Crônica ensaística de caráter jornalístico-cultural por Micaella Martins
Revisado por Helena Xavier
Publicado por Amanda Pereira
Nascer brasileiro é vir ao mundo com a certeza de possuir o dom de transformar as coisas mais cotidianas em arte e elementos simples em símbolos culturais carregados de significado, história e da presença dos que se foram.
O Brasil é a terra onde a mistura de ausência, afeto, memória e desejo de reencontro ganha um nome intraduzível. Um sentimento de grande complexidade, presente nas mais singelas trocas. A saudade tornou-se quase uma identidade emocional brasileira. Aparece na música, na poesia, nas despedidas, na distância, na infância e nas cidades. É a presença da ausência, algo que ultrapassa o tempo e a distância, e isso começou há muito tempo.
O Brasil foi construído sobre deslocamentos: imigrações, separações, êxodos rurais e escravidão. Durante a primeira fase do Romantismo brasileiro, no período pós-independência, escritores buscavam construir uma identidade nacional própria. Grandes nomes dessa fase marcaram o período com textos que exaltavam a nostalgia e a sensação de pertencimento por meio do saudosismo.
Um dos mais belos exemplos é o conhecido poema “Canção do Exílio”, escrito por Gonçalves Dias.
“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.”
O poema foi escrito em Portugal, enquanto o autor estudava fora do país. O sentimento em relação à terra brasileira ajudou a criar uma imagem afetiva do Brasil, quase como um mito nacional. Foi nesse contexto que a saudade começou a ganhar força como símbolo afetivo brasileiro: não apenas como tristeza, mas como a junção entre melancolia e ternura, sendo assim, a certeza de que algo foi amado associada ao desejo de reencontro.
E isso, por si só, já representa uma singularidade da língua portuguesa: um sentimento sem tradução exata em outros idiomas.
Com isso, a expressão desse sentimento na arte se tornou uma assinatura cultural, fazendo-se presente de maneira ainda mais evidente na música. A música brasileira frequentemente transforma tristeza em beleza e ritmo. A saudade pode ser dolorosa, mas também é doce.
Muitas canções falam de amor perdido, tempo passado, infância e pessoas que partiram. Enquanto na bossa nova e na MPB ela é retratada por harmonias suaves e composições intimistas, no samba e no sertanejo aparece de maneira mais narrativa e emotiva.
“Chega de Saudade”, composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, marcou oficialmente o nascimento da bossa nova. A letra fala da ausência amorosa com leveza e ganhou grande repercussão na época, tornando-se um marco da música brasileira.
Desde então, inúmeras composições passaram a ser reconhecidas pelos traços profundos dessa sensação, muitas marcando gerações e enriquecendo a cultura do país. Um dos exemplos mais conhecidos é “Asa Branca”, composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que retrata a dor de deixar o sertão por causa da seca e o desejo profundo de retornar à própria terra.
Assim, a saudade pode ser compreendida como um precioso tesouro da língua portuguesa, fruto da fusão de sentimentos e de uma história marcada por grandes amores, partidas e distâncias. Mais do que uma palavra, ela carrega uma das formas mais profundas da brasilidade, a capacidade de transformar a ausência em permanência.
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