Brasilidade e Cânone das Artes Eruditas: A Inserção da Produção Artística Brasileira no Cenário Exterior
Reportagem por Victor Hugo L. de Castro Feitosa
Revisado por Lorena Ramos Rezende
Publicado por Manuele Mariani B. Canêdo

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), considerada um dos melhores institutos no campo das artes eruditas – foto: Íris Zanetti
A priori, é necessário definir o que se entende por artes eruditas. Estas são formas artísticas que exigem formação técnica e sistemática, tradicionalmente vinculadas a instituições acadêmicas e apresentadas em casas de ópera, teatros nacionais e salas de concerto.
Nesse contexto, embora o Brasil possua uma produção cultural rica e diversificada, sua presença no cânone internacional dessas artes é limitada. É importante ressaltar que não se trata de um “déficit cultural”, mas da consolidação histórica de assimetrias institucionais e estruturais entre países centrais e periféricos na formação do cânone artístico.
O “cânone artístico” reflete a centralidade histórica de países centrais, que passaram mais cedo por processos como a Revolução Industrial e a transição demográfica, em comparação aos países periféricos ou em desenvolvimento. Isso possibilitou maior estabilidade e durabilidade institucional, favorecendo investimentos nas artes. Nesse contexto, determinadas obras foram legitimadas ao longo do tempo.
Um exemplo é o balé “O Lago dos Cisnes”, composto por Pyotr Ilyich Tchaikovsky, cuja permanência em companhias de prestígio não se explica apenas por critérios estéticos, mas também pela repetição sistemática em instituições que conservam e valorizam seu valor artístico, consolidando-o como parte do cânone.
Retomando a ideia da constituição do cânone, observa-se o caso da França como um dos países centrais mais consolidados nesse processo. O desenvolvimento político, econômico e social francês ocorreu de forma relativamente precoce em comparação a outros países, tanto centrais quanto periféricos, com organização econômica e política já no século XVII.
Essa constituição precoce permitiu a criação e a manutenção de instituições culturais duradouras, como casas de ópera e academias responsáveis por estabelecer padrões que ultrapassam o contexto nacional e influenciam diretamente a formação do cânone internacional.
In concreto, a França abriga diversas instituições de grande relevância histórica, como a Opéra National de Paris, fundamental nas artes líricas e coreográficas, responsável também pela administração de teatros emblemáticos, como o Palais Garnier e a Opéra Bastille. De modo semelhante, destaca-se a Académie de Beaux-Arts, integrante do Institut de France, cuja atuação está historicamente vinculada à conservação e à legitimação das belas-artes.
Ex post facto, observa-se que essas instituições não apenas sustentam elevados padrões artísticos, mas também consolidam critérios de valor que se projetam mundialmente, reforçando a centralidade europeia na constituição do cânone.
Enquanto a produção artística europeia participa diretamente do cânone das artes eruditas, outras regiões do mundo se desenvolveram em trajetórias culturais distintas. O Brasil, nesse contexto, destaca-se por sua produção cultural rica e diversificada, cuja participação ocorre majoritariamente fora do cânone internacional. Ainda assim, não se trata de um déficit cultural, mas de uma inserção em dinâmicas históricas e sociais distintas, associadas à sua posição periférica no sistema global.
Expressões como o samba ilustram essa complexidade, sendo resultado da combinação de diversos gêneros provenientes de diferentes contextos culturais. Desdobramentos como a bossa nova, que incorpora elementos urbanos como o jazz, evidenciam a capacidade de reinvenção da música brasileira, ainda que sua circulação ocorra, em grande medida, fora do campo das belas-artes.
No âmbito das artes eruditas, nota-se a dificuldade de consolidação de um conceito plenamente brasileiro, a “brasilidade”, entendida como um conjunto de expressões culturais historicamente construídas a partir da interação de diferentes matrizes, incluindo influências indígenas, africanas, europeias e de países vizinhos.
Portanto, não se trata de uma identidade fixa, mas de um processo contínuo e em constante transformação. Nesse sentido, a brasilidade manifesta-se em práticas dinâmicas, vivas e frequentemente associadas à produção artística popular. Embora possua forte potência criativa, é limitada sua presença nos espaços que estruturam as belas-artes e o cânone artístico internacional.
Heitor Villa-Lobos constitui um exemplo relevante da presença da brasilidade nas artes, ao incorporar elementos da cultura indígena, africana e popular brasileira em composições inseridas na linguagem da música clássica. Ao estabelecer esse diálogo entre referências locais e formas eruditas, evidencia-se a possibilidade de articulação entre diferentes matrizes culturais.
Sua projeção internacional demonstra que a produção artística brasileira pode alcançar reconhecimento mundial e participação no cânone. Ainda assim, esse reconhecimento ocorre, em grande medida, por meio da adaptação a estruturas já estabelecidas, sem necessariamente alterar os critérios históricos que definem a legitimidade no campo das belas-artes.
Em síntese, a presença limitada do Brasil no cânone das artes eruditas não decorre de uma insuficiência cultural, mas de assimetrias históricas nas instituições que definem o que se considera arte. O cânone artístico, portanto, não representa uma seleção neutra, mas o resultado de processos de repetição e validação de determinados conceitos.
Diante desse cenário, a produção brasileira desenvolveu-se majoritariamente seguindo padrões previamente estabelecidos. Contudo, sua inserção também ocorre em circuitos culturais distintos, nos quais a brasilidade se manifesta como um processo dinâmico que não necessariamente coincide com os espaços tradicionais de consagração do cânone. O futuro do Brasil nas artes eruditas depende não apenas da valorização dessas formas, mas também da inclusão de vozes e culturas historicamente marginalizadas, como a própria brasilidade.
