As Origens da Regra das 10 mil horas

As Origens da Regra das 10 mil horas

Notícia por Bárbara Cândido


Revisado por Maria Beatriz Lima

Publicado por Alícia Ferreira

Demonstração de sessão de estudo.

  “Dedicar-se por muito tempo em algo é sinônimo de sucesso”. Variações dessa afirmação tornaram-se cada vez mais comuns a partir dos anos 2000 e seu fundamento é mais científico do que se imagina. A concretização dessa crença ocorreu em 2008, quando o jornalista Malcolm Gladwell publicou “Fora de série”, livro que rapidamente se tornou o maior sucesso de sua carreira. A obra foi responsável por consolidar uma regra que logo se tornaria um padrão universal para a sociedade do século 21, moldando a vida de milhares de pessoas sonhadoras.

     A Regra das 10 mil horas, como conhecemos, apresenta uma proposta objetiva: Entregue 10.000 horas da sua vida para uma prática e receberá a excelência de volta. No entanto, simplicidade não é um termo comum quando se trata da mente de um ser humano e para o aprendizado não seria diferente. É correto afirmar que praticar gera frutos, mas o erro está em ignorar o contexto em que o aprendiz está inserido, tal qual suas individualidades. Nunca foi apenas sobre “colocar a bunda na cadeira e estudar”, é preciso levar em conta diversos fatores tais como se o estudo é autônomo ou se há um professor auxiliando no processo. Se o ambiente é favorável ao aprendizado ou é turbulento e caótico. Se há acompanhamento médico, tanto físico, quanto mental. Por esse motivo, a regra de Gladwell já sofreu diversas críticas pela mídia e especialistas da área da psicologia. Segundo Anders Ericsson, é uma “generalização provocativa”,  “uma simplificação excessiva e uma interpretação incorreta (do material original)”.

     Segundo o psicólogo, não basta apenas praticar, é a prática deliberada que desempenha seu papel crucial no desenvolvimento de habilidades. Ao se referir à prática deliberada, Ericsson se refere a um treinamento estruturado que é intencional e sistemático. Ou seja, enquanto a regra discutida é voltada para a quantidade de horas que uma sessão de estudos leva, o foco da deliberada está na qualidade do tempo gasto. Da mesma forma que dirigir um carro todo dia para ir ao trabalho não te tornará um campeão de fórmula 1, ou cozinhar o jantar todo dia de semana não te fará a Paola Carosella. O psicólogo destaca que, mesmo que um grande período de tempo de prática seja essencial para desenvolver uma habilidade – como dirigir todo dia por várias horas – agir sem treinamento de qualidade irá, na menor das situações, tornar o processo extremamente lento.

    De acordo com Ericsson, não basta apenas praticar: é a prática deliberada que desempenha seu papel crucial no desenvolvimento de habilidades. Enquanto a regra das 10 mil horas enfatiza a quantidade, a prática deliberada valoriza a qualidade do tempo investido. Assim como dirigir diariamente não torna alguém um piloto de Fórmula 1, nem cozinhar rotineiramente forma um chef renomado, a repetição sem qualidade limita o progresso. Mesmo quando o tempo de prática é elevado, a ausência de método adequado torna o avanço lento e pouco eficiente.

   Em síntese, 10 mil horas não deve ser considerado o fator determinante para o sucesso. Esforço e consistência são fundamentais, mas é a forma como a prática é conduzida que define os resultados. A prática deliberada, ao priorizar a qualidade, constitui a base para o desenvolvimento sólido de habilidades. Reduzir o processo de aprendizagem a uma simples contagem de horas revela-se, portanto, uma visão limitada e inadequada.

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