“Bad Boys”: a história de como o pior time da NBA protagonizou uma das reviravoltas mais surpreendentes da história da liga.
Reportagem por Gabriel Loureiro
Revisado por Rafaela Quintas
Publicado por Thiago Pacheco

O dia 28 de dezembro de 2023 ficou marcado na história de uma das franquias mais tradicionais da National Basketball Association, a NBA, maior liga de basquete do mundo. Nessa data, os Detroit Pistons, sediados na maior cidade do estado americano de Michigan e detentores de três títulos da liga, foram derrotados pelos Boston Celtics no tempo extra e, com isso, quebraram um recorde indesejado por qualquer time.
Com o penoso fracasso diante da equipe de Boston, a franquia da “Motor City” conheceu sua 28ª derrota consecutiva, marcando a maior sequência em uma única temporada na história da liga. Os Pistons finalizariam a temporada de 2023/24 com uma campanha no mínimo desastrosa, somando apenas 14 vitórias em 82 partidas, coroando múltiplos anos de mediocridade vividos pelo clube desde seu último título, em 2004.
Depois de seus anos de glória no início dos anos 2000, marcados por um grande domínio na Conferência Leste da liga, o time entrou em um vórtex de fracassos, com diversas tentativas de reconstrução do elenco, porém obtendo pouco sucesso, muitas vezes ficando fora da pós-temporada e chegando longe das passadas glórias que eram almejadas pela presidência e torcedores da franquia.
Apesar de vivenciar diversos anos desastrosos, os Pistons seriam agraciados com uma luz no fim do túnel. A própria NBA dispõe de um sistema para reerguer franquias em apuros: o famoso “draft”, no qual as três piores campanhas de uma temporada detêm a maior chance percentual de ser recompensada com a primeira escolha em um sorteio realizado previamente para se definir a ordem das escolhas. A primeira escolha geralmente é utilizada para escolher o melhor jogador disponível na classe.
Tendo finalizado a temporada de 2020/21 com a segunda pior campanha, Detroit detinha a melhor chance de acabar a loteria do draft com a primeira escolha, empatado com Orlando Magic e Houston Rockets. O resultado final foi o melhor possível para a equipe de Michigan.
Então, com a primeira escolha do draft de 2021, os Pistons selecionaram um jogador que viria a ser a principal fonte da esperança por dias melhores da parte dos torcedores de Detroit: Cade Cunningham, armador de 19 anos de idade à época, vindo da Universidade de Oklahoma State, extremamente promissor, com 1,98 metro de altura, e aquele que se tornaria a cara da franquia.
As primeiras duas temporadas de Cunningham com o plantel de Detroit seguiram o mesmo trágico roteiro, já familiar aos torcedores. O time ficou entre as três piores campanhas durante esse recorte, com o astro perdendo a maior parte do seu segundo ano na liga em decorrência de diversas lesões. Com isso, a organização foi forçada a voltar suas esperanças novamente à loteria do “draft” da liga. Porém, dessa vez, o resultado não foi o mesmo do de 2021, já que, tanto no “draft” de 2022 quanto no de 2023, Detroit teve que se contentar com a quinta escolha geral, sendo impossibilitado de escolher o astro francês, Victor Wembanyama em 2023, o qual certamente cairia como uma luva no elenco da equipe da “cidade dos motores”.
Mesmo assim, nem tudo deu errado para o time da maior cidade de Michigan, já que, em 2022, eles utilizaram a quinta escolha para selecionar o ágil armador Jaden Ivey (trocado na temporada 2025/26), além de realizarem uma troca na noite do “draft” pelo muito jovem pivô, Jalen Duren, que viria a ser o titular na posição e uma das bases do elenco. Em 2023, com a mesma quinta escolha, foi selecionado o exímio defensor, Ausar Thompson, o qual também se tornaria uma parte fundamental da defesa na formação do vitorioso time de Detroit.
Contando com peças extremamente promissoras no seu elenco, os Pistons contrataram Monty Williams para o cargo de treinador principal do time pouco antes do início da temporada de 2023/24. O técnico tinha recentemente, em 2021, conduzido seu time, os Phoenix Suns até a final da liga, na qual eles foram derrotados pela a equipe dos Milwaukee Bucks.
Com o jovem elenco e um treinador que tinha demonstrado competência devido aos seus êxitos em anos recentes, muitos diziam que a temporada que estava por vir seria uma que marcaria o início de uma volta por cima do time de Detroit. De certa forma, essas afirmações não estavam completamente erradas.
Porém, a tão aguardada reviravolta não veio de imediato e, com o fracasso da temporada de 2023, a esperança dos torcedores se transformou em vergonha, fazendo com que muitos esperassem que os longos anos de reconstrução conduzida pelos Pistons seriam prorrogados. Porém, a tradicional cultura do time falou mais alto, e impulsionou uma das reviravoltas mais improváveis e impressionantes já vistas na história do esporte.
Como se a vergonhosa temporada não tivesse trazido sofrimento suficiente ao torcedor, veio ainda mais um gosto de derrota na boca após o fim do calendário da liga: a quinta escolha geral (mais uma vez) no tão familiar “draft”. Dessa vez, ela foi utilizada para escolher outro excelente jovem defensor: Ron Holland II, adicionando mais profundidade a essa área do jogo tão intrínseca à equipe.
Após todos os sentimentos de derrota terem ficado no passado, era iminente a necessidade de, realmente, retrabalhar a maneira como o time estava sendo conduzido. Deu-se início, então, a um breve porém extremamente efetivo processo de reconstrução do plantel, principalmente do alto escalão da franquia e, que falhou em conduzir o grupo em direções vitoriosas.
