Entrevista por Victor Hugo L. de Castro Feitosa
Revisado por Lorena Ramos Rezende
Publicado por Manuele Mariani B. Canêdo
Monge Sato, ex-coordenador do Templo da Terra Pura, palestrando sobre o tema “Saúde e Espiritualidade na Perspectiva Budista” (Foto – José Gonçalo).
De professor de economia na Universidade de São Paulo (USP) a aliado do ex-presidente chileno Salvador Allende, em um dos períodos mais turbulentos da América Latina, Ademar Kyotoshi Sato superou adversidades inimagináveis. Hoje, como monge, Sato compartilha seus ensinamentos sobre saúde, revelando como a espiritualidade e o cuidado com o bem-estar contribuem para o equilíbrio entre corpo, mente e alma.
Quando criança, Sato foi batizado no catolicismo e, na juventude, aderiu à Teologia da Libertação, movimento progressista latino-americano dentro do cristianismo, tanto na perspectiva religiosa quanto social. A repressão do governo militar instaurado em 1964 obrigou-o a buscar exílio no Chile, em 1970, onde trabalhou com o então presidente Salvador Allende.
Em 1973, o militar e político Augusto Pinochet liderou o golpe que deu início à ditadura chilena. Sato, assim como vários outros apoiadores de Allende, foi sequestrado, encapuzado e conduzido ao pelotão de fuzilamento. No entanto, não foi executado porque possuía um passaporte diplomático antigo, emitido quando era estagiário da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), órgão regional vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU).
Após o ocorrido, o paulistano mudou-se para a Bahia, onde residiu até 1981 e, no mesmo ano, retornou à sua cidade natal, São Paulo. Lá, auxiliou na criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), movimentos originados entre trabalhadores com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais e valorizar o trabalho.
Em 1986, Sato mudou-se para Brasília, mas só passou a visitar o Templo Budista de Brasília em 1995. Em suas palavras, “fiquei impressionado com um velho monge que disse que a compaixão do Buda é algo parecido com o amor de mãe”. Aos 56 anos, integrou-se à vida monástica e consagrou-se monge.
Em entrevista à Folha Única, o monge debateu saúde mental, física e espiritual, compartilhando seus conhecimentos para oferecer um guia inspirador à nova geração. Ele também explicou como, no budismo shin, a saúde é compreendida e qual é a sua importância dentro da prática religiosa. Além disso, abordou as raízes da religião, que surgiu no Japão, mas foi fortemente influenciada pela China. O budismo shin combina elementos do confucionismo, do taoísmo e do budismo tradicional.
Destacou que Sidarta Gautama, ou Buda, principal figura do budismo, seguiu o “Caminho do Meio”, evitando excessos tanto nos sacrifícios e na religiosidade quanto na vida e na luxúria. Esse conhecimento é essencial para o equilíbrio da saúde, que, no budismo, é compreendida como a harmonia entre corpo, emoções e conhecimento.
Indagado sobre as atividades que o Templo da Terra Pura, em Brasília, oferece ao público, destacou que o espaço, liderado por ele de 2007 a 2022, disponibiliza práticas como artes marciais, tai chi chuan e yoga, ressaltando que essas atividades contribuem significativamente para a construção de uma vida saudável.
O monge enfatizou ainda que o templo oferece, além das atividades já mencionadas, cursos de caligrafia, origami e ikebana, artes que ensinam delicadeza, respeito e disciplina.
Segundo ele, as práticas de artes marciais e outras atividades físicas auxiliam no equilíbrio entre corpo e mente, além de preservar tradições importantes. Ao longo do ano, o templo oferece diversas atividades e, em agosto, fortalece ainda mais o senso de comunidade ao sediar a “Quermesse de Agosto”, considerada uma das maiores festas de Brasília, sempre trazendo, em suas palavras, “grande movimentação de alegre energia”.
Ademais, ele ressalta que não é apenas o culto que se realiza no templo: o espaço oferece uma variedade de serviços voltados ao bem comum. Lembra também que sua importância se evidenciou ao ser reconhecido pelo poder público como Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília.
Outrossim, Sato afirma que “não há apenas ofícios dominicais, mas também aulas sobre budismo e sessões de meditação abertas ao público em geral, a pessoas de todas as idades, especialmente jovens. Todos podem frequentar livremente, não sendo necessário ser ‘budista’ para participar”.
O monge destaca que a saúde está no equilíbrio entre a sabedoria e a compaixão. A sabedoria está ligada à ciência, e a compaixão, à fé. Nossa saúde depende desses pilares. “Por exemplo, tomo remédios, mas também faço meditação. Só ela, quando se trata de uma doença que pode ser curada por medicamentos, não basta; ou seja, faço meditação e tomo meus remédios para manter o equilíbrio químico, emocional e espiritual.”
Por fim, para os jovens, fica o legado e a vitalidade do senhor Sato, reforçando que a saúde é compreendida como a harmonia entre corpo, emoções e conhecimento.
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