Epistemicídio racial e cultural: os perigos do extremismo disfarçado de discurso político
Artigo de Opinião por Tiago Carneiro
Revisado por Tiago Carneiro
Publicado por Mariana Mota Lopes

O termo “epistemicídio” foi cunhado pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos no ano de 1994. No contexto em que foi introduzido, tal denominação era utilizada para descrever o modelo colonial europeu que – com base em critérios eurocêntricos – subjugava aspectos sociais, culturais e científicos dos colonizados.
No Brasil, a socióloga Sueli Carneiro foi a principal responsável por aplicar e difundir o conceito no entendimento da organização sociocultural dentro do contexto nacional. Seu trabalho foi pautado principalmente em analisar e em entender a forma como as desigualdades sociais e raciais – fomentadas por um modelo supremacista branco – atuavam propositalmente na erradicação da intelectualidade negra, visando apagar toda uma base cultural advinda da formação de seus ancestrais. Exemplos desse apagamento intencional são as inúmeras dificuldades que as religiões de matriz africana enfrentaram e enfrentam para serem legitimadas em nosso país.
Desde o dia 7 de janeiro de 1890, o Brasil passou a ser um país oficialmente laico; por arranjo político, não por conscientização populacional ou qualquer coisa do gênero. Em decorrência de tais fatos, as – até então, amplamente criminalizadas – vertentes religiosas que apresentavam raízes no culto à ancestralidade africana, só conseguiram, no ano de 1976, deixar de serem colocadas como objeto de tutela da Delegacia de Jogos e Costumes – na qual tinham de apresentar uma licença para exercer seu funcionamento mediante o pagamento de taxas. Em 1988 – com a promulgação da constituição vigente até os dias atuais – o livre exercício de quaisquer outros cultos, que não os cristãos, passaram a ser oficialmente reconhecidos e assegurados em amplitude nacional. Assim foi para a maioria dos direitos relacionados a ancestralidade comum do brasileiro dita, muitas vezes, como primitiva.
As dificuldades que os adeptos de outras religiões tiveram de enfrentar, contudo, nunca deixaram de estar presentes em nossa sociedade, mesmo que de forma mais velada. Devido à fundamentação católica sobre a qual a nação foi erguida, culturalmente, religiões não cristianizadas foram constantemente distorcidas e, por consequência, tornaram-se abjetas; motivo de chacota. Exemplo disso é que até os dias de hoje, dia após dia, novas ocorrências de intolerância religiosa são negligenciadas até mesmo em esferas jurídicas de competência estatal por aqueles que deveria ser responsáveis por sua resolução, que – por consequência de uma formação preconceituosa – normalizaram tal tipo de ato, evidenciando ainda mais o epistemicídio velado que se propaga hoje e que se mostra cada vez mais explícito em decorrência da atual conjuntura de ideias retrógradas.
A situação torna-se substancialmente mais grave quando – fomentados por um cenário político e ideológico favoráveis a esse tipo de agressão – observa-se, claramente, o aumento de movimentos de extrema direita. Do ano de 2019 ao ano de 2022, ao longo do governo de Jair Bolsonaro, houve um aumento de 270% no número de células extremistas e neonazistas. O crescimento deliberado de tais organizações é uma clara ameaça a todos os avanços sociais alcançados. Apesar do governo vigente na época não ter tomado medidas explícitas que apoiassem esse crescimento, a consequência das falas desproporcionais, da falta de medidas que visassem o combate a esse tipo de acontecimento e de todo o ódio propagado por membros do Estado; criou, por consequência, um ambiente confortável para a proliferação desse tipo de ideologia distorcida.
Em cenário de eleição, boa parte dessas convicções deploráveis vêm à tona. No ano de 2026, tem sido possível sentir na pele as consequências de falta de medidas para frear tais organizações sórdidas. O candidato à presidência da república, Flávio Bolsonaro – herdeiro do movimento bolsonarista consolidado no governo de seu pai – disse que, se eleito, um de seus primeiros atos seria decretar/ consagrar o Brasil ao Senhor Jesus Cristo. Que seria isso se não um movimento extremista religioso que visa privar a liberdade religiosa no país? Flávio também disse que, por ter maioria no senado e na câmara, se eleito, utilizaria desses aparatos para mudar a constituição e “redemocratizar” o país… fala extremamente preocupante por entender as tendências golpistas do movimento do qual ele se tornou patrono. Os resultados das eleições atuais são reflexo dessa maldição que assola nossa sociedade; os deputados e senadores abertamente racistas, misóginos, preconceituosos e, o pior de tudo, falsos moralistas que só visam manter a desgraça na qual as grandes massas vivem; tudo isso só reflete cenário conveniente que foi criado em nossa sociedade para que se difunda um ódio herdado dos nossos algozes históricos.
O termo “epistemicídio” foi utilizado, originalmente, para tratar do apagamento sociocultural realizado pelos europeus durante o processo das colonizações. Mais tarde, foi reavaliado para abordar também a erradicação advinda da formação histórica de uma nação – consequências do processo hediondo que sofremos -, avaliando quesitos internos. Tudo isso deveria ficar no passado, apenas como constatações de um passado distante que precisou cunhar e entender, para tratar, tamanhos atos de crueldade e suas cicatrizes. Apesar disso, observando-se a situação na qual a discussão ideológica de um país inteiro se encontra, já não é mais possível negar que esse passado deplorável segue tão vivo quanto poderia…
É preciso lutar enquanto ainda se pode; é preciso resistir enquanto ainda é opção. O apagamento histórico é uma realidade, mesmo que tenha sido condenado. É imperativo que mantenhamos ele da forma que ele está, na qual ainda pode, com tempo e esforço, ser erradicado. Já passamos por repressão o suficiente para buscar entender nossas raízes e cultuá-las como veia pulsante de nossas vidas, não podemos permitir que tudo aquilo que foi sofrido por nossos ancestrais seja apagado. Não podemos permitir que o sangue deles tenha sido derramado em vão; não sabendo que fizeram isso para que pudéssemos viver aquilo que vivemos. Não podemos, por medo de nos posicionar, permitir que o legado que nos foi deixado com tanto custo se torne apenas uma lembrança remota, apagada para nos reprimir por aqueles que julgam ter o direito de se dizer melhores.
Escrevo esse texto na esperança de que ao expor, de forma resumida, um contexto tão grotesco e complexo, o epistemicídio que foi vivido por nós não volte a ser uma realidade em nossa sociedade. Diga não ao extremismo, diga não à ignorância, diga não ao ódio.
