Brasília Revisitada, mais uma vez
Resenha por: Calien Alves de Lima Monteiro
Revisado por: Rafaela Lessa de Jesus Gonçalves
publicado por: Bruno de Luca werneck

Em 1987, 27 anos após a inauguração da cidade, Lúcio Costa revisitou o plano urbanístico de brasília em um documento intitulado “Brasília Revisitada”. Nele, apontou uma série de conquistas e problemas na implementação de seu plano para o Plano Piloto, além de propor soluções para as dificuldades encontradas. Seu objetivo era aumentar a integração do Plano Piloto com as cidades satélites, manter a arborização que caracteriza a cidade e possibilitar um melhor uso dos espaços de convivência coletiva.
Para compreender melhor a análise de Lúcio Costa, é importante entender o plano urbanístico original de Brasília. O principal pilar desse planejamento é a divisão da cidade em quatro setores, chamados de escalas: a escala monumental, dedicada a expressar a grandeza e magnitude da capital; a escala residencial, voltada para tornar a cidade um espaço agradável de convivência; a escala gregária, destinada a criar áreas urbanas mais densas e propícias ao encontro; e a escala bucólica, responsável por conferir beleza e leveza à paisagem urbana. A partir dessas escalas, estruturam-se dois eixos principais: o Eixo Monumental e o Eixo Rodoviário (ou das Asas). O encontro entre esses eixos, na Rodoviária, simboliza a escala gregária, enquanto a arborização das superquadras, juntamente com a orla do lago, expressa a escala bucólica.
No documento, Lúcio Costa considera a implementação da escala monumental um grande sucesso. Com exceção do “edifício do Tribunal de Contas da União — imperdoável aberração no local onde se encontra”, o arquiteto afirma que a disposição dos edifícios, que hoje compõem o cartão-postal da cidade, cumpre sua função ao espaçá-los de modo a valorizar cada construção, mantendo, ao mesmo tempo, um alinhamento que garante unidade ao conjunto. A escala bucólica também foi bem sucedida, especialmente pela substituição das “muralhas de delimitação entre o ocupado e o não ocupado” por áreas livres e arborizadas, além da preservação de amplos ângulos de visão do céu do Planalto. Já as escalas gregária e residencial enfrentaram problemas significativos.
Lúcio Costa identificou, entre esses problemas, a expulsão não prevista das classes mais baixas para a periferia do Distrito Federal, bem como o sucateamento e a ineficiência do sistema de transporte público. Ele destacou, em especial, o mau planejamento das rotas de ônibus e a ausência de um sistema de integração tarifária, que obrigava – e ainda obriga – o passageiro a pagar mais de uma passagem em uma única viagem. Com o objetivo de integrar melhor o centro da cidade às populações da classe média, propôs a criação de seis novas áreas habitacionais, que hoje correspondem ao Sudoeste, Noroeste, a uma expansão da Vila Planalto, a uma área próxima ao ParkShopping e à Leroy Merlin, além do Lago Sul e do Lago Norte. As duas primeiras deveriam atender a demanda habitacional da classe média, por meio de um projeto modular de “quadras econômicas”, idealizado pelo arquiteto João Filgueiras Lima, que reduziria os custos de construção e, consequentemente, o valor dos imóveis. A terceira proposta visava reconhecer a importância histórica da Vila Planalto, promovendo sua urbanização e melhoria de infraestrutura. A quarta área foi escolhida por sua proximidade com centros comerciais, especialmente o ParkShopping, e deveria apresentar baixa densidade populacional, integrada à arborização. Atualmente, essa região começa a ser ocupada por condomínios residenciais. Já as áreas próximas aos lagos deveriam também abrigar classes médias e baixas, embora já se observasse, à época, o surgimento de grandes mansões como defendido por Israel Pinheiro.
No que diz respeito aos espaços de convivência no centro da cidade, Lúcio Costa propôs uma reestruturação completa das áreas centrais, incluindo a Rodoviária e os Setores de Diversões, pois considerava a aplicação da escala gregária um fracasso. Ele também ressaltou o caráter flexível da setorização urbana, enfatizando que, embora haja predominância de determinadas atividades em cada setor, deveria ser permitido o uso misto desses espaços, como ocorre em cidades formadas de maneira espontânea. Atualmente, a escola gregária continua sendo um dos principais desafios urbanos de Brasília, já que a requalificação das áreas centrais e do sistema de transporte público ainda não foi plenamente realizada.
