resenha

A intencionalidade de “A Sociedade dos Poetas Mortos

A intencionalidade de “A Sociedade dos Poetas mortos

resenha por isadora macario


publicado por alicia taveira

foto sociedade dos poetas mortos

Vulnerabilidade. Isso deve ser uma das coisas mais difíceis da humanidade. Estar aberto por completo e não se esconder requer muita coragem. E, de alguma forma, é o sentimento que eu escolheria para descrever o último ano. Estar em uma turma repleta de pessoas que você conhece há um bom tempo e reconhecer em cada uma delas a mesma aflição que você sente. Estar em um ambiente no qual te ensinaram a ver concorrência e conseguir sentir conforto. E eu acho que N. H. Kleinbaum, criador do filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, concordaria plenamente comigo.

Lançado em 1989, “A Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme que vem falando com diferentes gerações há 36 anos. Estrelado por Robin Williams, Ethan Hawke e Robert Sean, a obra consegue ser uma das representações mais belas da escola e, ao mesmo tempo, uma das mais disruptivas. Nenhuma escolha é aleatória nos seus 129 minutos. Colocar marmanjos se apaixonando por poesia tem um motivo. Ser uma escola no meio do nada tem um motivo. Ir a uma caverna tem um motivo. A peça “Sonho de Uma Noite de Verão” é escolhida a dedo. E, obviamente, o final tem um motivo. Dito isso, aviso logo que esse é um texto repleto de spoilers, uma vez que meu objetivo é discutir toda a significância desse filme e como ele pode relacionar-se com o fim da escola.

Os protagonistas do filme formam uma verdadeira sociedade alternativa onde conseguem simplesmente ser. Bastou um deles ter a ousadia de propor a ideia que eles conseguiram criar um lugar no qual eles podem, pela primeira vez, se conhecer, não só um aos outros, mas também a si mesmo. Chega a ser engraçado vê-los sem saber por onde começar: não saberem qual poesia ler, nem como a ler. Mas é puramente comum. Eles imediatamente foram estimulados a fazer arte, a senti-la e, ainda mais, a contrariar as regras. Tudo fica mais confuso quando analisamos quem os estimulou. Um professor, o símbolo da repressão e da autoridade gritando para eles para serem o que quiserem, mesmo não tendo certeza de onde isso os levará. John passa de um professor para uma inspiração. E é nessa dualidade de realidades que o filme cria um ambiente emocionante. É curioso quando paramos para pensar que são as mesmas pessoas em ambos os cenários, na escola e no clube, mas, de alguma forma, são dinâmicas diferentes. A escola consegue te pressionar de formas surreais, não só academicamente, mas a ser um padrão certo de pessoa, o que pode acabar sendo sufocante. Mas é nesse mesmo ambiente que estão as pessoas com as quais você consegue ser quem você quiser, com quem você cria vínculos que te mudam de uma maneira inexplicável. É com essas pessoas que você tem a possibilidade de criar uma sociedade para fazerem tudo que não têm coragem de fazer sozinhos.

Para mim, e para John, a arte é o que move todos nós. Enquanto houver arte, há esperança. Mas, em algum ponto na sociedade, foi decidido que um homem hétero só pode fazer arte se for bem sucedido, caso seja um hobbie ele é automaticamente estranho ou gay. Muito disso vem da noção criada que “homens de verdade” não tem sentimentos e são durões e apáticos. Esse é um dos momentos que eu agradeço por ser mulher, porque que triste deve ser uma vida sem arte. Todos os personagens têm sua vida alterada por algum tipo de arte, eles não necessariamente se apaixonaram loucamente e acharam a vocação da vida deles, mas todos conseguiram um sentimento de liberdade e capacidade. A arte foi uma maneira de se abrirem um com os outros e conseguirem crescer e se tornar “homens de verdade”.  Eu acho que a escolha da poesia como parâmetro geral vem dela ser uma das maneiras mais subjetivas de se expressar e a pura representação do grupo para os personagens, cada qual com um significado diferente para as reuniões. 

Se abrimos a porta para falar de arte, eu, como uma amante do teatro, tenho a obrigação de falar do Neil. A decisão de ele ser a pessoa que vai se apaixonar completamente pelo teatro é quase maldosa, porque ele é o único que tem certeza absoluta de que não poderá seguir a carreira. Eu gosto de dizer que o teatro é a arte dos empáticos, das pessoas que sentem muito e não sabem onde botar. Ele possibilita você virar qualquer outra pessoa, viver qualquer outra vida. Mas escolher o Neil para interpretar o Puck de “Sonho de Uma Noite de Verão” é totalmente intencional. Para aqueles que não fazem a mínima ideia, “Sonho de Uma Noite de Verão” é uma peça de Shakespeare cheia de confusões. Seus três enredos principais são: uma confusão amorosa entre quatro jovens, no qual dois decidem fugir para ficar juntos, a rivalidade entre Oberon e Titânia e a tentativa de um grupo de artesãos em montar uma peça, acompanhado pelas milhares de trapalhadas de Puck. A peça toda se passa numa floresta, por meio da qual enfatizam que ela é o local onde a magia acontece, onde tudo se revela. Um paralelo exato à Sociedade dos Poetas Mortos. A obra de 1600 também consegue retratar de um jeito curioso como conflitos dos mais velhos podem afetar a juventude. O Puck é o causador do caos: ele que inicia todas as desventuras, seja ao seguir uma ordem ou seu coração, mas nunca mal intencionado. Porém, no final, confessa, em seu monólogo, que tudo não passou de um sonho, que nada que acabou de acontecer é verdade e que espera que ele e a plateia possam se conciliar. Neil curiosamente dirige esse texto inteiramente para seu pai que o olha com a feição de mais puro desapontamento. 

É nesse cenário que temos um dos fins mais trágicos na minha opinião. No momento que o Neil entra no carro de seu pai, ele já sabe seu destino, e, infelizmente, John também. Ele olha para Neil como a própria tragédia shakespeariana que não pode ser impedida. A escolha de cometer um suicídio nunca é compreensível, mas eu acho que nunca vi em nenhuma obra alguém com um olhar de tanta certeza como o Neil. Ele descobriu algo que se agarrou na sua noção de ser, e não me refiro ao teatro mas sim ao próprio sentimento de viver. A parte mais triste é que ele não estava pedindo para ser ator: ele estava satisfeito em ser médico assim como seu pai pediu. Ele só queria tirar sua dúvida, experimentar ao menos uma vez como era estar no palco. Ele não morre em um, mas decide que enquanto puder estaria naquele personagem. E não seria Puck que morreria: Neil tira sua coroa para reforçar que quem morre é ele, não sua arte. A reação dos seus amigos é uma das coisas mais desoladoras que eu já vi. É o fim do sonho, é perceber que no final do dia eles não mudaram o mundo todo, só o deles. É um tapa na cara que os faz acordar. Acordarem, não desistirem. A mudança já foi feita, agora é decidir se eles querem abraçá-la ou fingir acreditar na norma. “Oh Captain, My Captain” é honrar tudo que esse grupo representou para eles. 

“A Sociedade dos Poetas Mortos” mudou a vida de muitas pessoas. Foi a primeira vez que muitos viram a realidade atingir adolescentes de forma tão brutal. Eu acho muito curioso que, mesmo com um desfecho certamente trágico, o que as pessoas levam é a esperança e a ideia de que você nunca saberá se não tentar. A ousadia desses adolescentes é, de certa forma, inspiradora. Ela te lembra da beleza da arte. Eu espero que você esteja pensando em começar um grupo de poesia com seus amigos. Minha dica é: faça, você nunca sabe como vai acabar.

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