da área abaixo do gráfico de uma função, realizado por Bernard Riemann no século XIX. Essa estimativa é feita partir da inscrição de retângulos, de forma que a soma das áreas de todos eles seja aproximadamente a área real. Dessa forma, conforme ilustra a Figura 2, a aproximação pode resultar numa área maior ou menor do que real, a depender da quantidade de retângulos.
Desse modo, vários fenômenos da natureza, bem com situações práticas do cotidiano envolvem aplicações de leis matemáticas. Com efeito, a obtenção do resultado de tais expressões matemáticas é fundamental para o entendimento da realidade. As contribuições de Isaac Newton, influente físico, astrônomo e matemático, para o cálculo numérico são exemplo disso. Utilizando a ideia matemática de limite, Newton pôde desenvolver a derivação, que encontra a taxa de variação instantânea de uma função. Um outro método aproximativo desenvolvido pelo matemático foi o Método da Bisseção, concebido em colaboração com Joseph Raphson no século XVII, que obtém, a partir de um intervalo numérico, uma raiz de qualquer equação real, desde que cumpridos alguns parâmetros.
Dessa maneira, o presente texto visa verificar a aplicação de dois métodos numéricos para obter uma aproximação da constante π: o Método da Exaustão de Arquimedes, e o Método da Bisseção; bem como compará-los em questão de eficiência, agilidade e precisão. Para isso, foram construídos algoritmos para os respectivos métodos, na linguagem de programação Python.
Para a análise de eficiência de cada método, foram escolhidos os seguintes parâmetros:
• quantidade de casas decimais corretas;
• quantidade de lados do polígono necessárias ou iterações para obter tal
aproximação.
2. Método da Exaustão de Arquimedes
O Método da Exaustão de Arquimedes consiste na inscrição ou circunscrição de polígonos em uma circunferência a fim de encontrar uma aproximação da área do círculo. Para isso, calcula-se a área do polígono inscrito e a do circunscrito, e obtém-se a estimativa. Dessa forma, o erro da aproximação é dado pela subtração da área do polígono circunscrito pela área do inscrito. Portanto, quanto maior for o número de lados dos polígonos, maior é a precisão, isto é, o erro diminui à proporção que a quantidade de lados aumenta, e o oposto também é verdade (BOYER, 2012).
2.1 Explicação do Código
O código estima a área da circunferência a partir da inscrição de um polígono regular. Dessa maneira, divide-se o polígono em triângulos, que podem ser ilustrados pela Figura 3, e obtém-se a área de cada um deles.
Por fim, é realizada a soma das áreas de todos os triângulos. O código parte da noção de que a área de um triângulo é expressa por:
A = a · b · sen(θ)/2,
onde a, b e c são os lados do triângulo, ao passo que A é a área.
Dessa forma, dividindo o polígono em vários triângulos congruentes, nota-se que a = b, e que ambos são iguais ao raio da circunferência (r), e calcula-se a área. Então multiplica-se o número de lados do polígono pela área do triângulo, resultando na área da figura. Por esse raciocínio, estima-se a área do círculo, escrita no código como:
A = n · r2 · sen(θ)/2,
onde n é o número de lados do polígono, θ é o parcela do ângulo central (em radianos), e r corresponde ao raio e, consequentemente, a dois lados do triângulo.
Feito isso, para obter o ângulo g, divide-se 360° pelo número de lados do polígono. Então, é feita a conversão de graus para radianos, multiplicando g por π/180 .
Nesse contexto, embora um dos objetivos do presente texto seja estimar π, esta mesma constante foi utilizada no código conforme é possível observar. Não obstante, tal limitação se deve ao fato de a conversão de graus para radianos ser possível somente por intermédio de π. Essa conversão é indispensável pois o computador calcula somente pela medida de graus em radianos.
Dessa forma, apesar de a constante ter sido aproximada por Arquimedes a partir do Método da Exaustão, na época do matemático os métodos utilizados para efetuar o cálculo eram diferentes e rudimentares. Afirma-se isso pois o geômetra utilizava uma série de polígonos inscritos na circunferência e, por causa disso, várias fórmulas específicas para calcular a área de cada um deles (BOYER, 2012). Diferentemente, o presente código calcula a área por meio das operações descritas anteriormente.