Começando pelo topo, foi demitido o diretor geral do grupo, Troy Weaver— profissional responsável por gerenciar todas as atividades relacionadas ao basquete — por ter falhado miseravelmente em construir uma equipe competitiva por tantos anos. Para assumir o cargo vago, os Pistons contrataram o presidente das operações de basquetebol (cargo semelhante ao de diretor geral) da organização dos New Orleans Pelicans, Trajan Langdon.
Langdon demonstrou serviço imediatamente, ao demitir o técnico Monty Williams, outro que foi considerado culpado pela miserável temporada de Detroit. Como substituto de Williams no cargo de treinador dos Pistons, a equipe contratou o experiente técnico dos Cleveland Cavaliers, J.B. Bickerstaff, que estava familiarizado com situações dessa natureza por ter reerguido o próprio plantel de Ohio desde uma posição semelhante àquela vivida por Detroit até uma postura competitiva no cenário da Conferência Leste.
Como próximo passo, o time decidiu se livrar de alguns jogadores veteranos que já não se encaixavam na direção em que a equipe estava caminhando, como Bojan Bogdanovic que estava há vários anos no elenco, ao passo que assinaram contratos vantajosos com outros veteranos que não só se adaptavam melhor no novo sistema de jogo sendo desenvolvido, como também trabalhavam como “mentores” para os jogadores mais novos e, consequentemente, mais inexperientes.
Como não era todo veterano que escolheria jogar num elenco que acabava de terminar como pior campanha da associação, os Pistons desenvolveram uma estratégia astuta: eles ofereceram contratos curtos a jogadores já identificados com o estado de Michigan, como o armador Tim Hardaway Jr e o ala-pivô Tobias Harris, que, por sinal, enfrentou críticas duras ao longo de toda sua carreira.
Com o novo elenco já definido, era preciso encontrar uma nova identidade para a equipe para deixar definitivamente para trás os anos devastadores. Por sorte, as peças do elenco provaram que eram as melhores escolhas para isso.
Historicamente, os elencos mais vitoriosos da equipe da “Motor City” tinham algo marcante em comum: uma identidade pautada fortemente no trabalho duro, mas principalmente no forte jogo defensivo, físico e muitas vezes sujo. Esse estilo de jogo, marcante em todas as temporadas finalizadas com títulos em Detroit, rendeu o apelido de “Bad Boys” (garotos ruins) ao primeiro time campeão, na temporada de 1988/89 e posteriormente na seguinte temporada.
Outra parte essencial da reviravolta experienciada por Detroit é a resiliência. Contando com jovens marcados por anos desastrosos na equipe e veteranos tentando provar que ainda têm valor na liga, a persistência passou a ser uma marca registrada desse elenco.
Então, na temporada seguinte à desprezível temporada de 2023, com forças renovadas, Detroit teve motivos para sorrir. Ao triplicarem seu contingente de vitórias em relação à temporada em que alcançou 14 delas, com 42 na temporada seguinte, os Pistons se tornaram a primeira equipe na longa história da liga a conquistar tal proeza, marcando uma das maiores evoluções já registradas na liga.
Com suas 42 vitórias, Detroit sagrou-se como sexto colocado na Conferência Leste, garantindo uma vaga na pós-temporada da liga após seis anos amargos longe dela. Nesse caso, foram derrotados pelos New York Knicks por quatro a dois em uma calorosa série melhor de sete jogos.
Depois dessa temporada sólida, muitos esperavam mais do mesmo vindo de Detroit. Era forte a expectativa de que os Pistons terminariam com uma campanha semelhante na temporada 25/26, lutando para se classificar diretamente para a pós-temporada sem passar pela repescagem. Entretanto, mais uma vez, os Pistons se superaram.
Contando com evoluções impressionantes dos jovens do elenco, especialmente do astro Cade Cunningham e do pivô Jalen Duren, os Pistons fizeram o que muitos diriam ser quase impossível: saíram da última colocação de sua conferência e chegaram à primeira, atingindo a terceira temporada com 60 vitórias ou mais na história da franquia. Chegaram, inclusive, à marca de 13 vitórias consecutivas, igualando o recorde para uma temporada só na história do clube, façanha que só havia sido vista nas temporadas de 1989/90 e 2003/04, ambas terminando com a euforia do título em Detroit.
Na primeira rodada da fase eliminatória da liga, os primeiros colocados do leste enfrentaram os oitavos, o Orlando Magic, numa série que parecia estar completamente a favor de Detroit. Contudo, os Pistons foram pegos de surpresa pelo elenco da Flórida ao se encontrarem perdendo a série por três jogos a um, uma desvantagem muitas vezes considerada como quase irreversível.
E como se a liga não pudesse mais ver reviravoltas da parte dos “Bad Boys”, eles mostraram novamente a influência da resiliência e da defesa incansável na mentalidade dessa equipe ao reverterem a vantagem construída pelo Magic, o que começou com uma vitória no jogo cinco em casa, diminuindo a vantagem para três jogos a dois.
Em um jogo seis em Orlando tão impressionante quanto as outras superações protagonizadas pelos Pistons, a equipe superou uma desvantagem de incríveis 24 pontos em território inimigo para sobreviver e forçar um jogo sete no conforto de sua própria arena.
Coroando uma série marcada pelo forte jogo defensivo, os Pistons venceram a sétima partida da série para despachar o Magic e exaltar, mais uma vez, os efeitos positivos de uma mentalidade orientada pela defesa e pela resiliência. Agora, a equipe de Detroit enfrentará os fortes Cleveland Cavaliers na semifinal de conferência na esperança de avançarem e sagrarem-se campeões da NBA pela quarta vez na história da agremiação, o que, como já foi visto pelo histórico recente dos “Bad Boys”, não deve ser um cenário descartado.
