Quando se é mulher, tudo é político.

Quando se é mulher, tudo é político.

Artigo de opinião por (Clara Carneiro)


Revisado por (Eduarda Guedes)

Publicado por (Pedro Henrique Barreto)

“Quando se é mulher, tudo é político.” Nos últimos dias vi essa frase em muitos lugares. Apesar de parecer óbvia, ela me gerou uma profunda reflexão acerca do meu lugar na sociedade como mulher, e o quão rapidamente o cenário em que vivo pode mudar e acabar me privando dos meus direitos. 

Tudo é político, porque apenas em 1932 a mulher conquistou o direito de votar e ser votada. Até 1962 uma mulher não tinha o direito de trabalhar ou viajar sem que fosse autorizada por seu pai ou marido, foi só em 1988 que mulheres passaram a ser reconhecidas como iguais aos homens em direitos, entre tantos outros fatores e liberdades que nos foram privados por muito tempo. Isso ocorria não por sermos de fato incapazes, mas porque a “incapacidade” feminina era tratada como uma verdade científica, como se fôssemos predeterminadas ao espaço doméstico e não soubéssemos tomar decisões racionais.

Assim, vejo algo que me assusta, mulheres de diversas idades e classes sociais defendendo ideais que as desprezam como seres, ideologias que disseminam o ódio contra a mulher, tratando-as apenas como objetos de desejo e as posicionando como inferiores aos homens. Hoje, vemos mulheres que defendem o fim do voto feminino, a submissão aos seus maridos e a supremacia masculina. Essas ocupam um lugar de hipocrisia, pois se aproveitam dos privilégios que só lhes são garantidos pela luta prévia de tantas outras mulheres. Essas cidadãs deixam de considerar as diversas batalhas vencidas para hoje podermos expressar nossas opiniões livremente.

Portanto, é preciso esclarecer que o feminismo não defende a superioridade feminina perante os homens, mas sim uma igualdade entre ambos os gêneros. E, para que esse tipo de estigma seja cessado, é necessário que entendam os princípios desse movimento. O feminismo não defende o fim das famílias, mas sim que as mulheres possam escolher seu futuro, seja ele condizente com os costumes tradicionais e expectativas da sociedade ou não. Logo, torna-se imprescindível se posicionar contra o fim da participação política feminina, pois oferece perigo à liberdade de muitas mulheres que desejam exercer este direito.

Um dos maiores exemplos desse risco é o caso do Afeganistão, muito destacado pela mídia pela crueldade e supressão dos direitos das suas cidadãs, que não podem se expressar, estudar, falar ou se vestir de acordo com sua vontade. Aplicado a nossa realidade, que é de fato distante disso, entende-se que esses direitos também podem ser retirados de nós aos poucos e de forma discreta. 

Cada projeto que, aos poucos, tira a liberdade de escolha da mulher sobre seu próprio corpo e cada regresso proposto dentro do meio político faz com que a diminuição da nossa autonomia se torne um discurso normalizado, aceito e defendido por muitos daqueles que buscam se aproveitar e ocupar os lugares que tanto lutamos para conquistar.

Portanto, tudo é político quando se é mulher, pois cada direito conquistado representa a luta de milhares de mulheres que comprometem suas vidas para combater estruturas que, por muito tempo, limitaram e limitam a nossa liberdade. Por isso, reconhecer essas conquistas é também entender que nossa autonomia não é imutável, mas uma construção que devemos valorizar e defender incansavelmente. 

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