Além disso, conforme evidencia Menezes (2021), há vários polígonos que não podem ser construídos por meio de régua e compasso, mas somente pelo intermédio de computadores. Exemplos disso são o heptágono e o eneágono. Consequentemente, o código se torna um modelo aprofundado do Método da Exaustão de Arquimedes, visto que consegue calcular aproximações a partir de polígonos de quaisquer quantidades de lados.
2.2 Resultados
Feito o cálculo, a partir do Método da Exaustão, foi utilizada, para a verificação da quantidade de casas decimais corretas, a fórmula atual da área do círculo (πr2). Os resultados estão dispostos na Tabela 1.
Para estimar π, foi utilizado um valor de raio igual a 1. Dessa forma, obtém se um círculo cuja área é 1 · π = π.
3. Método da Bisseção de Newton
Para aplicar o método da Bisseção é necessário um intervalo numérico qualquer em que uma função f(x) intercepte o eixo x, de um plano cartesiano, somente uma vez, conforme ilustra a Figura 4. Então, calcula-se o ponto médio entre os dois números (a e b) que compõem os limites desse intervalo. O ponto médio é dado pela média aritmética de a e b (GÊVANE e CASTRO, 2010).]
Tendo calculado o ponto médio, denominado m, calcula-se f(m). Se f(m) = 0, m é a raiz da equação. Caso contrário, f(m) pode ser maior ou menor que zero. Desse modo, tem-se que f(a) > 0, e f(b) < 0.
Então, definem-se novos limites usando o valor m. Sabemos que um dos números f(a) ou f(b) possui sinal contrário ao de f(m). Neste caso, as novas extremidades do intervalo serão (não necessariamente nesta ordem) m e o valor – a ou b – tal que a imagem dele por f tenha o sinal oposto ao de f(m).
Um detalhe notável é o fato de que para funções cuja raiz tem um valor cuja expansão decimal tem representação finita, haverá um resultado f(mn) = 0. Entretanto, há funções cujas raízes não são exatas. Nesse caso, estima-se um valor de acordo com a precisão desejada.
Outro ponto importante é a necessidade de que exista somente uma raiz no intervalo fornecido. Caso haja mais de uma, não é possível determinar a raiz (GÊVANE e CASTRO, 2010).
Para exemplificar o processo, para calcular uma raiz para f (x) = x 3 − 1, tem-se que os limites iniciais são, por exemplo, 0 e 2. Segue que:
f(0) = −1
f(2) = 7
m = 0+2/2 = 1
f(m) = f(1) = 1 − 1 = 0
Portanto, 1 é a raiz da função.
Tomando um intervalo maior, a = −1, b = 3, tem-se que:
f(a) = f(−1) = −2
f(b) = f(3) = 26 m = 2
f(m) = f(2) = 7.
Observa-se que
f(a) < 0
f(b) > 0
f(m) > 0.
Dessa forma, substitui-se b por m, uma vez que ambos possuem o mesmo sinal. Desse modo, os novos limites são −2 e 2. Então, repete-se o processo:
m2 = a+m/2 = −2+2/2 = 0
f(m2) = −1
f(m2) < 0.
Substitui-se a por m2 e tem-se que
m3 = m+m2/2 = 2+0/2 = 1
f(m3) = f(1) = 0.
Portanto, 1 é a raiz da função – o que pode ser visualizado na Figura 4.
3.1 Explicação do código
O código, para calcular a raiz de uma função em um intervalo, imita o processo descrito acima. Partindo de um intervalo numérico fornecido pelo usuário, o programa faz o processo. Uma vez que há equações cuja raiz não é exata, o programa pede o valor do erro desejado pelo usuário.
Com base nesse valor de erro, determina-se o número de iterações necessárias para obter a estimativa da raiz.
3.2 Resultados
Para estimar π, foi utilizada a função f(x) = sen(x), sempre utilizando os limites de mínimo e máximo como, respectivamente, 2 e 4. Além disso, para cada aproximação, foi escolhido um valor de erro. Por meio dessa análise, foi medida a precisão da estimativa. Os resultados estão escritos na Tabela 2.
4. Comparação
Diante dos dados expostos (Tabelas 1 e 2), é possível comparar os métodos no que tange a eficiência para a obtenção de estimativas de valores.
Conforme consta na Tabela 1, o método da Exaustão precisou inscrever um polígono de 17 lados para obter uma aproximação com 0.1 de erro. Para a conseguir um erro 10 vezes menor, foi necessário um polígono 54 lados. Como se observa, a cada vez que se diminui o erro desejado em 10 vezes, multiplica-se por, aproximadamente, 3 o número de lados do polígono a ser inscrito na circunferência.
