A arte como ferramenta de reconhecimento do ser humano
Artigo de opinião por Eduarda Lins
Revisado por Luana De Figueiredo
Publicado por Leon Pires

Algo verdadeiramente autêntico não se desculpa por sua originalidade. Quando a vida é experienciada sob o julgamento das expectativas alheias, a identidade do “eu” verdadeiro torna-se inalcançável. Não devemos nos desculpar por nossos interesses, pela forma como escolhemos nos portar, nem por aquilo que buscamos nos tornar a autenticidade exige coragem. Nesse contexto, a arte surge como uma forma de expressar aquilo que não é moralmente aceito e, ao longo da história da humanidade, passa a representar um sinônimo de esperança e possibilidade em suas mais variadas manifestações. Não há nada de errado em ser.
Nesse sentido, talvez o verdadeiro problema da sociedade resida na construção opressora que os próprios indivíduos criam e alimentam. O sentimento de inadequação surge a partir do momento em que acatamos essas “normas” e perpetuamos tal comportamento. Logo, toda convenção social, por mais nociva ou benéfica que seja, é fruto da ação humana, formando um grande paradoxo: aquilo que é aceito decorre do que se espera que aceitemos, e não necessariamente de identificação ou pertencimento. Como é possível saber quem somos se não buscamos nosso próprio caminho e apenas seguimos o trajeto que nos foi imposto?
Desse modo, a arte se apresenta como um caminho para a autenticidade do ser humano. O vazio que sentimos começa a ser preenchido quando deixamos de nos preocupar com expectativas externas e passamos a buscar o “eu” verdadeiro. Afinal, o que é a sociedade senão um espelho de nossas inseguranças e inibições, uma projeção de nossos fracassos e desejos? Dessa forma, aquele que vive de maneira inautêntica tende a provocar o mesmo sentimento de inadequação no outro, gerando um ciclo de opressão contra aqueles que não compartilham dos valores estabelecidos.
Mesmo em meio a tudo isso, a arte surge, em contextos de repressão, como forma de expressão. “Ostra feliz não faz pérola”, já dizia Rubem Alves. Assim como a frase sugere, a criação do belo muitas vezes nasce do desconforto e da adversidade sejam eles sociais, mentais, artísticos ou acadêmicos. Ainda assim, é importante reconhecer que o sofrimento não é uma condição obrigatória para a criação, mas frequentemente um catalisador. A “pérola” pode surgir das nossas experiências mais profundas, mas também da sensibilidade, da reflexão e da liberdade de ser. Não há ser humano sem arte, assim como não há arte verdadeira sem expressão. A arte é a manifestação do cerne humano em sua forma mais vulnerável e é por meio dela que seguimos em busca da nossa própria autenticidade.
