Reportagem

O maracatu em Brasília: como a capital provou ser uma perfeita anfitriã para essa manifestação artística.

O maracatu em Brasília: como a capital provou ser uma perfeita anfitriã para essa manifestação artística.

Reportagem por Gabriel Loureiro


Revisado por Rafaela Quintas

Publicado por Thiago Pacheco

Quem caminha pelas ruas do Distrito Federal pode, ocasionalmente, deparar-se com uma das manifestações culturais mais belas e representativas do povo brasileiro: o maracatu, que, embora bem longe do contexto nordestino que proporcionou o encontro das culturas que contribuíram para a construção dos ritmos e danças característicos, provou ter se adaptado de maneira excepcional aos não menos diversificados ambientes da capital federal, recordando uma relação profunda entre o próprio maracatu e o povo brasileiro.

No que se diz sobre sua criação, o maracatu tradicional tem suas raízes frequentemente traçadas a meados do século XVIII, especificamente na zona canavieira de Pernambuco. Também no contexto de sua concepção, 3 grupos predominantes edificaram sua “árvore genealógica étnica”: os afro-descendentes escravizados, indígenas nativos e portugueses, conferindo a inigualável diversidade dessa arte. Sendo essa tríade a mesma associada à criação da própria identidade brasileira no geral, são evidentes as semelhanças que unem a história brasileira com a do maracatu.

Assim como quando se refere à identidade verde-amarela, o sincretismo também deve ser contabilizado como fundamental na formação do maracatu, sendo uma marca registrada desse conglomerado artístico. Trazendo diversos elementos oriundos principalmente de religiões de matriz africana, mas também apresentando características do catolicismo, como a presença de imagens de santos nas manifestações, além de contar com aspectos culturais de etnias indígenas, especialmente no maracatu rural.

Deve-se mencionar também que, tradicionalmente, o maracatu é ancora-se em duas grandes vertentes bem definidas: o maracatu nação, também conhecido como baque virado e o maracatu rural, ou baque solto. O primeiro é reconhecido como a variante mais antiga, ligada diretamente a rituais de coroação de reis na região do Congo, além de mais ligado a cidades importantes de Pernambuco, como Recife e Olinda. Já o segundo tende a ser mais acelerado e a apresentar percussões mais livres e soltas, com mais acentuadas influências indígenas, além da presença do colorido Caboclo de Lança, uma homenagem aos nativos trabalhadores das lavouras.

Analogamente à mistura formadora, tanto do maracatu quanto do povo brasileiro, Brasília também é amplamente reconhecida como um símbolo da combinação de diferentes hábitos, porém advindos de todas as regiões do Brasil. Notavelmente, uma das regiões que mais contribuiu com a formação da identidade brasiliense foi exatamente o Nordeste, o que veio a introduzir o maracatu ao coração do Cerrado.

 Apesar dos praticantes do maracatu em Brasília terem tido que lidar com certo sentimento de saudosismo em relação a sua região originária, mais tarde, esse sentimento foi convertido em uma espécie de missão para espalhar o maracatu em que não era tão popular na região. Pode-se dizer, visto as seis décadas que o maracatu se sustenta no DF, que essa missão foi bem sucedida, apesar de enfrentar certo desconhecimento ainda hoje por uma parcela da população brasiliense.

O bloco carnavalesco mais antigo da capital é a prova que a apresentação de ambas as partes foi amor à primeira vista. Desde 1967 (apesar de alguns períodos sem marcar presença no Carnaval brasiliense nessas 6 décadas), o Vassourinhas colore as ruas do Distrito Federal relembrando as tradições nordestinas, apoiando-se especialmente no frevo, mas com participação significativa do maracatu em seus desfiles mirando manter viva e difundir no DF a memória das tradições de todos seus povos genitores.

Mantendo a essência original da sua terra natal, mas também incorporando influências de um local tão culturalmente diversificado, o maracatu tomou rumos bem definidos em terras candangas. Enquanto no Nordeste existe a divisão bem sólida entre baque solto e baque virado, na Capital, o já miscigenado cenário cultural influenciou fortemente o expoente artístico nordestino. Grupos como o Tamnoá e Batuqueiras, formado inteiramente por mulheres, se mantêm como referências na cena do maracatu da capital, apresentando um maracatu mais livre, que foca principalmente em manter viva e difundir essa arte pelo centro do Brasil.

Reconhecido em 2014 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, com direito inclusive a um dia dedicado a ele, celebrado em Primeiro de Agosto, o maracatu evidencia, com sua história rica e muitos paralelos à brasileira, que se tornou uma das manifestações culturais mais emblemáticas do povo que o representa e que ajudou a formar. Na capital, encontrou uma segunda casa, onde a cena cultural única ressoou perfeitamente com os xequerês e agogôs que ajudam a colorir o Brasil há três séculos.

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