Você comeria um hambúrguer feito com as células do seu cachorro?
Notícia por: Lires Beatriz de Assis Sousa Velloso
Revisado por Lucas bezerra
Publicado por Maria Clara Vargas

Em 1931, Winston Churchill, o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, disse: “Cinquenta anos daqui para frente, escaparemos do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, cultivando essas partes separadamente em um meio adequado.” Essa premissa tornou-se o catalisador de uma jornada experimental ambiciosa por meio de pesquisas complexas e biorreatores potentes.
Por incrível que pareça, a trajetória da produção de carne em laboratório começou cedo. Nos anos 70, Russell Ross, um professor renomado e dedicado a pesquisas sobre a patogênese da aterosclerose, marcou o avanço da medicina regenerativa e demonstrou o cultivo de fibras musculares lisas in vitro. A transição da carne cultivada da medicina para a alimentação começou nos anos 90, quando Jon F. Vein patenteou o uso de células-tronco para consumo humano. Desde então, a teoria ganhou força com marcos práticos: em 2001, a NASA financiou a primeira produção de carne de peixe em laboratório para os astronautas. O ápice desse desenvolvimento ocorreu com a criação do primeiro hambúrguer cultivado do mundo, um projeto de 250 mil euros financiado secretamente por Sergey Brin, cofundador do Google, consolidando a viabilidade do setor.
Ao contrário do que muitos pensam, a carne cultivada não surgiu apenas por capricho científico. Ela foi desenvolvida a partir da necessidade de garantir, em larga escala, que populações mais pobres tenham acesso a uma alimentação adequada, especialmente a fontes de proteína animal.
Atualmente, o cenário desgastante da desigualdade desenfreada vem perseguindo o mundo todo, tendo em vista o crescimento populacional no mundo, rumo aos 10 bilhões. Não há carne para todos, e ,mesmo se tivesse, a opção de “plantar” carne seria muito mais sustentável, pois evitaria a alta emissão de gases de efeito estufa (metano e CO₂), o uso intensivo de terra e água e o desmatamento.
No entanto, tudo é lindo em teoria, mas o que realmente acontece por trás dessas declarações utópicas vem se convertendo em polêmicas e dilemas éticos. Muitos questionam a procedência e a qualidade da carne produzida artificialmente. Para que as células se tornem um bife com textura e sabor aceitáveis, é necessário o uso de andaimes (scaffolds) biocompatíveis, aditivos e conservantes. Ou seja, apesar do bife produzido ser fonte de proteína, ainda é insegura a forma como esses conservantes podem influenciar na saúde dos consumidores.
Ademais, muitos ativistas questionam como uma tecnologia que promete acabar com o abate animal pode depender de um subproduto do próprio abate para funcionar. E claro, os altos custos de produção são um gargalo para que essa seja uma estratégia que se consolide na solução perfeita para todos os problemas gerados pelo consumo e produção de carne bovina e avícola. Além de atiçar a dúvida de se essa tecnologia realmente chegará às mesas das periferias globais ou se se tornará apenas um artigo de luxo “eco-friendly” para a elite ostentar às custas de tecnologias que originalmente visavam lutar contra a desigualdade social e a fome.
Portanto, quase um século após a profecia de Winston Churchill, a humanidade encontra-se diante de um contexto que barra a ciência através de ética e dualidades morais. Se essa biotecnologia de alto custo pode produzir qualquer tipo de carne sem sofrimento animal, as fronteiras do que definimos como comida se tornam perigosamente difusas. Onde está a linha tênue que delimita a partir de que ponto um experimento gastronômico se torna aberrações dignas de Frankenstein?
Por outro lado, muitos cientistas apontam que ,com a evolução dos experimentos, há grandes chances de essa ser uma opção realmente viável e cada vez mais acessível. Resta a humanidade deixar o tempo correr e ver se pagarão o preço por uma solução real para fome ou se estarão apenas financiando um tentame da elite de desafiar a moral às custas da sociedade, servindo a excentricidade de acompanhamento.
