Quem ensina o professor? A omissão que compromete o futuro da educação brasileira
Artigo de opinião por Maria Clara Machado
Publicado por Letícia Medina

Todo ano ouvimos promessas de melhorias na educação brasileira. Surgem reformas curriculares, novos programas com nomes chamativos, mais computadores nas escolas…Mas, na prática, a qualidade do ensino continua emperrada. E aí me vem uma pergunta que, sinceramente, não consigo ignorar: quem está cuidando da formação dos professores? Porque, no fim das contas, é deles que tudo parte. E, ainda assim, são eles os mais esquecidos nesse debate.
Fala-se muito em mudar a forma como os alunos aprendem, mas pouco – pouquíssimo — se fala sobre como os professores ensinam. Mais grave ainda: como eles foram preparados para ensinar. A verdade é dura, mas precisa ser dita. Segundo o Censo Escolar de 2023, quase um terço dos professores da educação básica dá aula em disciplinas nas quais não têm formação específica. E isso não é exceção, é regra em muitas redes públicas.
Agora pense comigo: você confiaria sua saúde a um médico que nunca estudou sua doença? Ou deixaria um projeto de ponte nas mãos de alguém que nunca estudou engenharia? Por que, então, seguimos normalizando professores sendo jogados em áreas que não dominam?
E não para por aí. Mesmo quem está na área certa quase nunca tem oportunidade de continuar aprendendo. De acordo com a OCDE, mais da metade dos docentes brasileiros não passou por nenhuma formação continuada no último ano. E isso em um mundo onde as mudanças acontecem numa velocidade absurda. Como é possível cobrar inovação de quem não recebe ferramentas para inovar?
Além disso, vale ressaltar que muitos cursos de licenciatura ainda são profundamente distantes da realidade. Teóricos demais. Engessados. Não preparam o professor para lidar com a sala cheia, com a indisciplina, com o aluno que vai dormir com fome ou com o colega que desistiu de dar aula por esgotamento emocional. Isso não aparece nos livros didáticos, mas faz parte do cotidiano.
A consequência dessa negligência é direta: professores despreparados impactam negativamente o processo de aprendizagem dos alunos. Como já destacou Paulo Freire, “formar um educador é capacitá-lo não apenas para transmitir conteúdos, mas para transformar realidades”. Ignorar essa dimensão é comprometer o potencial da educação como ferramenta de emancipação social.
Enquanto outros países investem pesado em quem ensina — e colhem os frutos disso — o Brasil segue esquecendo o problema. O magistério virou profissão de sacrifício: salários baixos, pouca valorização, carga emocional altíssima. Muitos jovens evitam a carreira, e os que já estão nela pensam em sair.
Valorizar o professor vai muito além de homenageá-lo em uma data simbólica. É repensar o curso de formação, garantir atualização constante, dar condições reais de trabalho. É parar de tratar o educador como detalhe e entender que ele é o pilar. Sem isso, qualquer tentativa de mudar a educação vai afundar antes de sair do papel.
No fim, a pergunta não é apenas “quem ensina o professor?”, mas “até quando vamos fingir que dá pra melhorar a educação sem cuidar de quem está no centro dela?”. Enquanto essa resposta não for enfrentada com coragem, seguiremos trocando a embalagem, mas entregando o mesmo conteúdo falho de sempre.
