As origens do conflito entre Irã, Israel e EUA

 As origens do conflito entre Irã, Israel e EUA

Reportagem por Sofia Todorov


Revisado por Laura Raslan

Publicado por Martina Matteo


Fumaça após bombardeios em Teerã, capital do Irã (Foto: EFE/ Mehrnews)

Os recentes ataques de Israel, com o apoio dos Estados Unidos, ao Irã deram início a uma nova fase de instabilidade no Oriente Médio. A fim de entender o conflito, é necessário compreender a longa história de rivalidade entre as duas nações, as quais evitavam o conflito direto por meio de financiamentos de grupos armados rivais ao redor da região.  

Os avisos de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, sobre os investimentos iranianos em armas nucleares datam de 1992, quando afirmou ao Knesset (Assembleia legislativa de Israel) que o Irã conquistaria poder nuclear em menos de cinco anos. Três anos depois, o argumento apareceu em seu livro, Lutando Contra o Terrorismo. Essa narrativa prevaleceu nos discursos do israelense por trinta e três anos, culminando nos ataques que ocorreram durante esse mês. Contudo, a relação Israel-Irã nem sempre foi marcada por antagonismo.

Durante a monarquia dos xás da dinastia Pahlavi, o Irã representava o maior aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio e, em 1949, foi o segundo país da região a reconhecer a criação do Estado de Israel. As duas nações possuíam acordos militares e econômicos durante esse período, apesar de serem privados devido a possíveis retaliações do povo iraniano e dos países árabes vizinhos. 

Entretanto, com a Revolução Ruhollah Khomeini em 1979, a qual derrubou a monarquia dos xás e impôs uma República Islâmica, a posição do país persa em relação aos seus antigos aliados mudou drasticamente. 

A autodeclaração dos aiatolás, líderes políticos supremos, defensores dos oprimidos, e oposição às marcas de imperialismo americano no Oriente Médio,  marcou o início dos conflitos. Essa ideologia também levou o país a se manifestar contra a existência de um Estado israelense. 

A República Islâmica do Irã passou a apoiar grupos como a Organização para a Libertação da Palestina, que defendiam a criação de um Estado Palestino em oposição ao governo de Israel. O apoio ao povo palestino tornou-se um dos grandes pilares do governo dos aiatolás na batalha contra Israel.

Ademais, o financiamento de Teerã direcionado a organizações armadas ao redor do Oriente Médio, as chamadas “proxies iranianas”, foi um grande fator responsável pela ratificação do antagonismo entre os dois países. Assim como ocorreu entre a União Soviética e os EUA após a segunda guerra mundial, Israel e Irã entram em uma série de confrontos indiretos ao redor do mundo, como estratégia de enfraquecer o inimigo e expandir sua influência, a chamada “Guerra nas Sombras”.

Israel sempre teve uma preocupação com o programa nuclear de Teerã, afirmando não ser voltado somente para aplicações civis. A posse de armamentos nucleares significaria não apenas uma eminente ameaça para Tel-Aviv (cidade em Israel), mas também um “escudo nuclear”. 

Além do Irã, governos ao redor do mundo observaram que a conquista de tecnologia bélica nuclear serve de proteção aos ataques estrangeiros. Por exemplo, a Coreia do Norte, que, apesar de ainda estar em estado de guerra, não tem grandes preocupações com ameaças em seu território, principalmente devido ao seu conhecimento sobre armamentos nucleares. Em contrapartida, nações que frearam seus programas nucleares foram invadidas recentemente. A Ucrânia é um caso concreto, tendo transferido suas reservas de urânio enriquecido para a Rússia após a dissolução da União Soviética.

O fenômeno acima é explicado pela teoria de Destruição Mútua Assegurada (MAD), surgida durante o período da Guerra Fria. Ela conceitualiza a noção de que um ataque nuclear por parte de uma nação desencadearia em um contra-ataque, causando destruição em ambos países. Essa teoria motiva o interesse pelo poder bélico nuclear em governos envolvidos em tensões militares.

