Ópera do Malandro- o teatro como forma de análise crítica sobre o desequilíbrio social brasileiro
Noticia por Luma Carvalho
Revisado por Luísa Friedman
Publicado por Fernanda Martins

O musical “Ópera do Malandro”, escrito por Chico Buarque -grande escritor, compositor e cantor brasileiro-, estreou pela primeira vez no ano de 1978, no Rio de Janeiro. A peça faz uma crítica indireta à ditadura de Getúlio Vargas e ao Brasil da época. A obra foi inspirada na “ Ópera dos Três Vinténs”, de Bertold Brecht, um excelente dramaturgo e poeta alemão, e retrata a malandragem brasileira, movimento esse que está ligada à forma com a qual alguns brasileiros levam a vida de maneira mais boêmia, sem usar da ética para solucionar problemas cotidianos. Brecht desenvolve a ideia do teatro épico, que tem como intenção romper a ilusão cênica, forçando o público a uma análise do desequilíbrio social. Chico Buarque, inspirado na teoria brechtiana, não teve a intenção de causar a catarse na plateia, mas sim de levar o público à um lugar de reflexão, uma vez que, se o Brasil pede soluções para questões sociais, o teatro, por si só, pode promover uma mudança, começando pelo impacto individual em cada espectador. “Poderá o mundo de hoje ser reproduzido pelo teatro?“, é o questionamento feito por Brecht e, com base nisso, apesar da Ópera do Malandro ainda ser uma comédia dramática, a intenção por trás da obra não é de apenas causar identificação emocional, mas sim, de transformar o espectador em um observador crítico e racional.
A definição de teatro musical pelo Dicionário do Teatro Brasileiro, é dada como: “todas as formas dramáticas que utilizam a música como expressão.” Essas formas teatrais e musicais usam a dramaturgia para criar personagens, conflitos, e ações, mas é através da música que todos se expressam. Com base nisso, a trilha sonora usada no musical foi composta no álbum “Ópera do Malandro”, desenvolvida pelo próprio Chico Buarque, especialmente para a peça. A composição engloba diversas músicas que fizeram grande sucesso, inclusive fora do contexto teatral, como “Folhetim”, conhecida na voz de Gal Costa. Com uma mistura de samba e música popular brasileira, o compositor ainda faz citações a Beethoven e a obras como “Carmen”, de Georges Bizet.
A música “Geni e o Zepelim”, de Buarque, retrata um dos grandes emblemas da trama. O seu refrão, “(…)joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar!(…)”, se tornou um enorme ícone nacional da perseguição moral à população transexual.Geni, uma travesti humilhada constantemente pelos moradores da cidade, teve a sua vida mudada depois da chegada de um comandante alemão, que ameaçava atacar todos os habitantes por meio de um enorme zepelim, porque odiou chegar à vila e ver tanto horror e iniquidade. A ideia do homem parece mudar instantaneamente quando vê Geni, já que ele propõe poupar a cidade em troca de uma noite com ela. “Vai com ele, vai, Geni!”, o povo, desesperado, implorava para Geni dormir com o comandante para que todos fossem salvos; porém, depois do sacrifício, o desprezo voltou em dobro para a mulher. Agora que a moça não tinha mais utilidade para a cidade, todos voltaram a tratá-la com desgosto. Dessa forma, Buarque, ao dar voz à uma personagem vulnerável, retratou como a sociedade explora e descarta os marginalizados.
A montagem de 2026, em São Paulo, apostou em uma forte caracterização do elenco, com maquiagens pesadas e cores vibrantes, formando uma quase máscara no rosto de cada ator, representando as personalidades e o caráter individual das personagens. Dessa forma, com muita dança, sapateado e gingado, o musical passeia pelas raízes culturais brasileiras, sem deixar de mostrar o contexto da boemia. Um assunto bem desenvolvido no musical é a exploração do trabalho, principalmente das mulheres que estavam diariamente no bordel, onde boa parte da trama acontece. A personagem Jussara Pé de Anjo tem uma cena importante no segundo ato do musical, quando, no meio do protesto feito pelas mulheres do bordel, denunciando as condições de exploração e violência na cidade, diz que guarda tanta coisa entalada que não cabe nem em um cartaz de cinema. Nesse contexto, é óvia a crítica sobre como a personagem prefere se manter em silêncio por medo de ser repreendida. Desse modo, quase no final da peça, por meio de um samba, a crítica principal vem à tona, quando é afirmado que ser malandro é profissão, é oficial e até federal no Brasil. De acordo com esse trecho, pode-se entender a inversão de valores, quando o malandro não é apenas o indivíduo informal, de classe baixa, mas, sim, aquele que usa de estratégias para se beneficiar, sem sofrer consequências.
Portanto, ao escrever esse musical, Chico Buarque fez história com músicas conhecidas e aclamadas e atendeu às necessidades do público brasileiro, retratando de forma minuciosa a vida de todos os personagens, que carregam uma história bem construída emocionalmente. Ademais, com fatores históricos e intertextualidade, é possível reconhecer as diversas questões abordadas na peça em um tempo de ditadura militar, além da forma com a qual o público é induzido a criar um olhar crítico sobre o ser humano, retratado da forma mais “crua” possível.
