O Céu abriu espaço para a homofobia?

O Céu abriu espaço para a homofobia?

Notícia por: Lires Beatriz de Assis Sousa Velloso


Revisado por: Lucas Bezerra

Publicado por: Maria Clara Vargas

Foto Cristo Redentor com paisagem natural e arco-íris

Foto Cristo Redentor com paisagem natural e arco-íris

Se o seu papel como cristão é afastar as pessoas do caminho para a fé, você é um desserviço para a igreja, que coloca sua intolerância acima do amor de Jesus Cristo. Acreditar em Deus vem sendo adotado como parâmetro intrínseco à fé cristã. Se você diz acredita em Deus mas não exerce sua empatia e amor ao próximo, sinto lhe dizer, mas até o Diabo acredita em Deus, e isso não o torna parâmetro de santidade.

A Bíblia Sagrada é o livro mais vendido, traduzido e lido de toda a história da humanidade. Mais do que um livro único, ela funciona como uma biblioteca de textos sagrados que servem como um guia espiritual e de aproximação do criador cristão. Mas surge o pensamento: será que em algum momento a Bíblia deixou de ser um caminho para Deus e passou à ocupar o lugar do próprio Deus? Aí, entra um conceito pouco conhecido: a bibliolatria. A bibliolatria não é simplesmente amar muito a Bíblia ou considerá-la sagrada; é quando o texto bíblico é tratado de maneira tão absoluta ou isolada que a própria finalidade espiritual da escritura é esquecida. Da bibliolatria decorre um fenômeno ainda mais insubstancial: o uso seletivo das escrituras. Quando o texto é isolado de sua história e de sua intenção original, ele deixa de ser uma ponte florescida a partir do amor de “Cristo” e passa à ser uma arma com a cruel habilidade de sustentar preconceitos pessoais. Essa leitura fragmentada torna-se evidente na maneira como determinados versículos são invocados de forma absoluta para fundamentar a rejeição e o preconceito contra a comunidade LGBT+, por exemplo.

“Passemos aos textos que frequentemente alimentam esses discursos: em Levítico 18:22: Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é.”

“Levítico 20:13: Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.”

Ao analisar o contexto em que foram escritos, sem meros vislumbres, a interpretação simplista rui. No “Antigo Testamento”, as leis de Levítico buscavam preservar a identidade cultural e demográfica de Israel contra as práticas rituais de povos vizinhos, ligadas à fertilidade e à idolatria. No mundo greco-romano do “Novo Testamento”, o conceito moderno de orientação sexual afetiva e consensual não existia; os termos empregados por Paulo (como malakoi e arsenokoitai) referiam-se a dinâmicas de exploração sexual, prostituição cultual, pederastia e abusos de poder entre mestres e escravos. 

Em relação à doutrina da Igreja Católica, a posição sobre os relacionamentos afetivos não nasce da rejeição, da condenação individual ou do uso descontextualizado de passagens bíblicas. Pelo contrário: a Igreja reconhece e acolhe a dignidade intrínseca de cada pessoa humana, lembrando que todos são infinitamente amados por Deus e chamados a caminhar na graça, no respeito e na comunhão. A reflexão teológica sobre o matrimônio deriva da compreensão do amor conjugal como uma vocação específica, aberta à complementaridade e ao dom da vida. O convite à castidade, portanto, não é um fardo exclusivo ou uma negação do afeto, mas um apelo universal feito a todos os fiéis, em qualquer estado de vida, para vivenciarem o amor de forma pura, cuidadosa e orientada ao bem supremo do outro, refletindo o cuidado generoso e paciente do Criador por cada um de seus filhos. 

Teólogos e estudiosos contemporâneos apontam que aplicar esses textos diretamente a relacionamentos homoafetivos calcados no amor e no compromisso mútuo é um anacronismo. Diante disso, a questão central não é simplesmente dizer se esses versículos “estão errados”, mas provocar um questionamento mais profundo: porque determinados versículos do texto antigo são tratados como verdades eternas e absolutas, enquanto dezenas de outras prescrições bíblicas são abertamente relativizadas ou ignoradas pelos fiéis hoje? Se o critério da literalidade rígida fosse real, a prática diária de qualquer cristão moderno seria radicalmente diferente.

