Zuzu Angel e o ativismo no mundo da moda
Notícia por Clara Cardoso Carneiro
Revisado por Eduarda D’Amorim Santos Guedes
Publicado por Pedro Henrique Balduino Barreto

Zuleika de Souza Netto, popularmente conhecida como Zuzu Angel, foi uma estilista mineira que teve sua história marcada por ser a primeira fashionista a falar sobre identidade e legitimidade brasileira em suas produções, além de ter sido pioneira na utilização de materiais tipicamente vindos do Brasil. A artista buscava abordar a alegria e riqueza das cores naturais da cultura nacional, características que fizeram sucesso e a destacaram no mundo da moda.
Seu filho, Stuart Angel, era militante e líder de uma organização revolucionária na luta contra a ditadura. Devido às suas manifestações contra o regime, Stuart foi preso, torturado e morto em dependências do governo no ano de 1971. Assim, da dor e sofrimento de perder um filho surgiu a inspiração para que Zuleika planejasse um dos desfiles mais marcantes de sua carreira.
Nesse desfile, ocorrido no consulado brasileiro, na cidade de Nova York, Zuzu apresentou suas criações como forma de protesto. O que aparentavam ser desenhos de traços infantis, na realidade ilustravam a falta de liberdade e a opressão vivenciada pelos brasileiros naquele momento. Bordados de pássaros em gaiolas, canhões e quepes foram alguns dos elementos utilizados pela estilista para representar o regime militar.
Por mais de 5 anos, a artista procurou incansavelmente o corpo de seu filho, até o dia de sua morte. Na madrugada de 14 de abril de 1976, Zuzu Angel se tornou mais uma vítima do regime militar, assim como seu filho, em um suposto “acidente de carro”. Uma semana antes do “acidente” fatal, Zuzu havia deixado um documento na casa de Chico Buarque (cantor e compositor de MPB), para ser publicado caso algo lhe acontecesse. No documento estava escrito: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.
Mesmo assim, foi apenas no ano de 2025 que o Ministério dos Direitos Humanos retificou a certidão de óbito da estilista, reconhecendo oficialmente que sua morte em 1976 foi um assassinato causado pelo Estado brasileiro. A trajetória de Zuzu Angel exemplifica a utilização da arte como forma de resistência, e sua persistência na busca por justiça fez dela um símbolo de coragem, memória e luta pelos direitos humanos no Brasil.
