A Feminilidade Como Construção Social

 A Feminilidade Como Construção Social

Artigo de opinião por Marina Contaifer


Revisado por Isadora Farias

Publicado por Luísa Becattini Coutinho

Mulher enrolada em flores. Fonte: Pinterest (https://pin.it/6QTAMOp0C)
https://keep.google.com/u/0/media/v2/1cGapBVDnoE4nuv-6qzznvJuontTgL2brdBY8jFV1DXQ_JfUVNvf6-182AX5KlQ/1Yqs5uP8KyiwUlArXaxIgLZXdwdx_e59FTn8QvDBsYpDxd1DIBkLffACkpy1I_A?accept=image%2Fgif%2Cimage%2Fjpeg%2Cimage%2Fjpg%2Cimage%2Fpng%2Caudio%2Faac&sz=1350

Rosa, laços, vestidos, saias, delicadeza, vulnerabilidade. Essas são as primeiras imagens que vêm à mente da maioria das pessoas quando se fala em feminilidade.

Pelo dicionário, entende-se por feminilidade a qualidade ou o caráter de mulher. Tendo isso em vista, surge a questão: o que é ser mulher?

A ideia de definição de gênero baseada exclusivamente no órgão genital é limitante e ultrapassada, ainda que haja resistência por alguns conservadores. Assim, ao ultrapassar as barreiras do sexo biológico, o que é ser mulher na sociedade?

A questão foi apresentada a 30 mulheres de diferentes idades e contextos sociais, e nenhuma delas ofereceu resposta imediata. O silêncio inicial revela que a definição de “mulher” é abstrata e ampla demais para ser traduzida.

Para algumas, trata-se de um sentimento, quase como um estado de espírito. Para outras, é sinônimo de força, empoderamento e até de superioridade em relação ao gênero masculino. Respostas variadas, mas com um detalhe em comum: nenhuma das entrevistadas associou características tradicionais da feminilidade à definição de mulher. Isso leva à reflexão de que a feminilidade não é pré-requisito para ser mulher. Assim, reformula-se a pergunta: o que é, afinal, ser feminina?

Desde a infância, meninas são ensinadas a “ser mulher”. São guiadas por padrões comportamentais e presenteadas com brinquedos associados a tarefas domésticas e à maternidade, como utensílios de cozinha e bonecas, o que contribui para a manutenção de uma mentalidade patriarcal e machista. As vestimentas também seguem esse padrão: vestidos, laços, sapatos brilhantes e referências constantes aos figurinos clássicos de princesas. Garotas que não se adequam às brincadeiras e aos visuais típicos tendem a ser excluídas do grupo de amigas, fomentando, desde os anos iniciais, o sentimento de não pertencimento. Nesse contexto, qualquer ruptura com o padrão esperado acarreta impactos sociais: “O não gostar de rosa na infância é muito mais do que apenas não gostar de uma cor”.

Iniciando na adolescência e se estendendo até a vida adulta, o conceito se transforma, e a feminilidade se aproxima da ideia de perfeição proposta pelos padrões de beleza impostos: mulheres magras, brancas, de cabelos lisos e compridos, sem marcas ou pelos, heterossexuais, delicadas e de caráter dócil. Nesse cenário, mulheres pretas, portadoras de deficiência, LGBTQIA+ e tantas outras que fogem desse padrão sentem-se, mais uma vez, excluídas do universo feminino. Além disso, a busca por esse protótipo inalcançável, não só limita a autenticidade, mas também desencadeia a feminilidade tóxica.

É essencial ressaltar que não há nada de errado em usar maquiagem, gostar de vestidos e buscar a delicadeza. Não há nada de errado em se identificar com a feminilidade tradicional. O problema surge quando a escolha se torna regra, quando todas passam a ser iguais, com as mesmas roupas, penteados, maquiagens, trejeitos e até a fisionomia. O artigo “O Fim da Beleza Única”, de Ju Beneduzi, evidencia como a busca incessante por padrões de beleza desencadeia danos à saúde mental e física, fragiliza a autoestima e, sobretudo, apaga a identidade.

