Notícia por Bárbara Cândido
Revisado por Maria Beatriz Nogueira
Publicado por Alícia Ferreira
Port Lockroy, museu de antiga base britânica perto da Península Antártica. (Foto por Esther Kokmeijer)
A chuva costuma ser rara na Antártica, mas isso está mudando. A Antártica é considerada o continente mais frio, mais seco e detentor da menor temperatura já registrada da Terra, (-89,2 °C). Entretanto, o que acontece quando as temperaturas globais aumentam e afetam ciclos hidrológicos e a precipitação local?
A chuva passa a ocorrer. Diante disso, a pesquisadora e professora Bethan Davies da Universidade de Newcastle, Inglaterra, explica as consequências da chuva no bioma gelado.
Derretimento da neve, aumento do desprendimento de icebergs e ameaça à sobrevivência de seres como os pinguins são apenas algumas das consequências desse desastre ambiental. A fim de entender melhor a situação, a Península Antártica é utilizada como principal área de estudo da pesquisadora Davies. Localizada no extremo norte, é a região mais afetada pelas mudanças climáticas, apresentando o maior e mais rápido aumento de temperatura do continente. Assim, a Península funciona como um prólogo para o que está por vir em toda a região, à medida em que dias com temperaturas acima de 0°C (temperatura necessária para que a precipitação ocorra no estado líquido) se tornam cada vez mais comuns.
Nesse sentido, a professora destaca: “Descobrimos que, conforme a Península aquece, a precipitação aumentará ligeiramente e cairá cada vez mais na forma de chuva, em vez de neve.” Mas, afinal, quais problemas a chuva pode trazer? O prejuízo não é o composto, mas o estado físico. A neve depositada no solo derrete mais rapidamente com o contato junto à água líquida que transfere calor e a dissolve. Dessa forma, o gelo se torna mais “escorregadio” e a chance de massas glaciares compactas de gelo deslizem, aumenta, e o desprendimento de icebergs se torna mais comum, resultando, entre muitas consequências, na elevação da taxa de perda total de massa glacial do continente.
Além disso, a perda do território gelado contribui para uma série de impactos ecológicos. Espécies icônicas de pinguins, como os Adélie e Chinstrap, por exemplo, tornam-se indefesos por não serem adaptados ao clima chuvoso e dependerem do gelo para sobreviver. Nos filhotes, a plumagem não é impermeável, suscetível à hipotermia e até morte, impactando na sua população. Essa desvantagem os leva a perder espaço para espécies mais adaptáveis a essa condição, como os Pinguins Gentoo.
Seres humanos também não estão fora dessa. Embora a Antártica não seja habitada permanentemente, bases temporárias de pesquisa estão presentes por toda a Península, projetadas para suportar neve, e não chuva. Ademais, a Antártica possui mais de 96 sítios e monumentos históricos, alguns com mais de 100 anos, como o Porto Lockroy datado de 1903, que são vulneráveis às mudanças climáticas.
A chegada da chuva em um continente muito frios recebe o nome de “deserto gelado”, e serve de alerta para o nível em que o planeta terra chegou, em termos de aquecimento global. As perdas causadas pelas mudanças climáticas aumentam conforme o processo se intensifica; e os níveis extremos criam consequências irreversíveis. “Limitar o aumento da temperatura não é mais o suficiente para reverter esse processo, mas pode retardar a rapidez com que ocorre.”
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