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A leitura é arriscada para sistemas que dependem da ignorância

A leitura é arriscada para sistemas que dependem da ignorância

Notícia por Luma Carvalho


Revisado por Luísa Friedman

Publicado por Fernanda Martins

Sistemas que são sustentados pela ignorância não temem armas de guerra, mas, sim, o conhecimento e os livros. A leitura é a arte de decodificar palavras, entender e se conectar. A partir do momento em que ela aborda fatores históricos e oferece uma bagagem para que a política seja realmente compreendida, uma ameaça vem à tona. De acordo com Guiomar Grammont – excelente escritora, dramaturga e professora brasileira –, “ a criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma.” A leitura é sinônimo de conhecimento, e conhecimento é sinônimo de poder. Sem a devida intelectualidade, o homem morre ignorante sobre todos os impasses da vida e está destinado a aceitar completamente a própria realidade, sem qualquer questionamento. Nesse sentido, o estudo protege todos os indivíduos contra a alienação do sistema. Entende-se por “alienação do sistema” um modelo político que faz ficar alheio à realidade, no qual pessoas vivem em um mundo em que não entendem o motivo de tal funcionamento e apenas concordam, por falta de argumentos para a discordância. 

    A ignorância, por sua vez, vai além de apenas não ter consciência sobre determinado assunto. É ser impedido de saber ou ser levado a não querer saber. “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão de conhecimento”, diz o historiador americano Daniel Boorstin. Nesse contexto, a frase pode ser interpretada como: o estado de desequilíbrio das pessoas que sabem o suficiente para se sentirem completas, mas não o bastante para reconhecer que, na realidade, não sabem o que realmente acontece. Ademais, na contemporaneidade é fácil encontrar opiniões e certezas absolutas sobre determinados temas e, em especial, sobre a política. Um estudo feito pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreve como os indivíduos mais leigos se sentem confortáveis em relação à própria opinião. Ao longo do estudo, um experimento foi feito com alguns grupos, pedindo para que respondessem algumas questões de conhecimentos gerais. O resultado foi dado como: as pessoas que tiveram as piores notas, acreditavam estar acima da média. Com base nisso, os pesquisadores os avaliaram como “pessoas com o pico da ignorância”. Análogo aos testes realizados, no contexto político, é fácil perceber figuras públicas ou indivíduos se posicionando com extrema convicção sobre temas complexos, sem o devido embasamento. 

    Além disso, um sistema ignorante é um governo que necessita da desinformação do povo para crescer, controlar e se manter no poder. Na Alemanha Nazista, em 1933, ocorreu um episódio de queima de livros e perseguições contra escritores alemães “inconvenientes” ao regime. Para a hegemonia, ou seja, o regime de supremacia e liderança vigente na época, dar certo, retirou-se a maior fonte de conhecimento, sabedoria e intelectualidade da história, que são os livros. Manter o hábito da leitura, nesses contextos, é, por si só, um ato de resistência política contra a dominação e a repressão.

    De acordo com Bertold Brecht, um dramaturgo e poeta alemão, o pior analfabeto é o analfabeto político. “Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.” Ao analisar o texto do poeta, percebe-se a ideia de causa e consequência em relação a essa alienação, observando o analfabeto político como o cidadão que simplesmente não lê o “mundo” e, dessa forma, cria um espaço seguro para que modelos autoritários se perpetuem. 

    Dessa forma, é importante que todos tenham a oportunidade de aprender, da maneira mais segura possível. Livros de história, por exemplo, podem trazer informações importantes e, assim, fazer o ser humano ter o conhecimento suficiente para fazer a diferença no mundo, e defender as suas próprias ideologias. Logo, sistemas que dependem da ignorância temem o óbvio: a leitura, que, por sua vez, nos mostra, por fatores e dados históricos, como a política chegou até a contemporaneidade e como esse sistema realmente funciona. Garantir a leitura é garantir a democracia, pois, uma vez que a população entende tudo o que acontece no seu próprio país, o espaço de corrupção e de modelos autoritários pode ser drasticamente diminuído. 

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” –  George Santayana. 

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