Desconstrução de um ídolo: O novo filme de Michael Jackson e a influência da mídia na ruína do rei do pop
Noticia por Luma Carvalho
Revisado por Luísa Nogueira Friedman
Publicado por Fernanda Martins

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Michael Jackson, a estrela do pop, nascido em uma família afro-americana, em 1958, pode ser visto sob diversas perspectivas. Para muitos, ele é conhecido como o “Rei do Pop”, um artista completo, com álbuns extremamente detalhados, repletos de dança e criatividade musical. Para outros, ele é o estereótipo adequado de celebridade que se esconde através de performances extravagantes e luvas brilhantes, por conta das diversas controvérsias envolvendo o seu nome e carreira musical. Com seu álbum “Thriller”, lançado em 1992, Jackson ficou conhecido como o rei incontestável do mundo da música. O disco, por sua vez, também rendeu à Jackson um recorde de oito prêmios em uma única noite no Grammy Awards de 1984 e o seu vídeo-clipe de 14 minutos, com uma narrativa inspirada em filmes de terror, redefiniu a relevância de clipes musicais como uma forma cinematográfica de reinventar a música pop em escala global. Ao explorar com muita dedicação o canto e a dança, o cantor entrou para o recorde mundial do Guinness Book ao vender mais de 65 milhões de cópias do seu disco.
“MICHAEL”, sua primeira biografia oficial, chegou aos cinemas no dia 23 de abril de 2026, após décadas de documentários e narrativas sensacionalistas sobre a vida pessoal do cantor. Com direção de Antoine Fuqua e Dion Beebe – ambos renomados diretores norte americanos- foi confirmado que o filme não tem a intenção de mostrar ao público o lado conturbado e tumultuado da vida de Jackson, mas sim, retratar como o cantor perseguiu suas ambições e lutou para construir as suas próprias identidades antes que o mundo o transformasse em um mito. O documentário conta com um elenco de peso, com nomes como Colman Domingo e Nia Long, dois atores de muito sucesso em Hollywood, além de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, que deu vida, de uma maneira majestosa, ao personagem do tio. “Todo mundo simplesmente parou e ficou boquiaberto. Percebemos naquele momento que poderíamos realmente explorar a incrível habilidade de Jaafar como dançarino e artista”, diz Beebe, impressionado com a competência do ator.
Nesse contexto, o filme sobre Michael Jackson é uma “versão suavizada” e “fraca”, segundo os críticos. De acordo com Clarisse Loughrey, uma crítica estadunidense, o filme é uma exploração comercial sem alma. “Tudo o que a obra faz é recriar, em estilo mecânico, os visuais mais famosos da carreira de Jackson. Certamente é mais fácil assim. Por que se dar ao trabalho de retratar um ser humano quando se pode simplesmente transformá-lo em um produto?” questiona ela. O filme, por si só, apresenta um foco na carreira artística do cantor e deixa como segundo plano as suas lutas internas, como seus traumas de infância, a maioria por consequência da perturbada relação com o seu pai e seus irmãos, com abusos físicos e psicológicos. O jornal americano Annenberg Media afirma que nenhuma complexidade da vida pessoal de Michael é abordada de forma profunda, uma vez que o astro também sofria com a síndrome de Peter Pan- síndrome que “descreve adultos que relutam em amadurecer, evitando responsabilidades e assumindo comportamentos infantis ou imaturos.
Além disso, o filme aborda, de forma suave, as milhares de questões envolvendo a aparência do cantor. Sua carreira e sua imagem estiveram atreladas a diversas polêmicas e controvérsias. Suas mudanças físicas se tornaram “pauta quente” na imprensa durante muito tempo, fazendo com que ele se tornasse um objeto de curiosidade do público. Michael sofria de vitiligo- uma doença crônica caracterizada pela perda da coloração da pele, resultando em manchas brancas. Com base nisso, vale ressaltar que Jackson era um artista negro, mas que devido à doença, teve a sua pele clareada de forma acelerada. A mídia e o jornalismo abordaram, de forma grotesca, na década de 80 e 90, o corpo negro do artista, conduzindo o público à criar teorias e especulações falsas sobre a estrutura do cantor. Logo, é óbvia a compreensão de como as figuras públicas têm as suas narrativas construídas com base em suas imagens e a maneira que essa construção é feita de forma midiática.
