Reportagem

Os três ‘S’ em Sudão do Sul: Soberania, Sofrimento e Silenciamento

Os três ‘S’ em Sudão do Sul: Soberania, Sofrimento e Silenciamento

Reportagem por: Maria Luíza Ramos Quintela


Revisado por: Rebeca Bernardes Marques

Publicado por: Artur Mayrink

Cidadãos do Sudão do Sul em Juba comemoram durante um evento que marca o primeiro aniversário da independência do país. UN/S. Winter



A independência do Sudão do Sul, sonhada desde a segregação religiosa vivida no domínio egípico, esboçada em 2005, e finalmente conquistada em 2011, é o exemplo crítico da tensão política pós-neocolonialismo e suas consequências. A nação mais jovem do mundo, já é, ironicamente, também uma das mais marcadas por toda espécie de problemas socioeconômicos e estruturais, com dados e perspectivas alarmantes para o futuro. O cenário presenciado é do tipo que traz reflexões: O que justifica submeter o cidadão a tão cruel sofrimento? O que custa e o que determina a soberania? E o que causa ou aprova tanto silenciamento?

Embora se trate de um tópico indiscutivelmente sensível, onde é muito difícil apontar uma causa exata, é inegável a relação entre a angústia do povo sul-sudanês e o abuso de poder e má gestão praticados pela Europa colonizadora e pelos próprios líderes políticos do país. Logo após a declaração da independência, o Sudão do Sul já se via em um contexto de guerra civil travada por políticos rivais, o que por si só denuncia a baixa probabilidade desses líderes proporcionarem melhorias. Para além disso, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que, em 2025, 350 ataques contra pessoas ou instalações humanitárias foram contabilizados, o que, para o subsecretário-geral da ONU para Operações de Paz, Jean-Pierre Lacroix, faz do país um dos locais mais perigosos do mundo para trabalhadores humanitários. Esse número ilustra o quão irreversível a situação pode parecer para muitas instituições cotadas para solucionar a problemática, uma opinião que contribui para a perpetuação dessa crise.

Outra questão muito perceptível é o desequilíbrio existente entre a soberania e a capacidade de administrá-la. O alcance da independência é, logicamente, um grande motivo para celebração, contudo, ele ocorre junto com uma série de responsabilidades. Desvincular-se de um país para formar um novo exige a criação de sistemas de saúde, educação e segurança, o que pode ser um enorme desafio, como no caso do Sudão do Sul. Segundo a Deutsche Welle (DW), desde 2011, a nação tem caminhado cada vez mais acentuadamente para a militarização, falhando em  proteger civis e em evitar sua inserção em redes violentas. A imprensa, além disso, também discute a crescente ameaça ao acordo de paz que encerrou conflitos internos na região. Enquanto isso, informações da Por Dentro da África alegam que cerca de 7,7 milhões de habitantes sofrem com níveis emergenciais de insegurança alimentar, o que representa a ausência ou ineficácia de órgãos governamentais. 

Existe, ainda, um terceiro fator que agrega para a construção dessa realidade: o silenciamento. Múltiplos veículos midiáticos fecham os olhos para a emergência do cenário, o que leva uma comunidade inteira a carecer de visibilidade, apoio e devida atenção. Assim, indaga-se: Qual o papel do jornalista e dos meios de comunicação? Não seria trazer ao público informações relevantes e auxiliar no processo de conscientização sobre a situação desse país? A verdade é que, historicamente, as denúncias referentes às crises geopolíticas no continente africano foram preteridas em favor das que ocorrem  no continente europeu, e o Sudão do Sul é apenas mais um exemplo disso. Óbvio que não cabe julgar qual caso é mais urgente ou importante, porém é preciso reconhecer esse padrão e rompê-lo, afinal, uma população inteira depende dessa mobilização para viver com dignidade.

Adiada diversas vezes, a ocorrência das eleições no país está agendada para o dia 22 de dezembro de 2026. Há esperança de que a nação possa, finalmente, respirar um pouco de democracia, e que consiga alcançar a estabilidade. Mesmo que esse seja um pensamento otimista diante dos fatos, espera-se que o bem-estar dos sul-sudaneses seja a prioridade e, principalmente, que a escrita jornalística se sensibilize com o sucedido. 

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