Cirurgias estéticas tornam-se cada vez mais comuns, lojas de roupas passam a oferecer uma variedade restrita às tendências, e quem foge desse padrão é visto como exótico ou estranho. Querendo ou não, toda essa busca por padronização é muito benéfica para o mercado da moda e dos cosméticos, que seguem as tendências e lucram milhões sem a necessidade de altos investimentos em estilistas e equipes criativas, já que a inovação fica em segundo plano. Até pouco tempo atrás, era incomum a presença de moda plus size em lojas comuns de shopping; assim, é inegável que os padrões funcionam como grandes facilitadores para a indústria de fast fashion. Esse conjunto ainda alimenta a prática de consumo excessivo e desnecessário, característico do capitalismo contemporâneo.

“A feminilidade tóxica ocorre quando as mulheres seguem regras rígidas para serem vistas como tradicionais e femininas. Isso pressiona as mulheres a serem quietas e passivas, prejudicando sua verdadeira essência. Essa toxicidade existe devido a uma sociedade que valoriza os homens em detrimento das mulheres”, disse Zuva Sete, jornalista da Verywell Mind, plataforma de saúde mental e bem-estar. Dessa maneira, reforça-se que a feminilidade se torna tóxica quando deixa de ser espontânea e abre espaço para farsas. Além disso, realça o impacto das raízes sexistas nas pautas contemporâneas.

Durante a Idade Antiga e a Idade Média, devido à grande influência cristã, a figura da mulher era associada ao pecado, seja pela narrativa do Gênesis, em que Eva induz Adão a pecar, seja pela associação do corpo feminino, ligado à luxúria. Assim, uma mulher feminina era aquela que vivia sob os ideais de castidade, submissão, modéstia e domesticidade. 

Adentrando a Idade Moderna, novos padrões estéticos e sociais ganham espaço, impulsionados por mudanças estruturais na sociedade, como o declínio do feudalismo e a ascensão de uma nova organização econômica e social. Ainda assim, o papel de submissão e domesticidade permanecia como modelo esperado e desempenhado pelas mulheres. 

A Idade Contemporânea foi responsável por uma intensa guinada na representatividade feminina. Embora marcada por profunda exploração, a Revolução Industrial possibilitou que muitas mulheres fossem inseridas no mercado de trabalho, dando início a uma longa jornada de emancipação, pluralidade e superação de estereótipos. Nesse período, considerava-se feminina aquela capaz de conciliar a autonomia com traços tradicionais de cuidado e sensibilidade.

O século XX, marcado por processos de urbanização, imigração e industrialização, consolidou mudanças radicais na visão da mulher no mundo. No longa-metragem “Mulheres do Século 20”, dirigido por Mike Mills e indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2017, explora-se o papel feminino diante das transformações sociais. A obra aborda a independência feminina, o fim da tutela masculina e o confronto entre gerações. Esse século foi palco de grande desenvolvimento dos movimentos feministas, sendo, inclusive, denominado “Século das Mulheres” e “fim do sexo frágil”.

Atualmente, no século XXI, com o aumento do acesso à informação e à educação, bem como o desenvolvimento do pensamento crítico, o papel da mulher e o conceito de feminilidade transformam-se continuamente. Apesar de ainda existirem preconceitos, muitas mulheres lutam, e lutaram, pela libertação de rótulos e padrões misóginos. Nesse contexto, a feminilidade passa a ser compreendida de forma individual, levando em consideração o que faz sentido para cada pessoa.

Em suma, a feminilidade revela-se como um conceito social moldado por contextos históricos, sociais e econômicos. Ao longo das gerações, seus significados se transformam e não devem ser considerados como determinantes de um caminho certo ou errado. Assim, compreender a feminilidade como expressão individual não apenas amplia a pluralidade e a diversidade no universo feminino, mas também rompe com padrões limitantes, permitindo que cada mulher exista, resista e se reconheça para além das imposições sociais.

“Não se nasce mulher, torna-se mulher” – Simone de Beauvoir 

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