Artigo de Opinião por Sofia Todorov
Revisado por Laura Raslan
Publicado por Mariana Mota Lopes
Em 1947, o psiquiatra americano Douglas M. Kelly, que ficou encarregado de analisar a sanidade mental dos principais líderes nazistas antes de seus julgamentos no Tribunal de Nuremberg, publicou, no livro 22 Celas em Nuremberg, sua experiência durante o processo de diagnóstico. Inicialmente, assim como grande parte da população da época, Dr. Kelly acreditava que esses oficiais haviam sido acometidos por alguma doença que os teria levado a cometer tamanhas atrocidades durante o regime nazista. Contudo, após concluir seu trabalho, o médico se deparou com a assustadora realidade de que aqueles homens não manifestavam sinais de doenças mentais e que seus comportamentos não poderiam ser explicados por possíveis transtornos que os diferenciassem de outros indivíduos que ocupavam cargos de poder nos Estados Unidos e em outros países da Europa.
Cerca de oitenta anos depois, a vitória do partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha) nas eleições realizadas no estado da Saxônia-Anhalt, no início deste mês, alarmou estudiosos em um contexto de contínuo crescimento de partidos de mesma ideologia em toda a Europa. A AfD se estabeleceu como uma oposição aos movimentos imigratórios no país, ao mesmo tempo em que declara seu apoio à Rússia e defende a saída da Alemanha da União Europeia. Além disso, o partido também promete promover alterações na área escolar, visando ao fortalecimento do patriotismo e à implementação de medidas problemáticas, como a segregação de crianças com deficiência e filhos de refugiados nas escolas, por meio de salas separadas dos demais alunos.
As semelhanças entre as propostas da AfD e o regime nazista de Hitler não passaram despercebidas. O ultranacionalismo e a xenofobia são algumas das causas da preocupação internacional com os resultados dessa eleição. É nesse cenário que as falas do Dr. Kelly são relembradas com certa aflição. Assim como Hannah Arendt alertou em seu estudo sobre a “Banalidade do Mal”, também desenvolvido no período posterior aos julgamentos de Nuremberg, o psiquiatra admitiu que os oficiais nazistas eram oportunistas que aproveitaram a chance de ascensão social, sendo eles parte da “massa sem identidade” mencionada por Arendt em sua teoria.
Dessa forma, não se pode afirmar que os acontecimentos do Holocausto foram possíveis somente devido a um grupo específico de pessoas que apresentavam características únicas, as quais teriam alimentado os horrores da época, mas, sim, que foram causados por pessoas comuns, semelhantes às que circulam livremente pelo mundo atualmente e que, de acordo com Dr. Kelly, apresentavam características semelhantes às de políticos de governos democráticos, como o americano, durante sua época. Sendo assim, o avanço da extrema direita nos governos europeus, representado pela vitória da AfD na Alemanha, um país que historicamente buscou controlar esses partidos extremistas visando a não correr o risco de repetir os acontecimentos de seu passado sombrio, representa a manifestação do que o médico Douglas M. Kelly tentou alertar em seu livro há oitenta anos.
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