A Feminilidade Como Construção Social
Artigo de opinião por Marina Contaifer
Revisado por Isadora Farias
Publicado por Luísa Becattini Coutinho

Rosa, laços, vestidos, saias, delicadeza, vulnerabilidade. Essas são as primeiras imagens que vêm à mente da maioria das pessoas quando se fala em feminilidade.
Pelo dicionário, entende-se por feminilidade a qualidade ou o caráter de mulher. Tendo isso em vista, surge a questão: o que é ser mulher?
A ideia de definição de gênero baseada exclusivamente no órgão genital é limitante e ultrapassada, ainda que haja resistência por alguns conservadores. Assim, ao ultrapassar as barreiras do sexo biológico, o que é ser mulher na sociedade?
A questão foi apresentada a 30 mulheres de diferentes idades e contextos sociais, e nenhuma delas ofereceu resposta imediata. O silêncio inicial revela que a definição de “mulher” é abstrata e ampla demais para ser traduzida.
Para algumas, trata-se de um sentimento, quase como um estado de espírito. Para outras, é sinônimo de força, empoderamento e até de superioridade em relação ao gênero masculino. Respostas variadas, mas com um detalhe em comum: nenhuma das entrevistadas associou características tradicionais da feminilidade à definição de mulher. Isso leva à reflexão de que a feminilidade não é pré-requisito para ser mulher. Assim, reformula-se a pergunta: o que é, afinal, ser feminina?
Desde a infância, meninas são ensinadas a “ser mulher”. São guiadas por padrões comportamentais e presenteadas com brinquedos associados a tarefas domésticas e à maternidade, como utensílios de cozinha e bonecas, o que contribui para a manutenção de uma mentalidade patriarcal e machista. As vestimentas também seguem esse padrão: vestidos, laços, sapatos brilhantes e referências constantes aos figurinos clássicos de princesas. Garotas que não se adequam às brincadeiras e aos visuais típicos tendem a ser excluídas do grupo de amigas, fomentando, desde os anos iniciais, o sentimento de não pertencimento. Nesse contexto, qualquer ruptura com o padrão esperado acarreta impactos sociais: “O não gostar de rosa na infância é muito mais do que apenas não gostar de uma cor”.
Iniciando na adolescência e se estendendo até a vida adulta, o conceito se transforma, e a feminilidade se aproxima da ideia de perfeição proposta pelos padrões de beleza impostos: mulheres magras, brancas, de cabelos lisos e compridos, sem marcas ou pelos, heterossexuais, delicadas e de caráter dócil. Nesse cenário, mulheres pretas, portadoras de deficiência, LGBTQIA+ e tantas outras que fogem desse padrão sentem-se, mais uma vez, excluídas do universo feminino. Além disso, a busca por esse protótipo inalcançável, não só limita a autenticidade, mas também desencadeia a feminilidade tóxica.
É essencial ressaltar que não há nada de errado em usar maquiagem, gostar de vestidos e buscar a delicadeza. Não há nada de errado em se identificar com a feminilidade tradicional. O problema surge quando a escolha se torna regra, quando todas passam a ser iguais, com as mesmas roupas, penteados, maquiagens, trejeitos e até a fisionomia. O artigo “O Fim da Beleza Única”, de Ju Beneduzi, evidencia como a busca incessante por padrões de beleza desencadeia danos à saúde mental e física, fragiliza a autoestima e, sobretudo, apaga a identidade.
Cirurgias estéticas tornam-se cada vez mais comuns, lojas de roupas passam a oferecer uma variedade restrita às tendências, e quem foge desse padrão é visto como exótico ou estranho. Querendo ou não, toda essa busca por padronização é muito benéfica para o mercado da moda e dos cosméticos, que seguem as tendências e lucram milhões sem a necessidade de altos investimentos em estilistas e equipes criativas, já que a inovação fica em segundo plano. Até pouco tempo atrás, era incomum a presença de moda plus size em lojas comuns de shopping; assim, é inegável que os padrões funcionam como grandes facilitadores para a indústria de fast fashion. Esse conjunto ainda alimenta a prática de consumo excessivo e desnecessário, característico do capitalismo contemporâneo.
“A feminilidade tóxica ocorre quando as mulheres seguem regras rígidas para serem vistas como tradicionais e femininas. Isso pressiona as mulheres a serem quietas e passivas, prejudicando sua verdadeira essência. Essa toxicidade existe devido a uma sociedade que valoriza os homens em detrimento das mulheres”, disse Zuva Sete, jornalista da Verywell Mind, plataforma de saúde mental e bem-estar. Dessa maneira, reforça-se que a feminilidade se torna tóxica quando deixa de ser espontânea e abre espaço para farsas. Além disso, realça o impacto das raízes sexistas nas pautas contemporâneas.
Durante a Idade Antiga e a Idade Média, devido à grande influência cristã, a figura da mulher era associada ao pecado, seja pela narrativa do Gênesis, em que Eva induz Adão a pecar, seja pela associação do corpo feminino, ligado à luxúria. Assim, uma mulher feminina era aquela que vivia sob os ideais de castidade, submissão, modéstia e domesticidade.
Adentrando a Idade Moderna, novos padrões estéticos e sociais ganham espaço, impulsionados por mudanças estruturais na sociedade, como o declínio do feudalismo e a ascensão de uma nova organização econômica e social. Ainda assim, o papel de submissão e domesticidade permanecia como modelo esperado e desempenhado pelas mulheres.
A Idade Contemporânea foi responsável por uma intensa guinada na representatividade feminina. Embora marcada por profunda exploração, a Revolução Industrial possibilitou que muitas mulheres fossem inseridas no mercado de trabalho, dando início a uma longa jornada de emancipação, pluralidade e superação de estereótipos. Nesse período, considerava-se feminina aquela capaz de conciliar a autonomia com traços tradicionais de cuidado e sensibilidade.
O século XX, marcado por processos de urbanização, imigração e industrialização, consolidou mudanças radicais na visão da mulher no mundo. No longa-metragem “Mulheres do Século 20”, dirigido por Mike Mills e indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2017, explora-se o papel feminino diante das transformações sociais. A obra aborda a independência feminina, o fim da tutela masculina e o confronto entre gerações. Esse século foi palco de grande desenvolvimento dos movimentos feministas, sendo, inclusive, denominado “Século das Mulheres” e “fim do sexo frágil”.
Atualmente, no século XXI, com o aumento do acesso à informação e à educação, bem como o desenvolvimento do pensamento crítico, o papel da mulher e o conceito de feminilidade transformam-se continuamente. Apesar de ainda existirem preconceitos, muitas mulheres lutam, e lutaram, pela libertação de rótulos e padrões misóginos. Nesse contexto, a feminilidade passa a ser compreendida de forma individual, levando em consideração o que faz sentido para cada pessoa.
Em suma, a feminilidade revela-se como um conceito social moldado por contextos históricos, sociais e econômicos. Ao longo das gerações, seus significados se transformam e não devem ser considerados como determinantes de um caminho certo ou errado. Assim, compreender a feminilidade como expressão individual não apenas amplia a pluralidade e a diversidade no universo feminino, mas também rompe com padrões limitantes, permitindo que cada mulher exista, resista e se reconheça para além das imposições sociais.
“Não se nasce mulher, torna-se mulher” – Simone de Beauvoir
