Noticia por: Lires Beatriz de Assis Sousa Velloso
Revisado por: Lucas Bezerra Borges
Publicado por: Maria Clara Vargas
Muito além dos livros de história e dos gabinetes políticos, os monumentos de Brasília parecem desenhados para responder a um enigma que a ciência não explica, mas que a imaginação popular teima em decifrar.
Planejada no meio do século XX para romper com o passado colonial do Brasil, a capital federal é mundialmente celebrada por seu urbanismo modernista. No entanto, paralelamente à história oficial registrada nos livros, corre nos bastidores da cultura candanga um fenômeno curioso: uma persistente narrativa que associa a fundação da cidade ao Egito Antigo. Embora rejeitada pela maioria dos historiadores, essa teoria urbana revela muito sobre como a sociedade busca explicações místicas para grandes feitos humanos, e, mesmo que soe absurdo, as coincidências são inegáveis.
O ponto de partida dessa jornada mística está na própria figura de seus fundadores. No século XIV a.C., o faraó Akhenaton rompeu com o poderoso clero de Tebas, instituiu o culto a um Deus Único (Aton, a energia solar) e decidiu isolar-se no deserto para construir uma capital inteiramente nova. Mais de 3.300 anos depois, o presidente Juscelino Kubitschek realizou uma epopeia idêntica: rompeu com o status quo da antiga capital (Rio de Janeiro) e isolou-se no cerrado brasileiro para fundar uma cidade planejada do zero. O próprio JK expressou publicamente em seus diários um fascínio avassalador pela história de Akhenaton após visitar o Egito, tal fato visto como um forte indício de ligação cármica ou reencarnação.
Tanto a Akhetaton egípcia quanto a Brasília brasileira desafiaram as leis da logística de suas respectivas épocas. Ambas as cidades foram erguidas em locais inóspitos, sem infraestrutura prévia, e foram inauguradas no tempo recorde de quatro anos. Essa conexão cósmica, construída a partir de parâmetros que se baseiam em meras coincidências, pôde se tornar extensa a um ponto minimamente perturbador, e as coisas inclinaram-se ao inacreditável cada vez mais.
Embora o urbanista Lúcio Costa tenha afirmado que o traçado de Brasília nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar com uma cruz, a forma final da cidade evoca imediatamente uma aeronave ou um pássaro com asas abertas. De acordo com historiadores, a planta baixa de Akhetaton (Tell-El-Amarna) também foi projetada seguindo o contorno de uma ave sagrada, o Íbis, animal associado a Thoth, o deus da sabedoria. Em ambas as capitais, a anatomia do pássaro distribui as funções da cidade: as asas abrigam as áreas residenciais (Asas Sul e Norte em Brasília) e o corpo central concentra o poder político e espiritual.
Ademais, nenhuma grande civilização egípcia prosperava sem a presença sagrada da água. Akhetaton margeava o Rio Nilo e utilizava complexos sistemas hidráulicos artificiais, semelhantes ao famoso Lago Moeris, para regular o clima e abastecer a população. Em Brasília, a história se repetiu por meio da engenharia moderna: a criação do Lago Paranoá. Além de sua óbvia função ecológica de umedecer o ar do cerrado e emoldurar as residências, o lago atua como um imenso espelho d’água purificador que abraça a capital e potencializa suas energias.
Brasília é uma cidade extremamente cultural e cheia de referências misteriosas e interessantes devido à arquitetura moderna e bem planejada. Em Brasília, há seis estruturas que são apontadas como possíveis apologias às pirâmides egípcias ou apresentam algum tipo de semelhança. São elas: o Templo da Boa Vontade, o Teatro Nacional Claudio Santoro, a Ermida Dom Bosco, o Memorial JK, a Catedral Metropolitana de Brasília e a Subestação da CEB (Companhia de Eletricidade de Brasília). Todas elas foram criadas a partir de projetos ousados, mas apenas algumas guardam o mistério do Egito.
De acordo com as teses de egiptólogos e investigadores de misticismo urbano (incluindo o livro de Iara Kern, “Brasília Secreta”), alguns deles têm semelhanças algozes, como o Memorial JK, por exemplo, classificado como uma mastaba (uma estrutura que representa a base de uma pirâmide, muito comum nos túmulos do Egito Antigo antes do desenvolvimento das pirâmides pontiagudas). Assim como os antigos faraós eram sepultados no interior dessas estruturas com os seus maiores tesouros, o corpo de Juscelino Kubitschek está guardado na câmara principal do Memorial, rodeado por objetos pessoais que marcaram a sua vida.
Outro exemplo é o Templo da Boa Vontade, que é uma pirâmide de sete faces com 28 metros de altura. Ele possui o maior cristal de rocha puro do mundo no seu ápice (topo), que serve para direcionar a luz e a energia solar para uma espiral desenhada no chão. Fica mais interessante quando retoma-se a importância da luz solar para o Egito Antigo.
Outra construção que indicaria essa semelhança é a Catedral. As egiptólogos interpretam a sua estrutura hiperboloide como duas pirâmides sobrepostas, que se conectam em sentidos opostos (uma invertida sobre a outra). O livro de Iara Kern também traça o paralelo de que a entrada do templo é vigiada por quatro estátuas gigantes (os Evangelistas), imitando a entrada dos templos dinásticos que eram protegidos por estátuas colossais. Além disso, o seu interior é também aberto à luz do Sol.
Diante de tantas analogias, torna-se evidente que Brasília transcende a mera função de centro político administrativo, consolidando-se como um território onde o concreto modernista e o mito se entrelaçam. A persistente associação entre a capital federal e o Egito Antigo, seja pelas semelhanças arquitetônicas que remetem a pirâmides e mastabas, seja pela impressionante simetria histórica entre as trajetórias de Juscelino Kubitschek e Akhenaton, demonstra que a identidade da cidade é indissociável do mistério.
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