Conectados ao mundo, distantes uns dos outros
Artigo de Opinião por Valentina Lopes Abrahão
Revisado por Sofia Bernardino
Publicado por Mariana Mota Lopes

Se no passado, os relacionamentos surgiam através de encontros inesperados, olhares trocados e conversas que duravam horas, atualmente, muitas conexões nascem com apenas um toque na tela. Hoje, parece que tudo acontece depressa demais, até mesmo o ato de conhecer alguém, que antes envolvia tempo, conversas longas e pequenos momentos que, aos poucos, aproximavam duas pessoas. Embora essas transformações façam parte da evolução social, acredito que nem todo avanço tecnológico representa uma melhora na forma como nos conectamos, pois a facilidade de estar perto virtualmente nem sempre significa estar verdadeiramente próximo de alguém.
Com tanta facilidade para conhecer pessoas pela internet, acabamos deixando de perceber como o imediatismo pode atrapalhar a construção de relações verdadeiras e genuínas. Através das redes sociais, é possível manter um contato rápido e direto com pessoas de diferentes localidades, perceber se existe interesse mútuo entre ambas as pessoas, e lidar com uma rejeição sem o constrangimento de uma conversa presencial. Nesse sentido, os perfis virtuais permitem conhecer previamente os gostos e os interesses de alguém. Apesar dessas facilidades, a praticidade proporcionada pela tecnologia tem feito com que muitas pessoas percam o costume de investir na conquista de alguém por quem se interessam. Com a popularização dos aplicativos de namoro e das redes sociais, tornou-se possível encontrar potenciais parceiros com poucos cliques, o que auxilia na busca por novas conexões sem exigir muito esforço. Com tantas possibilidades ao alcance, algumas pessoas acabam desistindo de conhecer alguém no primeiro sinal de dificuldade, acreditando que será mais fácil encontrar outra pessoa disponível do que investir naquela relação. Com isso, atitudes que antes faziam parte da conquista, como superar a timidez, iniciar uma conversa pessoalmente e demonstrar interesse aos poucos, acabam sendo substituídas por curtidas e mensagens rápidas. Na minha opinião, esse comportamento contribui para a ideia de que os relacionamentos devem acontecer sem esforço, quando, na realidade, conhecer alguém exige tempo, iniciativa e disposição para lidar com as incertezas.
Essa busca por conexões rápidas também pode fazer com que as pessoas passem a substituir experiências reais por interações virtuais. Atualmente, existem aplicativos de inteligência artificial que simulam conversas e interações afetivas, permitindo que os usuários criem cenários imaginários e estabeleçam vínculos com personagens virtuais. Além disso, muitos relacionamentos acontecem exclusivamente pela internet, permitindo que as pessoas criem vínculos mesmo sem conviver pessoalmente. Apesar de isso facilitar a aproximação, acredito que o problema começa quando as conversas virtuais passam a ocupar o lugar dos encontros e das experiências compartilhadas fora das telas. No caso dos aplicativos de inteligência artificial, por exemplo, algumas pessoas podem preferir conversar com personagens que correspondem às suas expectativas a lidar com as dificuldades de se relacionar com alguém de verdade. Já nos relacionamentos virtuais, a falta de convivência presencial pode dificultar o conhecimento mais profundo do parceiro, pois dividir momentos e aprender a lidar com as diferenças também são partes importantes de uma relação. É durante a convivência que as pessoas aprendem a ceder, rever atitudes, assumir seus erros e fazer mudanças para construir uma relação saudável. Quando essas experiências são substituídas por interações exclusivamente virtuais, perde-se parte das oportunidades de desenvolver essa capacidade de adaptação. Até porque evoluir também significa aprender a conviver com pessoas diferentes de nós, e quem não exercita essa habilidade pode acabar se tornando mais inflexível e encontrando dificuldades para lidar com os desafios de qualquer relacionamento. Com o tempo, isso pode prejudicar não apenas os vínculos amorosos, mas também a capacidade de criar conexões e conviver com outras pessoas fora do ambiente virtual.
Outro efeito dessas mudanças é a maneira como a tecnologia influencia a forma como as pessoas enxergam a si mesmas e aos outros dentro de um relacionamento. Nas redes sociais, é comum encontrar estereótipos que determinam como homens e mulheres devem se comportar, quais características físicas precisam apresentar e quais condições financeiras devem possuir. Essas postagens acabam estabelecendo padrões que, na maioria das vezes, não correspondem à realidade. Acredito que essa idealização prejudica tanto a maneira como enxergamos os outros quanto a forma como enxergamos a nós mesmos. Ao comparar parceiros reais com modelos frequentemente idealizados na internet, muitas pessoas passam a exigir características inalcançáveis e a desvalorizar qualidades que realmente importam. Além disso, essa comparação pode fazer com que algumas pessoas comecem a se enxergar de forma negativa, desenvolvendo inseguranças que as corroem por dentro e as levam a acreditar que não são boas o suficiente para viver um romance. Assim, por não se identificarem com os padrões impostos nas redes sociais, acabam se afastando de quaisquer tipos de interação amorosa por medo de não corresponderem às expectativas dos outros. A exposição constante a casais que parecem viver relacionamentos perfeitos pode gerar a impressão de que a própria relação é insuficiente ou de que existe algo errado consigo mesmo. Consequentemente, surgem inseguranças, insatisfação e dificuldades de auto aceitação, como se fosse necessário corresponder a determinadas expectativas para merecer afeto.
Portanto, na minha perspectiva, os avanços tecnológicos não representam um problema por si só, mas a dependência excessiva deles pode comprometer a qualidade e genuinidade dos relacionamentos. Nesse cenário, essas mudanças têm alterado a forma como as pessoas se aproximam e buscam parceiros, fazendo com que muitas deixem de se esforçar para conquistar alguém e construir uma conexão verdadeira. Afinal, por mais que a tecnologia facilite o contato, construir uma relação de verdade ainda exige esforço, interesse e vontade dos dois lados de fazer dar certo. É necessário reconhecer que, apesar de facilitarem o contato, as ferramentas digitais não devem substituir a convivência, o diálogo e a construção gradual da intimidade. Acredito que também precisamos aprender a questionar os padrões que vemos nas redes sociais e entender que ninguém precisa ser perfeito para viver um relacionamento, pois em meio a tantas pessoas conectadas, parece contraditório que seja tão difícil criar conexões verdadeiras. No fim das contas, conhecer alguém de verdade vai muito além de trocar mensagens ou se encantar com o que aparece na tela, exige tempo, paciência e vontade de enxergar o outro como ele realmente é.