Todavia, o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), assinado em 1968, representa um acordo entre a maioria das nações mundiais para evitar a utilização de armas nucleares e promover o implemento pacifico de energia nuclear ao redor do globo. O objetivo principal desse tratado é alcançar o desarmamento nuclear total no futuro, entretanto a Índia, o Paquistão, Israel e a Coreia do Norte não aderiram ao acordo (a Coreia do Norte se retirou em 2003, após assinar inicialmente).

O Irã é signatário desde 1970, porém está em constante monitoramento da Agência Internacional de Energia Atômica, a qual fiscaliza o uso nuclear dos países signatários do TNP. Devido às tensões relacionadas ao programa nuclear iraniano, diferentes maneiras de controlar os avanços desse país foram consideradas, sendo a mais eficaz o incentivo financeiro. 

Dessa forma, os EUA, a União Europeia e a Organização das Nações Unidas firmaram, em 2015 com o Irã, um acordo atômico que reduzia a capacidade nuclear iraniana. Em troca, as sanções econômicas impostas ao país seriam suspendidas. Esse acordo foi criticado por Israel, o qual defendia que o financiamento iraniano de suas proxies vinha do pacto. No ano de 2018 os EUA, durante o primeiro governo de Donald Trump (atual presidente dos Estados Unidos), retiraram a sua participação no acordo. Com o fim do financiamento, o Irã voltou com seu programa nuclear, o qual afirma ter fins exclusivamente passivos.

Os conflitos entre os dois países do Oriente Médio continuou sem confrontos diretos, porém, agora o inimigo de Israel estava avançando em suas pesquisas atômicas. Com o intuito de enfraquecer o Irã, Tel-Aviv concentrou o seus ataques aos apoiadores de Teerã. O genocídio em Gaza, os bombardeios no Líbano contra o Hazbollah, no Iêmen contra os Houthis, no Iraque contra as milícias e o apoio aos grupos na Síria contra o ex-presidente Bashar Al-Assad, são alguns dos exemplos da estratégia de enfraquecimento utilizada.

Enquanto Israel tentava minar as alianças iranianas pelo Oriente Médio, Washington trabalhava com Teerã para firmar um novo acordo nuclear, semelhante ao assinado durante o governo de Barack Obama (ex-presidente dos Estados Unidos). Dois dias antes dos primeiros bombardeios israelenses no Irã, a terceira rodada de negociações havia se encerrado com o ministro das Relações Exteriores iraniano afirmando à BBC que houve um “bom progresso”.

Por sua vez, o presidente Donald Trump expôs que não estava satisfeito com os conflitos de interesses entre as duas nações, porém não planejava utilizar força militar contra o país iraniano. Enquanto os EUA queriam o fim absoluto do enriquecimento de urânio, as autoridades iranianas defenderam que o país possui o direito de utilizar energia nuclear de forma pacífica. Apesar das desavenças, as negociações estavam caminhando para um possível acordo entre as nações.

Contudo, os ataques coordenados por Israel e EUA do dia 28 de fevereiro deram fim às possibilidades de um tratado pacífico com o Irã. O resultado da guerra e a estimativa do seu fim ainda não estão claros, porém pode-se assumir que ainda há muita destruição por vir. Até o momento já foram registradas pelo menos duas mil mortes em todo o Oriente Médio, devido aos ataques israelenses-americanos e os contra-ataques iranianos aos aliados dos dois países. 

O país com mais mortes registradas no presente é o Irã, o qual teve, de acordo com a agência Human Rights Activists News Agency, 1.319 civis, sendo pelo menos 206 crianças, e 1.122 militares mortos. Israel declarou 12 mortos e os Estados Unidos confirmaram 13 mortes de militares.

Gostou? Compartilhe!
Acessar o conteúdo