Somos como nossos pais? O peso da herança cultural no Brasil.
Dissertação feita por Maria Eduarda Azevedo
Publicado por Lucas Bispo

Elis Regina eterniza ‘Como Nossos Pais’, clássico de Belchior lançado pela Philips
“Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Esse trecho da música “Como Nossos Pais”, eternizada pela voz de Elis Regina, traz uma crítica à repetição inquestionada de padrões sociais e culturais entre as gerações: Como a herança cultural prejudica a identidade de um indivíduo?
Após duas décadas de censura, repressão e autoritarismo, imaginava-se que a redemocratização traria uma ruptura definitiva com tais práticas. No entanto, muitos resquícios desse período permanecem: a violência policial, a desconfiança nas instituições e a dificuldade em consolidar uma cultura política verdadeiramente democrática. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023), o país registrou mais de 6 mil mortes decorrentes de intervenções policiais em um único ano, número que evidencia a persistência de práticas autoritárias herdadas da ditadura.
Além disso, a desigualdade social segue como uma das mais altas no mundo: o IBGE (2023) aponta que o 1% mais rico da população concentra quase metade da renda nacional. Esses dados expõem que, apesar das lutas, o Brasil insiste em repetir erros históricos. A distoância entre classes continua sendo uma das evidentes no âmbito global, o racismo estrutural herdado da escravidão segue determinando oportunidades e a corrupção se mantém enraizada na política. Ademais, o descaso para com a educação e a saúde públicas perpetua ciclos de exclusão, fazendo com que grande parte da população reviva problemas já enfrentados por gerações anteriores.
Para o indivíduo, essa repetição se traduz em uma identidade sufocada que, ao invés de ser livre para trilhar o próprio trajeto e escrever a própria história, é condicionada a seguir os mesmos caminhos já percorridos, conhecendo suas consequências e ignorando-as. Por isso, apesar dos avanços pontuais, ainda existe a sensação de que “somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, condenados a carregar o peso de escolhas que não foram nossas.
A identidade do indivíduo precisa ser única, porque é justamente das diversas perspectivas que nascem os avanços coletivos. Se cada geração se limitar a reproduzir os passos da anterior, as condutas equivocadas permanecerão inalteradas e o futuro se tornará apenas uma cópia desgastada do passado. Ao contrário, quando cada pessoa se reconhece como sujeito capaz de inovar, pensar diferente e romper padrões injustos, toda a sociedade se beneficia. Assim, cultivar identidades singulares é condição indispensável para que o Brasil se liberte da herança cultural que o aprisiona e, enfim, construa uma história nova, para que amanhã, seja verdadeiramente outro dia.
