Um novo “S” em Sudão do Sul: Surpresa!

Um novo “S” em Sudão do Sul: Surpresa!

Entrevista por Maria Luíza Quintela


Revisado por Rebeca Marques

Publicado por Mariana Mota Lopes

Alijah Lydia, estudante da Hayek International College.

Na última sexta (3), a instituição Hayek International College, em parceria com a Fundação Internationali Negotia, sediou a HGI MUN, uma simulação da ONU em inglês, na capital do Brasil. Durante esse momento, tive o enorme prazer de conversar com a estudante sul-sudanesa Alijah Lydia, que compartilhou inúmeras curiosidades, memórias e experiências acerca de suas vivências até a chegada ao Brasil.

O relato se iniciou com alguns dados sobre o país: “O Sudão do Sul tem cerca de sessenta e quatro tribos, e essas sessenta e quatro tribos têm línguas diferentes. As  línguas oficiais são o inglês, porque fomos colonizados pela Grã-Bretanha, e depois temos o árabe, mas existem dois tipos de árabe. No norte, existe esse tipo específico de árabe, mas não sei a palavra certa para ele. Já no sul, falamos o árabe local, chamado Juba, e esse é o árabe que eu falo”. Em seguida, continuou com algumas especificidades geográficas: “Eu cresci na parte oeste do Sudão do Sul, que possui áreas administrativas, em uma pequena cidade chamada Western Equatoria State. A Central Equatoria State é onde fica a capital, Juba, e também temos a Eastern Equatoria State, que faz fronteira com Uganda, nosso país vizinho, e foi para lá que eu fui como refugiada “, diz a estudante. 

Alijah também dividiu comigo momentos da sua infância, contando com muito carinho sobre crescer em um ambiente onde se brincava com lama, faziam-se bonecos com barro e visitavam-se fazendas para colher alimentos, o que ela define como marcas culturais da vida no Sudão do Sul. “A maneira como vivíamos era, na minha região — assim como na maior parte dos estados Western, Eastern e Central — bastante agrícola. Somos muito agricultores, temos terras agrícolas muito férteis.”.

Ainda sobre cultura, Alijah Lydia disse que esta é uma das coisas que mais ama em seu país de origem, e exibiu uma profunda admiração pela variedade linguística e pela diversidade na manifestação cultural. Quanto mais se explora o território, maior a percepção sobre a imensidão da tradição única de cada povo que habita o local. 

Após isso, ela discorreu  sobre sua trajetória até a Hayek: “Então, minha experiência com a Hayek foi incrível. Tudo começou com John Mustapha. Ele fez mestrado aqui (na Hayek), online. Então, quando veio para cá (Brasil), ele falou sobre ter essa oportunidade, porque o sistema educacional do Sudão do Sul não é um dos melhores. É por isso que a maioria das pessoas viaja para Uganda, para países vizinhos, para conseguir uma educação melhor. Mas, novamente, não estou dizendo que o sistema é totalmente ruim; ele simplesmente não é forte o suficiente para conseguir chegar a algum lugar fora do Sudão”. Quando a questionei sobre o ambiente na Uganda, ela respondeu: “Uganda é muito acolhedora. Muito acolhedora. E, durante as guerras civis que aconteceram no Sudão do Sul, Uganda também abriu suas portas e recebeu muitos refugiados. E meus pais, na verdade, ficaram como refugiados em um campo de refugiados em Uganda. Então, realmente, eu não diria que é uma coisa boa ser refugiado, mas também é um privilégio estar lá e ter uma vida segura em vez de estar no seu país durante uma guerra civil.”.

Seguimos conversando sobre sua vida acadêmica, e ela compartilhou: “E a Hayek… quando a oportunidade surgiu, eu realmente não estava esperando nada. Eu estava procurando bolsas de estudo, mas não tinha um plano”. Alijah também denunciou dificuldades estruturais na lógica meritocrata: “Quando recebi, fiquei resistente à ideia. No Sudão do Sul, ainda temos esses problemas em que, quando alguém consegue esse tipo de oportunidade, quer dar para a família ou para os amigos próximos. E então, alguém que consegue enviar essas informações para diferentes pessoas… ele (John Mustapha) foi genuíno, queria que fosse uma escolha justa, não apenas alguém aleatório que recebesse a bolsa”, ela conta, feliz em divulgar que John foi bem intencionado nesse processo. Com muito humor e alegria, Alijah me encantou com sua vivência até aqui, e disse que depois de alguns processos, e uma aplicação enviada no último dia, suas expectativas zeradas se tornaram uma realidade 100% concreta: ela havia sido selecionada para vir ao Brasil.

Dialogamos sobre como ela se sentia em nossas terras tropicais, e é lógico que a resposta não poderia ser diferente: “O Brasil é um lugar muito bom. Eu amo muito. Especificamente, quando consegui a bolsa, primeiro fiquei com medo. ‘Como vou sobreviver?’ Eu estava com muito medo. Mas, quando cheguei aqui, recebi um tipo diferente de acolhimento. As pessoas também são muito acolhedoras. Alguém simplesmente chega e te abraça, mas eu amo isso!”. Ela falou sobre como o rotineiro arroz com feijão da nossa culinária nos aproxima culturalmente, e remete aos costumes da sua própria origem. A barreira linguística ainda é algo real, mas que vem sendo trabalhado, junto com uma vontade iminente de aproveitar a brasilidade. 

A última pergunta de nossa entrevista: O que você gostaria de compartilhar com todo o mundo? E faço questão de transcrever a resposta palavra por palavra: “Há mais coisas que ainda podem acontecer. Há muita coisa no Sudão do Sul. Há muita coisa que podemos explorar, e ainda há muitos setores que pequenos investimentos poderiam desenvolver. E o Sudão do Sul tem muitas, muitas culturas bonitas. O Sudão do Sul tem muitas línguas que você pode conhecer e explorar. Quero dizer, você pode ver isso agora, mas, sabe, essas são as principais coisas. Mas você precisa melhorar, passar por esses processos. E são esses processos que constroem um país. E nós somos um povo muito resiliente.”. 

Esse relato é um mero fragmento de tantas outras coisas que Alijah Lydia me ensinou, e esse texto é uma pequena parte de tudo que eu queria transmitir. Que entendamos que o processo de melhoria em diferentes culturas é não linear, que paraísos linguísticos, festivais, e memória viva podem coexistir com tantas mazelas ainda não solucionadas, e lembremos o que há de muito positivo ainda reverterá todo esse cenário tempestuoso – a resiliência, a luta e a tradição. À entrevistada, Alijah, o mais sincero dos agradecimentos, que o Brasil te acolha com o dobro da gentileza que você demonstrou!

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