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Chuva

Chuva

Crônica poética por Micaella Martins


Revisão por Helena Xavier

Publicado por Amanda Pereira

Ontem, no carro, perguntei ao meu pai se ele acha que a gente se amou. Não porque realmente era uma dúvida, só queria entender a visão dele. Ele me disse que não, porque acabou, e se acabou é porque não houve amor. Ou não houve o suficiente. 

Finalmente entendi. Para muitos, em algum momento da vida adulta, o amor vira intrínseco à ideia de permanência vitalícia. A entronização constante do altar transforma uma linda jornada de conhecimento em um “tudo ou nada”, insignificando tudo que vem antes dele.

Não será meu caso.

Seu amor desconstruiu toda idealização simples e vazia e encheu meu coração de respostas, das mais lindas e dolorosas. Você desacelerava a angústia do meu pensamento enquanto potencializava minha ânsia pelo futuro. Me presenteava com uma conexão visceral, silenciando todos os ruídos externos com um único olhar. Seu cheiro de afeto e gosto de saudade geravam um desejo interno de melhoria, de ser uma filha, aluna, amiga e pessoa melhor. Quanto mais dias 24 se passavam, mais eu desejava que eles se repetissem, especialmente considerando que não sou constante com nada, nem ninguém. Seu carinho me inundava, como aquela chuva que nos faz abrir os braços e respirar fundo. Bem melhor do que eu imaginei ser; nem sabia que podia sentir isso tão nova.

Então, quando nossas visões começaram a divergir e nossas vidas a dançar em compassos diferentes, meu coração transbordou em dúvida. As conversas leves e o conforto dividido viraram discussões e exaustão e desencadearam um frio extremo. Nos manter em movimento para esquentar não adiantaria a longo prazo.

Percebi que tinha feito de você o meu mundo, e que quando você fosse, teria que aprender a explorar um vasto universo sozinha. 

Foi o que eu fiz.

Sua ausência deixou um vazio, e tive que separar quais lacunas pertenciam a você e quais eram reflexos de mim mesma. E nesse longo processo, o tempo foi um ótimo professor. Me ensinou que eu não sou tão boa quanto pensava ser, que depositar a expectativa da minha felicidade em ti foi injusto,comigo e contigo. E principalmente que o amor é atribuído de forma individual, baseado no que cada um aprendeu a valorizar mais nessa vida.

Então, sempre que o furacão em mim retorna, volto-me à grande sorte que tive em sentir algo tão puro, tão jovem. Porque te amar romanticamente me ensinou sobre todos os amores. Abriu os meus olhos para a importância de ser amiga dos meus pais, e me proporcionou as conversas mais corajosas e genuínas que já tive. Provou como cultivar a individualidade e as boas amizades é essencial e o quanto terapia me faz bem. 

Te amar me ensinou tudo que eu não quero ser, e a recalcular rota quando não sai como esperado.

Hoje eu brindo a todos os amores que “não deram certo” e ao mais lindo deles. Ao nosso fim, que transcendeu a falta de tentativas e deixou um rastro na minha história, com um espaço só seu e sempre aberto à visitação.

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