Artigo de opinião por Isabela Senra
Publicado por Giovanna Bernardes
Foto de protestos contra a ditadura militar brasileira
Liberdades, individuais ou coletivas, no sentido de serem imprescindíveis para a individualidade humana, são raízes de uma sociedade sadia. A liberdade de expressão, pilar da democracia e da humanidade, consiste no direito que todos têm de manifestar opinião, ideias e informações. No Brasil, até mesmo a Constituição de 1824 outorgada pelo Imperador D. Pedro I garantia a liberdade de pensamento, de expressão e de imprensa, vedando expressamente a censura. Essas liberdades são essenciais para a fiscalização do poder público, e em um Estado autoritário são as primeiras a serem retiradas da população. Assim, a Constituição de 1967, outorgada na Ditadura Militar (1964-1985) “condicionava a liberdade do pensamento aos parâmetros da ordem pública e dos bons costumes”, em outras palavras, tornou inconstitucionais pensamentos e ações considerados opostos ou ameaçadores aos ideais impostos pelo governo. Entretanto, as atividades artísticas de oposição ao regime se intensificaram como forma de burlar, desafiar e resistir à censura e à ditadura.
“Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar” Mosca na sopa – Raul Seixas
Durante o regime foram decretados, ao todo, 17 Atos Institucionais com o objetivo de legitimar o regime militar e restringir direitos civis e políticos. Dentre eles, o AI-5 pode ser considerado o ápice dessa restrição. Publicado em 13 de dezembro de 1968, o AI-5 fortaleceu a censura à imprensa e às manifestações artísticas, intensificando a repressão estatal e levando à perseguição, tortura e execução de opositores, além de permitir o fechamento do Congresso Nacional e suspender diversos direitos políticos.
Até 1968, a censura era exercida de duas formas: ou os agentes do Estado controlavam previamente o que poderia ou não ser publicado, ou os meios de comunicação enviavam o que pretendiam publicar para a Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal, na Capital. Com os agravamentos decorrentes do AI-5, o governo passou a interceptar, também, telefonemas e mensagens escritas de determinadas pessoas, chegando a “inspecionar” residências em busca de elementos subversivos. Essas medidas, além de repressivas, instauravam medo generalizado nos indivíduos.
“Como é difícil acordar calado. Se na calada da noite eu me dano. Quero lançar um grito desumano. Que é uma maneira de ser escutado” Cálice- Chico Buarque
Para promover sua popularidade, o regime militar também estimulou uma cultura oficial que visava a alienação e o reforço do nacionalismo. O governo utilizava a música como parte de sua propaganda. O movimento da Jovem Guarda, com sua estética otimista e temática apolítica, contribuiu para essa atmosfera de entretenimento que desviava a atenção dos problemas do país. Artistas como Roberto e Erasmo Carlos, com canções que falavam de amor e juventude, ajudaram a popularizar esse movimento, que se encaixava na ideologia e no modelo político militar: era a normalização e alienação completa quanto ao que o país passava.
A cultura nacionalista e rasa se contrapunha à resistência de outros artistas que, como Chico Buarque e Geraldo Vandré, utilizavam a arte para denunciar a repressão, enquanto a Jovem Guarda popularizava o “iê-iê-iê” e contribuia para um cenário que buscava desviar as atenções das problemáticas do regime. Embora as tentativas de emplacar a narrativa do “Milagre Brasileiro”, a imagem do Brasil no exterior começava a se deteriorar com depoimentos que contavam dos horrores da tortura. Zuzu Angel, estilista mais famosa do Brasil, fez um desfile em Nova York com estampas em que havia denúncias contra a tortura e o desaparecimento de seu filho, militante e atleta de remo do Flamengo, Stuart Angel. No entanto, autoridades brasileiras eram questionadas e negavam tudo.
“Este é um país que vai pra frente. Ou, ou, ou, ou, ou, ou. De uma gente amiga e tão contente. Ou, ou, ou, ou, ou, ou.” Este é um país que vai pra frente – Os Incríveis
No cenário musical da oposição, surgiram expoentes da Música Popular Brasileira. Em 1970, Chico Buarque, célebre artista militante, retorna de um auto exílio – provocado pela perseguição que sofria devido ao seu “esquerdismo” – e escreve “Apesar de Você”, onde disfarça sua crítica à ditadura militar descrevendo uma briga de namorados. A música começa com a mensagem “Amanhã vai ser outro dia”, aumentando o tom a cada repetição, como um grito de esperança por dias melhores. Surpreendentemente, a música é liberada em um primeiro momento pelo Departamento de Censura. Porém, quando a mensagem da obra é corretamente compreendida, ocorre seu veto. Após esse episódio, Chico permaneceu tocando a parte instrumental da música em seus shows, sempre acompanhado da emocionada plateia que, sufocada pela falta de liberdade e ciente da censura, complementava com a letra a melodia do violão.
Em 1973, Chico compôs com Gilberto Gil “Cálice”, que só foi lançada oficialmente em 1978 devido às restrições impostas pelo regime. A música faz alusão bíblica enquanto, subliminarmente, usa a fonética do verbo “calar” como denúncia de que a liberdade de expressão estava sendo inibida no Brasil. Trechos como “Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue” e “Outra realidade, menos morta. Tanta mentira, tanta força bruta” apontam a violência do regime.