É fundamental para a compreensão do caso de Michael, entender como o corpo branco e o corpo negro foram construídos por meio dos discursos da mídia. O conceito de raça surge historicamente como uma forma de fazer distinção entre os sujeitos da sociedade atual, mas foi um termo distorcido, muitas vezes por um pensamento eurocêntrico. A partir do momento em que uma narrativa de que existe um sujeito negro atrelado a características negativas, existe a construção do sujeito branco com características positivas. Com base no filósofo e historiador Michael Foucault, “o racismo foi inserido nos mecanismos da sociedade como forma de fazer separação para o funcionamento da biopolítica” – Entende-se por “biopolítica” um conceito desenvolvido por Foucault que descreve como o poder estatal controla e regula a vida biológica da população.
As músicas “They don’t care about us” e “Black or White” de Michael Jackson, abordam diretamente a denúncia pela indiferença das autoridades e da sociedade diante da violência, do preconceito e da exclusão. A performance do cantor conta com expressões e referências como em “I’m the victim of police brutality, now” (“Sou vítima de brutalidade policial, agora”) e “Throw the brother in jail” (“Joguem o irmão na cadeia”) que escancaram a sua luta contra o racismo e a discriminação. É importante considerar que Michael era um homem racializado, de modo que os discursos raciais representavam o modo como ele enxergava a si. Com isso, a forma como os padrões o atravessam afetava diretamente a sua percepção do próprio corpo, levando-o à realizar diversas cirurgias, como retratado em sua biografia. As mudanças na aparência de Jackson podem ser entendidas, então, não apenas como um fator íntimo, mas também como um controle do público sobre o seu corpo e identidade. Apesar de todos os obstáculos, a mídia foi extremista e sensacionalista ao publicar reportagens e matérias sobre o cantor na época, depois de passar por diversos tratamentos dermatológicos por conta de sua doença. “Negro diferente dos outros negros”, “negro performático”, “ negro malandro”, “negro que quer ser branco” e “negro monstruoso e sem identidade” foram termos utilizados em diversos artigos sobre o artista, ao retratar ele com falta de humanidade e o colocar em uma posição de insatisfação com o próprio corpo e expor um conflito racial e hereditário.
A vida de Jackson chegou ao fim no dia 25 de junho de 2009, com um final trágico por overdose, devido a altas doses de medicamentos controlados. O seu médico pessoal foi condenado por homicídio culposo em relação a sua morte. O falecimento do artista gerou enormes movimentos e ondas de tristezas ao redor do mundo. Até os dias de hoje, Michael é considerado um dos maiores cantores da história, sendo homenageado de diversas formas como visto na sua mais recente biografia, que segue crescendo nos cinemas mundiais, alcançando marcos impressionantes de bilheteria. Segundo dados divulgados pela Lionsgate, o filme já arrecadou cerca de US$ 238,9 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 331,1 milhões internacionalmente. Dessa forma, o filme entra oficialmente para a história do cinema como a maior cinebiografia musical de todos os tempos norte- americana, superando os US$ 216,7 milhões de Bohemian Rhapsody- biografia do cantor Freddie Mercury- no mercado americano.
Portanto, entende-se que “MICHAEL” tenta equilibrar o espetáculo do artista ao mostrar uma incrível performance de Jaafar Jackson, recriando momentos icônicos do cantor, incluindo coreografias, músicas e performances como um todo. No entanto, o filme divide opiniões ao ter dificuldades em contextualizar de modo suficiente a vida íntima do astro, ao deixar de lado ou de segundo plano muitos momentos conturbados de sua carreira e infância, que o fizeram ser quem ele genuinamente era. Tal contexto estava relacionado principalmente à sua doença vitiligo, que de forma imprecisa, escandalosa e muitas vezes caluniosa, foi abordada pela mídia da época. Dessa maneira, percebe-se ainda atualmente a influência do artista sob cantores da nova geração e a sua importante colaboração para mudar o cenário da história da música, fazendo com que Michael honre de maneira fiel o grande título de “O rei do pop” .
