O Espetáculo da Dor e o Esquecimento feminino
Artigo de opinião por Valentina Eloi
Revisado por Amanda Martins
Publicado por Mariana Mota Lopes

Em outubro de 2024, uma estudante da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, denunciou ter sofrido violência sexual envolvendo sete integrantes de uma fraternidade universitária. O caso voltou a repercutir nas redes sociais em 2026, após a abertura de um processo civil e a retomada da investigação criminal. Embora a universidade tenha aplicado sanções disciplinares, incluindo expulsões e suspensões, as medidas adotadas geraram controvérsias, sobretudo diante das discussões sobre a proporcionalidade das punições. Com a negativa dos acusados e a circulação de diferentes versões dos acontecimentos, o caso ultrapassou os limites da discussão jurídica e se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes, o que sucista questionamentos não apenas sobre a violência sexual, mas também sobre a maneira como a sociedade reage a ela.
Nesse contexto, chama a atenção a facilidade com que a solidariedade pública se torna condicional. Quando surgem informações que colocam em dúvida a conduta da vítima ou tornam o caso mais complexo do que parecia inicialmente, muitas pessoas passam a rever seu posicionamento, enquanto outras simplesmente perdem o interesse. Como se a dignidade de uma mulher dependesse de suas escolhas ou da aprovação alheia, esquece-se de que ninguém precisa ser irrepreensível para ter seus direitos respeitados. É evidente que as denúncias devem ser investigadas e que todas as evidências precisam ser consideradas, mas isso não justifica transformar a vida da vítima em um julgamento público. Afinal, o problema vai muito além de uma única história: inúmeras mulheres ainda enfrentam o medo de serem assediadas, agredidas ou desacreditadas ao denunciarem a violência.
Essa postura se torna ainda mais evidente nas redes sociais, onde casos de violência sexual frequentemente se transformam em verdadeiros jogos de investigação pública. Em vez de buscar compreender a gravidade do ocorrido e discutir formas de combater esse tipo de violência, milhares de pessoas se dedicam a descobrir quem é a vítima, identificar os envolvidos e decidir qual versão merece credibilidade. Nesse processo, fatos são distorcidos, informações são retiradas de contexto e especulações passam a ser tratadas como verdades. A própria indignação, que poderia contribuir para ampliar a conscientização sobre a violência contra a mulher, acaba sendo utilizada para alimentar disputas virtuais. É nesse comportamento que se revela uma das faces mais preocupantes da sociedade contemporânea: a capacidade de transformar o sofrimento alheio em entretenimento e a verdade em instrumento de conveniência.
Como se esse cenário já não fosse suficientemente preocupante, existe ainda a rapidez com que esses acontecimentos são esquecidos. Vivemos em uma sociedade habituada a consumir informações em ritmo acelerado, na qual um caso pode mobilizar milhares de pessoas durante dias e, pouco depois, desaparecer diante de uma nova polêmica. O acontecimento, que antes parecia inabalável, dá lugar ao silêncio, enquanto a vítima continua convivendo com as consequências da violência e os problemas que permitiram sua ocorrência permanecem. Essa efemeridade revela uma forma de indiferença disfarçada de comoção: revoltar-se diante de uma notícia é fácil, mas manter a atenção, acompanhar os desdobramentos e cobrar mudanças exige um compromisso que nem sempre existe. No fim, o que deveria provocar reflexão se torna apenas mais um assunto passageiro, consumido e descartado conforme os interesses do público.
Portanto, o caso evidencia que o combate à violência contra a mulher não depende apenas da responsabilização dos envolvidos, mas também da maneira como a sociedade escolhe lidar com essas situações. É necessário abandonar tanto o julgamento precipitado quanto a relativização da violência, sem permitir que a distorção dos fatos comprometa a seriedade do debate. Mais do que indignação momentânea, são necessários informação responsável, respeito às vítimas e disposição para questionar comportamentos e estruturas que perpetuam a violência. Afinal, uma sociedade verdadeiramente comprometida com a justiça não é aquela que apenas se revolta quando uma tragédia ganha visibilidade, mas aquela que continua exigindo respostas quando as câmeras se apagam, as discussões cessam e o assunto deixa de gerar engajamento.