Outros dos maiores nomes da resistência como Gil, Caetano Veloso e Rita Lee – que em conjunto com Gal Costa, Tom Zé e os demais membros dos Mutantes, iniciaram o movimento Tropicalista – foram perseguidos e presos durante o período militar. O cantor Geraldo Vandré também se tornou um ícone da resistência com sua canção “Pra não dizer que não falei das flores”, que virou hino contra a ditadura, incentivando a população a lutar pelos seus direitos com o verso “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Pela sua arte provocativa, Vandré foi preso, torturado e exilado de 1969 a 1973, e devido a perseguição que sofreu, nunca conseguiu retomar sua carreira.
Hoje você é quem manda. Falou, ‘tá falado. Não tem discussão, não. A minha gente hoje anda falando de lado. E olhando pro chão, viu. Você que inventou esse estado. E inventou de inventar. Toda a escuridão. Você que inventou o pecado. Esqueceu-se de inventar. O perdão”. Apesar de você- Chico Buarque
Na tentativa de se obter respeito, a tortura é usada como ferramenta de poderes instáveis – ela não é ação de um grupo isolado, uma vez que não só faz parte de um regime, como se torna o próprio Estado. Não é um agente específico quem tortura, mas a instituição em si e seus comandantes. Ela existe quando um governo precisa hostilizar e subjugar seus inimigos e, durante a ditadura, a tortura não poupava ninguém, atingindo bebês, crianças, grávidas, mães, pais, idosos, freiras, padres, estudantes, professores e professoras, artistas, políticos, e quem quer fosse necessário para a manutenção da ideologia imposta. No mesmo contexo, a tática do desaparecimento político pode ser considerada a mais cruel de todas, porque não se mata a vítima oficialmente, ela permanece viva na dúvida, nos questionamentos e nas memórias, condenando as famílias – como a de Stuart, Rubens Paiva, Honestino Guimarães, e, infelizmente, diversos outros – a uma tortura psicológica eterna.
“Há soldados armados, amados ou não. Quase todos perdidos de armas na mão, Nos quartéis lhe ensinam uma antiga lição, De morrer pela pátria e viver sem razão” Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré
A imprensa também foi palco de resistência. Conhecida como “imprensa alternativa”, mesmo durante o AI-5 redações deixavam páginas em branco, publicavam receitas de bolo e doces, poemas, e utilizavam palavras chave já conhecidas pelo duplo sentido como forma de protestar contra a censura. Jornais como O Pasquim usavam o humor e a sátira para criticar, ridicularizar e desmoralizar o regime, essas atitudes visavam fazer com que a população enxergasse, mesmo que nas entrelinhas, as atrocidades que a ditadura impunha, desconhecidas ou ignoradas pela maioria.
Fora do alcance da censura militar, jornais estudantis ganharam força, servindo como meio para evitar a alienação dos jovens. Destacam-se dentre esses movimentos os jornais do Centro de Ensino Médio Elefante Branco, de Brasília – o CEMEB pode ser considerado um símbolo de resistência do movimento estudantil secundarista no Brasil, visto como espaço perigoso para o projeto autoritário antes mesmo do golpe de 64 e apelidado de “Elefante Vermelho” no período da Guerra Fria – “Tocha”, “Elefrente”, “Boletim Informativo GECEM” e “Denúncia”.
“Quem lê tanta notícia?Eu vou” Alegria, Alegria – Caetano Veloso
Enfim, durante os governos Geisel e Figueiredo, período que iniciou o processo de abertura política, a censura diminuiu, e, com a promulgação da Constituição de 1988, a era militar cessou completamente. Durante a redemocratização, a herança da ditadura havia deixado rastros de suas mazelas, com a economia desvalorizada – um dólar valia 4160 cruzeiros -, hiperinflação acumulada de 223,90% em 1984 e uma dívida externa que levou o país à moratória – o FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumprira metas há anos -. Além disso, o contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. Surgiu o crime organizado, como o Comando Vermelho que nasceu em um presídio do regime militar. Outro infortúnio: o desmantelamento do ensino público, que passou por uma precarização generalizada durante o período. No entanto, a arte e a cultura, não somente críticas, como sensíveis e reconfortantes à alma de uma sociedade frágil, desesperada, torturada, resistiram, provando, dessa forma, que a criatividade, a coragem e a liberdade humana podem florescer e têm de existir, mesmo nas circunstâncias mais sombrias, sendo as maiores formas de expressão e esperança, mesmo quando oficialmente censurada nos momentos mais cruéis e difíceis da história do país.
“Amanhã vai ser outro dia. Amanhã vai ser outro dia” Apesar de Você – Chico Buarque
O novo roubo no Louvre choca o mundo e reabre o debate sobre segurança em…
Quem mais senão os jovens? Artigo de opinião por Bárbara Alves Publicado por Mariana Freire…
As mudanças climáticas que assombram Belém. Noticia feita por Melissa Lustosa Publicado por Valentina Resende…
Um sopro de vida Resenha por Maria Eduarda Azevedo Publicado por Júlia Aucélio Livro Um…
A intencionalidade de “A Sociedade dos Poetas mortos resenha por isadora macario publicado por alicia…
Demanda por enfermeiros cresce no Brasil e amplia oportunidades na educação e na carreira Notícia…
Utilizamos cookies
Entenda como utilizamos