There is a women in Somalia: o silêncio cortante por baixo da burca
Notícia por Maria Clara Moura Peres
Revisado por Isadora Alcântara Lopes
Publicado por Emanuelle Ponte

Enquanto os gabinetes da diplomacia internacional discutem o xadrez do poder global em salas refrigeradas, existem geografias onde o mapa é desenhado com fome, sangue e tecidos pesados que tentam apagar a existência humana. É impossível olhar para o Afeganistão de hoje e para a Somália sem que a música Pearls, da Sade, ecoe como um soco no estômago, lembrando que, por trás de qualquer estatística fria de conflito, existe uma mulher escolhendo sobreviver a um inferno que ela não escolheu.
No Afeganistão, o retorno do regime Talibã transformou o espaço público em uma terra proibida, em que a burca deixou de ser uma escolha cultural para se tornar o uniforme de uma prisão a céu aberto. Sob aquele tecido denso, o que acontece é um apagamento cirúrgico e sistemático: mulheres foram expulsas das universidades, banidas do mercado de trabalho, proibidas de ocupar praças e silenciadas até no direito mais básico de ter voz própria. A soberania de um Estado não pode servir de álibi para um apartheid de gênero institucionalizado, e a burca, nesse cenário, é a fronteira física de um sistema que quer transformar pessoas vivas em sombras mudas.
Do outro lado do mapa, na Somália, a violência não veste o manto de uma lei teocrática explícita, mas a crueldade da miséria extrema, de um Estado que ruiu e das mudanças climáticas que castigam a terra sem piedade. É exatamente aí que a letra de Sade nos atinge, trazendo a imagem de mulheres caminhando sob um sol implacável para catar grãos mínimos de sobrevivência. Não há um tecido escuro cobrindo o rosto da mesma forma que em Cabul, mas há o véu invisível da fome e da negligência do mundo, que escolhe virar o rosto para uma crise humanitária crônica.
No fim das contas, a burca imposta no Afeganistão e a escassez sufocante na Somália são faces de um mesmo espelho que reflete a indiferença global. São realidades distantes que se cruzam na resistência feroz de corpos femininos que se recusam a sumir, mesmo quando o mundo inteiro parece apostar no silêncio dela
