A Morte de um Sonho
Artigo de opinião por Valentina Eloi
Revisado por Amanda Martin
Publicado por Giovanna Martini

É comum ouvirmos que os brasileiro são mais inteligentes que muitos dos estrangeiros porque simplesmente “sabemos de tudo”, conhecemos fórmulas e datas, dominamos conteúdos de diversas áreas e conseguimos responder a questões que, muitas vezes, surpreenderiam qualquer estrangeiro. Entretanto, essa suposta superioridade pode esconder uma realidade diferente, em que não necessariamente sabemos mais, mas fomos condicionados a acumular uma grande quantidade de conteúdos, muitas vezes sem compreender sua verdadeira aplicação ou relevância.
Em um país marcado por profundas desigualdades e por um sistema educacional historicamente conteudista, acumular informações tornou-se quase uma exigência para sobreviver academicamente, onde o conhecimento deixou de ser apenas uma ferramenta para compreender o mundo e passou a funcionar como moeda de aprovação.
Enquanto outros modelos podem privilegiar aquilo que o estudante precisa compreender e aplicar, contribuindo para sua formação como indivíduo funcional e crítico, o sistema educacional brasileiro ainda valoriza excessivamente a memorização, onde os jovens frequentemente aprendem que precisam saber um pouco de tudo para conseguir avançar.
Essa lógica se torna ainda mais evidente quando o ensino se encontra com a cultura dos vestibulares. Os adolescentes são cada vez mais inseridos em uma lógica educacional na qual notas, aprovações e desempenho parecem determinar o valor de suas próprias capacidades. Esses jovens, ao mesmo tempo que estão constantemente sendo submetidos a uma rotina de cobranças que ultrapassa os limites da sala de aula, são também cobrados a uma decisão urgente de escolher suas próprias carreiras.
Esse esforço constante contribui para o esgotamento, e faz com que o cansaço deixe de ser tratado como um sinal de alerta e passe a ser visto como parte natural da trajetória acadêmica. É nesse cenário que o burnout encontra espaço. Quando o excesso de esforço transforma o aprendizado em sofrimento, aquilo que antes era um sonho pode se tornar uma fonte de ansiedade e exaustão. Assim, não é contraditório que um jovem abandone uma trajetória que desejava quando o caminho até ela foi associado apenas à pressão, ao medo e à sensação de nunca ser suficiente. Portanto o sonho não desaparece, ele simplesmente é sufocado pelo peso do caminho até ele.
Além disso, o futuro passa a ser associado ao sucesso financeiro, ao prestígio e à aprovação, trazendo muitas vezes uma incerteza ou até mesmo uma escolha profissional baseada em interesses e não afinidade. Não por acaso, os testes vocacionais ganharam espaço como uma tentativa de encontrar uma resposta rápida para uma decisão extremamente complexa. Mas afinal, como um questionário poderia determinar com precisão aquilo que uma pessoa ainda está descobrindo sobre si mesma?
É necessário, portanto, questionar um modelo educacional que mede tão frequentemente o potencial de um indivíduo por números e resultados. Preparar jovens para o futuro não deveria significar ensiná-los a suportar qualquer nível de pressão, nem fazê-los sacrificar o presente por tal ação. Afinal, descobrir uma vocação também exige tempo, experiências e a possibilidade de mudar de ideia. Uma educação que prepara alguém para uma profissão, mas não permite que essa pessoa descubra com tranquilidade qual profissão realmente deseja seguir, precisa repensar o que significa, de fato, educar.
Diante disso, torna-se necessário questionar uma educação que transforma a juventude em um período no qual o presente é constantemente adiado em nome do futuro. Escolher uma profissão deveria ser um processo de descoberta, e não uma corrida contra o tempo, na qual cada dúvida é interpretada como atraso e cada mudança de caminho como desperdício. A educação deveria abrir portas para os sonhos, não transformá-los em motivo para desistir.