Por outro lado, quando se utiliza o método de Newton para a obtenção de π, utilizando como limites inferior e superior, respectivamente, 2 e 4, nota-se um aumento na eficiência. Para estimar o valor π com um erro de 0.1, o método utilizou 5 iterações. Para um erro de 0.01, 8 iterações. Dessa forma, a cada vez que se diminui o valor do erro desejado em 10 vezes são necessárias 3 iterações a mais, em geral.
Nesse contexto, o método da Exaustão apresenta uma progressão expressiva no que diz respeito ao número de lados do polígono inscrito. Conforme mostra a Tabela 1, para obter uma aproximação com 6 casas decimais corretas, foi necessário um polígono de 16714 lados – uma quantidade que pode ser considerada grande. A partir disso, é possível dizer que o método de Arquimedes é menos eficiente que o método de Newton, dada a quantidade de lados necessária para a aproximação.
Nesse sentido, o método de Newton apresenta uma progressão lenta quanto ao número de iterações necessárias para estimar π. De acordo com a Tabela 2, para uma aproximação de 6 casas decimais corretas, foram necessárias 25 iterações – um número que pode ser considerado pequeno. Com efeito, afirma-se que o método de Newton apresenta maior eficiência para a obtenção de aproximações, visto que possui uma menor progressão de repetições.
5. Conclusão
À face do exposto, é possível concluir que a humanidade desenvolve métodos numéricos desde a antiguidade, conforme os conhecimentos da época permitem. Dessa forma, é notável a importância do Método da Exaustão de Arquimedes para o desenvolvimento de conhecimentos algébricos e geométricos. Mais do que estimar áreas de círculos, esse método foi importante pois foi base para muitos outros métodos numéricos no decorrer da História, sendo a Aproximação de Riemman um exemplo disso.
Além disso, destaca-se o Método da Bisseção de Newton. Por meio de um intervalo numérico arbitrário, desde que cumpridos alguns parâmetros, esse método consegue calcular, ou estimar, a raiz da qualquer equação.
Nesse contexto, o presente texto teve como objetivo comparar o Método da Exaustão e o Método da Bisseção em questão de eficiência, fazendo, para isso, a estimativa do valor de π. Para tanto, foram escolhido dois parâmetros: quantidade de casas decimais corretas e a quantidade de lados do polígono inscrito ou iterações necessárias para isso.
Feito isso, observou-se que o método de Newton é mais eficiente no que diz respeito à precisão e à quantidade de iterações necessárias para o cálculo. Desse modo, ao passo que o método de Arquimedes requeria uma quantidade grande de lados do polígono para estimar π, o método de Newton precisou de uma quantidade pequena de iterações para obter um resultado com a mesma precisão.
Apesar disso, é necessário salientar que o Método da Exaustão foi criado no período da Idade Antiga, e a Bisseção na Idade Moderna, e por isso tal discrepância na eficiência é um fator justificável, dado o desenvolvimento matemático de cada período.
Desse modo, é possível observar que a matemática se desenvolveu com o passar dos séculos, e que as ferramentas antigas, embora menos eficientes que as modernas, foram de fundamental importância para a humanidade.
6. Referências
BOYER, C. História da Matemática. 3ª edição. Editora Blucher. 2012.
GÊVANE, F. e CASTRO, J. Licenciatura em Matemática: Cálculo Numérico. Fortaleza (CE). 2010.
MENEZES, C. Polígonos Construtíveis. Ouro Preto (MG). 2021
A todos que me deram apoio para finalizar este trabalho, e ao professor Papalardo pela paciência e atenção: obrigado!
O novo roubo no Louvre choca o mundo e reabre o debate sobre segurança em…
Quem mais senão os jovens? Artigo de opinião por Bárbara Alves Publicado por Mariana Freire…
As mudanças climáticas que assombram Belém. Noticia feita por Melissa Lustosa Publicado por Valentina Resende…
Um sopro de vida Resenha por Maria Eduarda Azevedo Publicado por Júlia Aucélio Livro Um…
A intencionalidade de “A Sociedade dos Poetas mortos resenha por isadora macario publicado por alicia…
Demanda por enfermeiros cresce no Brasil e amplia oportunidades na educação e na carreira Notícia…
Utilizamos cookies
Entenda como utilizamos