Make Germany great again: antigos ideais, novos discursos
Notícia por Ana Luiza Rosa
Revisado por Beatriz Sathler
Publicado por João Paulo Carvalho

No domingo, 6 de setembro, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) ganhou as eleições estaduais da Saxônia-Anhalt com quase 44% dos votos, sendo o mais votado. Dois dias depois, a vitória foi comemorada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que utilizou a frase “Make Germany great again” (“Faça a Alemanha grandiosa novamente”) ao comentar o resultado.
Mas por que isso é problemático? A AfD ganhou grande popularidade por seu discurso extremista em relação às políticas de imigração do país e foi acusada pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, de buscar uma “limpeza étnica” no país. Além disso, alguns integrantes do partido possuem histórico de envolvimento com grupos radicais e movimentos ligados ao neonazismo. Isso faz com que a vitória da AfD não seja apenas uma questão eleitoral, mas também levanta discussões sobre o espaço que ideias extremistas estão ganhando novamente.
Essa preocupação também está relacionada ao passado da Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nazismo levou à perseguição e à morte de cerca de 6 milhões de judeus, baseado em ideias de superioridade racial, antissemitismo e exclusão. Depois do fim da guerra, movimentos neonazistas passaram a retomar parte desses ideais. Por isso, em um país marcado por esse histórico, o crescimento de uma força política de extrema direita chama ainda mais atenção.
É nesse contexto que a reação de Donald Trump ganha importância. O presidente americano não apenas comemorou a vitória da AfD, como também relacionou o crescimento do partido às políticas de imigração alemãs. Como Trump possui grande influência não só nos Estados Unidos, mas também mundialmente, seu apoio pode fazer com que discursos antes vistos como extremos passem a ser tratados como normais por parte de seus apoiadores.
Isso, porém, não significa que a situação da Segunda Guerra Mundial esteja se repetindo. Os contextos são diferentes e devem ser tratados como tal. No entanto, alguns ideais podem reaparecer de outras formas. Um exemplo disso pode ser observado nos Estados Unidos com o ICE (Immigration and Customs Enforcement), órgão responsável pela fiscalização das leis de imigração. Durante o governo Trump, o órgão passou a estar ainda mais associado a políticas rígidas de controle migratório e deportação, gerando debates sobre o tratamento dado aos imigrantes e sobre os limites dessas medidas.
O problema, portanto, não está apenas na existência de políticas rígidas de imigração, mas na maneira como determinados grupos podem passar a ser vistos como uma ameaça que precisa ser afastada. Quando discursos de exclusão são apresentados como defesa à segurança, à identidade nacional ou a outros “bons ideais”, eles podem se tornar mais aceitáveis para a sociedade.
A vitória da AfD mostra que velhos ideais não precisam voltar exatamente da mesma maneira para continuarem sendo uma ameaça. Eles podem mudar de discurso, de contexto e até de aparência. Por isso, lembrar o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial não significa acreditar que a história vai se repetir, mas é essencial reconhecer os sinais de intolerância antes que eles se fortaleçam. O maior perigo não é apenas a existência do extremismo, mas ele ser normalizado ao ponto de deixar de ser reconhecido como tal.