Para compreender o peso dessa seletividade, basta observar normas presentes no próprio texto bíblico que hoje seriam impraticáveis ou incompatíveis com a vida em sociedade. O mesmo livro de Levítico proíbe comer carne de porco ou frutos do mar (Levítico 11:7-12) e proíbe vestir roupas feitas de tecidos mistos, como algodão e poliéster (Levítico 19:19). A cobrança de juros em empréstimos é severamente condenada (Êxodo 22:25), o trabalho no dia de descanso exigia a pena de morte (Êxodo 31:15), e filhos rebeldes que desobedecessem aos pais deveriam ser apedrejados na porta da cidade (Deuteronômio 21:18-21).

Nenhum cristão contemporâneo defende o apedrejamento de um jovem por desobediência nem considera um pecado grave vestir uma camiseta de tecido misto. Portanto, é de cunho probatório, que essas leis pertencem a um contexto histórico, sanitário e cultural específico do antigo Oriente Médio. O próprio cristianismo carrega em sua essência uma dinâmica hermenêutica: a fé cristã jamais tratou o texto como um código estático. As leis antigas foram lidas, reinterpretadas e ressignificadas ao longo dos séculos. O critério para saber o que permanece e o que se transforma passa diretamente pela figura de Jesus.

No Evangelho de Mateus (5:38-39), Jesus afirma: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso”. Diante da mulher pega em adultério, cuja pena prescrita pela Lei de Moisés era o apedrejamento, Jesus intervém, questiona a autoridade moral dos acusadores e prioriza a vida e o resgate da pessoa (João 8:1-11). Quando questionado sobre o trabalho no sábado, ele reordena as prioridades: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27).

Jesus não declara que a Escritura é descartável; ele estabelece o amor a Deus e o amor ao próximo como o filtro pelo qual toda a Lei e os Profetas devem ser interpretados (Mateus 22:37-40). Dentro da teologia cristã, Jesus é a palavra viva de Deus. Se a interpretação de um texto escrito resulta no atropelo da compaixão, a leitura desviou-se da própria fonte.

Quando a interpretação bíblica se descola do amor, o discurso religioso passa a produzir frutos de violência moral, psicológica e até física. Um exemplo marcante do impacto de uma cultura de condenação ocorreu em 1998, no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. Matthew Shepard, um jovem universitário de 21 anos, foi brutalmente espancado, amarrado a uma cerca em meio ao frio congelante e abandonado até a morte unicamente por ser gay. Durante seu velório, grupos fundamentalistas ergueram faixas com slogans religiosos justificando a violência como “juízo divino”.

Esse é o ponto em que uma teologia desumanizadora atinge seu ápice. Ainda sim é comum ouvir o argumento no dia a dia: “Eu jamais faria algo assim. Apenas não apoio a comunidade LGBT porque a Bíblia ensina que eles estão em pecado.”

Essa justificativa exige encarar de frente a forma como o conceito de pecado tem sido instrumentalizado. Dentro da tradição cristã, o reconhecimento do pecado é uma condição universal: todos são imperfeitos e necessitados da graça. Em nenhum lugar do ensino cristão o pecado do outro concede a alguém a licença para hostilizar, julgar ou marginalizar o próximo.

Ao fixar a orientação sexual como um “pecado supremo”, constrói-se uma hierarquia moral conveniente, onde os pecados daqueles que julgam, a soberba, a fofoca, a ganância, a falta de caridade, são perdoados e naturalizados, enquanto a existência do outro é permanentemente condenada.

Mesmo sob a ótica da teologia católica tradicional, que distingue pecados mortais de pecados veniais, nenhuma falta moral justifica o desprezo. O próprio Catecismo da Igreja Católica, em seu parágrafo 2358, orienta expressamente que as pessoas homossexuais “devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza” e que “evitar-se-á, em relação a elas, qualquer sinal de discriminação injusta”.

A contradição torna-se evidente quando a pessoa que afirma lutar contra o pecado passa a produzir, em sua própria atitude, vícios gravemente condenados pelo cristianismo: a soberba moral, a intolerância, o julgamento impiedoso e a ausência de amor. Ao tentar “salvar” a moralidade alheia, destrói a própria caridade.

Voltemos ao ponto de partida: se o seu papel como cristão é afastar as pessoas do caminho para a fé, você é apenas uma ferramenta do Satanás; lobo em pele de cordeiro. O problema nunca foi ler a Bíblia, honrá-la ou buscar nela a direção espiritual. O problema surge quando a interpretação humana do texto se torna mais importante do que as vidas que essa mesma Palavra deveria ensinar a acolher.Quando o texto bíblico é transformado em um escudo para proteger preconceitos e em uma espada para ferir o vulnerável, a bibliolatria deixa de ser um debate acadêmico. Ela revela sua face mais perigosa: a substituição do Deus do amor pela idolatria da própria opinião religiosa.

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