Crônica Argumentativa por Mariana Mota Lopes
Publicado por Maria Luisa Peres
Elis Regina, simbólica cantora de Música Popular Brasileira em uma de suas performances.
Havia um palco, um microfone e uma voz. Para Elis Regina, esses três elementos eram a extensão de sua própria alma, o lugar onde ela era mais livre e mais verdadeira. No entanto, em 2 de maio de 1972, no Ginásio do Grêmio em Porto Alegre, o palco se tornou uma jaula, o microfone um instrumento do coração e a voz, um eco do medo que assombrava o Brasil. Naquela noite, ao cantar para os generais nas Olimpíadas do Exército, Elis não estava se apresentando: estava se rendendo.
Argumentar sobre a participação de Elis naquele evento é mergulhar numa das zonas mais cinzentas e dolorosas da nossa história. Para os críticos apressados, a imagem foi clara: a maior cantora do país, a mesma que em 1969 chamara os ditadores de “gorilas”, agora emprestava seu prestígio ao regime. O veredito da patrulha ideológica foi rápido e cruel. O cartunista Henfil, com a acidez que o caracterizava, a enterrou simbolicamente em seu “Cemitério dos Mortos-Vivos”. Para muitos, Elis havia traído a resistência.
Mas que resistência é essa que exige o martírio de seus ídolos? O que se pedia de Elis era mais do que coragem; era um sacrifício que poucos de seus juízes estariam dispostos a fazer. Anos antes, sua ousadia na Europa lhe custou a paz. Ela foi interrogada, vigiada e, finalmente, “convidada” a cantar. Era uma ordem velada, uma daquelas propostas que não se pode recusar, sob o risco de “se lascar”, como ela mesma diria mais tarde. O que fariam seus detratores se a ameaça batesse à sua porta, mirando não apenas sua carreira, mas a segurança de sua família?
O argumento central não deve ser sobre perdoar ou condenar, mas sobre compreender a dimensão da violência que operava nos bastidores. A verdadeira tragédia daquela noite não foi a suposta traição de Elis, mas a capacidade do regime de transformar o maior símbolo de liberdade de um artista — sua arte — em uma ferramenta de sua própria humilhação. A imagem dela, tensa, segurando a bandeira do Brasil, foi descrita por ela mesma, anos depois, como segurar “um pano de sangue”. Não era um gesto de patriotismo, mas o retrato de uma nação ferida, personificada em sua intérprete mais visceral.
A história, felizmente, permitiu a redenção. A mesma Elis que foi obrigada a cantar o hino para os militares daria voz, em 1979, ao hino da Anistia. Em “O Bêbado e a Equilibrista”, ela não apenas cantou a esperança pelo retorno dos exilados — como o “irmão do Henfil” —, mas também curou suas próprias feridas. Ao dar voz àquela canção, ela se reposicionou, não como uma heroína infalível, mas como algo muito mais poderoso: uma sobrevivente que transformou a dor e a humilhação em um dos atos artísticos mais importantes da história do Brasil.
Julgar Elis por aquele dia de 1972 é fácil. Difícil é encarar o fato de que, sob a mira do autoritarismo, todos nós nos tornamos equilibristas em uma corda bamba, tentando apenas não cair no abismo.
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