Artigo de opinião por Luma Carvalho
Revisado por Luísa Friedman
Publicado por Fernanda Martins
A música “O Tempo Não Para”, escrita por Cazuza, retrata um período posterior à ditadura militar no Brasil. A canção faz referência à permanência de estruturas excludentes, sejam elas consequências da ditadura, que contribuíram para a normalização da violência e do ódio contra grupos considerados opositores ou inferiores, sejam elas decorrentes de pensamentos misóginos e racistas que continuam contribuindo para a exclusão dessas pessoas. Essas ideologias reaparecem em discursos ofensivos de políticos contra grupos historicamente marginalizados, mantendo, assim, a sociedade brasileira em uma constante repetição de situações que, por alguns instantes, aparentaram ter sido superadas, mas que ganham força novamente ao longo do tempo.
A música “O Tempo Não Para”, escrita por Cazuza, retrata um período pós-ditadura no Brasil, momento o qual a sua análise é imprescindível tendo em vista o presente e o futuro da sociedade brasileira. O regime civil-militar ocorreu entre 1964 e 1985, sob o argumento de conter uma suposta ameaça de uma ditadura comunista, em um contexto de bipolarização mundial. Suas consequências permanecem até os dias atuais, devido à violência extrema com a qual os opositores do regime foram combatidos. Torturas, estupros e assassinatos foram cometidos pelas forças militares e policiais da época, resultando em vítimas e familiares que ainda sofrem com transtornos psicológicos, em razão da intensa opressão vivida durante essas décadas.
Diante de uma análise do verso de Cazuza, “eu vejo o futuro repetir o passado”, torna-se essencial construir uma reflexão sobre os motivos pelos quais a história se repete no Brasil. Essa situação pode ser observada no momento em que políticos expõem suas opiniões, muitas vezes ofensivas, sobre grupos historicamente inferiorizados, como mulheres, negros, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIA+. A importância de conhecer o histórico social, não apenas do Brasil, mas também do mundo, torna-se evidente quando grupos são novamente rebaixados por meio de diversas justificativas, sejam elas baseadas na interpretação equivocada da teoria da seleção natural e da evolução biológica de Darwin ou até mesmo em interpretações bíblicas. Vale ressaltar que essas ideologias de superioridade hierárquica serviram de base para o movimento nazista na Alemanha, durante o período da Segunda Guerra Mundial.
“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, diz Karl Marx em sua obra “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. No cenário político e social brasileiro, o pensador em questão ainda é frequentemente utilizado como referência. Compreende-se, a partir dessa ideia, que determinados acontecimentos históricos podem se repetir, porém em um contexto diferente, assumindo características de imitação ou sátira quando ocorrem novamente. Ao transpor esse pensamento para o Brasil atual, filósofos contemporâneos associam a ideia de “farsa” a movimentos como os atos de 8 de janeiro de 2023, quando uma série de atos de vandalismo e depredação do patrimônio público ocorreu em Brasília. Na ocasião, manifestantes invadiram edifícios dos Três Poderes com o objetivo de contestar o resultado das eleições de 2022 e pressionar por uma ruptura institucional contra o governo eleito do presidente Lula.
Além disso, o passado pode revelar as origens de diversas estruturas sociais presentes atualmente, como a baixa participação das mulheres na política, por exemplo. Devido à estrutura patriarcal, existe uma herança cultural que inferioriza as mulheres e, muitas vezes, são incluídas em uma posição relacionada ao trabalho doméstico. Não são apenas os pensamentos misóginos que são influenciados por essa herança cultural, mas também os preconceitos raciais, que ainda se perpetuam de maneira significativa na sociedade brasileira. Isso está relacionado à abolição tardia e incompleta da escravidão, que não garantiu a devida reinserção das pessoas escravizadas na sociedade, contribuindo para processos de marginalização, periferização e desigualdade social e de renda. Desse modo, percebe-se que as desigualdades de gênero e raça não são naturais, mas frutos de uma herança histórica que ainda não foi completamente superada, mantendo esses grupos em posições de subalternidade.
Portanto, evidencia-se que o verso de Cazuza faz referência direta à falta de superação de estruturas excludentes, sejam elas consequências da ditadura militar no Brasil, que contribuíram para a normalização da violência e do ódio contra grupos considerados opositores ou inferiores, sejam elas decorrentes de pensamentos misóginos e racistas que continuam mantendo essas pessoas em posições de exclusão. Essas ideologias — muitas vezes baseadas em distorções de pensamentos darwinistas ou de textos bíblicos — reaparecem em discursos ofensivos de políticos contra grupos historicamente inferiorizados, mantendo, assim, a sociedade brasileira em uma constante repetição de situações que aparentam, por alguns instantes, ter sido superadas, mas que ganham força novamente ao longo do tempo.
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