Artigo de opinião

A adaptação de Odisseia

A adaptação de Odisseia

Artigo de opinião por Eduarda Lins


Revisado por Luana De Figueiredo

Publicado por Leon Pires

Matt Damon como Odisseu

O filme Odisseia, recentemente adaptado pelo renomado diretor Christopher Nolan, teve sua estreia nos cinemas como uma adaptação do poema clássico de mesmo nome, obra que acompanha a jornada desafiadora de Odisseu até Ítaca ao longo de dez anos após o fim da Guerra de Troia. Apesar de o longa-metragem possuir sequências cinematográficas impressionantes, uma cativante trilha sonora e efeitos visuais práticos possibilitados pelo estilo grandioso capturado em IMAX, o filme se revela apenas isso: um grandioso espetáculo superficial, assim como qualquer outra produção que escolhe retratar a jornada do herói torturado, em contraste com a visão comercial tão disseminada em sua divulgação, que o apresenta como um filme revolucionário. Em tese, a premissa heroica é simples, mas a construção de uma narrativa coesa que apresente os elementos necessários do épico grego é desafiadora, visto que os ideais morais presentes na atualidade não condizem com os da Antiguidade, o que se torna evidente no roteiro apresentado. Dessa forma, o desenvolvimento dos personagens se revela pobre diante do material original. A falha na escrita é evidente não apenas nas personagens femininas, que, nos filmes do diretor, costumam ser mal exploradas e utilizadas apenas como artifício para auxiliar na construção do herói torturado, mas também no restante dos personagens. O filme deixa a desejar como adaptação, mas agrada visual e sonoramente, o que cativa o público ao longo das três horas de duração e maquia outros aspectos da obra.

O conceito de herói grego difere-se de forma evidente dos heróis clássicos do imaginário atual. A maioria deles seria vista como anti-herói ou até mesmo como vilão, de certa maneira, por suas ações. Na Grécia Antiga, um herói possuía diversas facetas, entre elas, falhas, o que não o destituía do heroísmo que exercia. Sendo assim, é um desafio projetar, de forma agradável à visão atual, uma obra como Odisseia, de Homero. Infelizmente, a complexidade esperada do personagem de Odisseu não transmite, de nenhum modo, a que seria necessária ao seu herói. Devido a esse fator, o desenvolvimento narrativo é comprometido drasticamente, já que os momentos cruciais para o curso do filme são justamente aqueles contraditórios que, ao serem adaptados por Nolan, parecem não condizer com os personagens que estavam sendo construídos até então e com o próprio universo apresentado. 

Dessa maneira, o filme entra em conflito com os aspectos da obra que está sendo adaptada. Esse elemento não seria necessariamente indesejado caso gerasse uma ambiguidade capaz de provocar debates interessantes sobre o material original, mas o longa apenas carece de coesão, apresentando elementos que parecem remendados ao restante da narrativa. Assim, a impressão que passa é a de que Nolan tenta inserir muitas ideias que não apresentam coerência com o próprio enredo e com o sistema de valores proposto, apenas para adaptá-lo, de forma falha, ao ideal atual de jornada do herói torturado, que não é integrado apropriadamente ao texto.

Além disso, a profundidade da obra e suas nuances perdem espaço para belas sequências cinematográficas ao longo das horas de filme. Apesar dos elementos visuais incríveis, o desenvolvimento de personagens cruciais é comprometido, seja pela falta de tempo, seja pela presença de um roteiro fraco, que não prioriza a integridade narrativa em detrimento do aspecto visual. Cabe à interpretação. A contradição, questão presente em todos os aspectos da obra, não é diferente no processo de construção dos personagens, sendo a maioria deles unifacetada e composta apenas por diálogos expositivos até que um monólogo seja apresentado com o objetivo de provocar impacto no espectador e demonstrá-los, falsamente, como complexos. Logo após, porém, retornam à sua passividade original. Uma frase de efeito não tem a capacidade de tornar um personagem multifacetado se não condiz com o que é demonstrado ao longo de toda a história. 

Da mesma maneira, sequências inteiras, como a de Odisseu e os pretendentes, não apresentam coerência com a moralidade anteriormente desenvolvida, que faz com que o herói sinta remorso por seus atos, mas que, naquele momento, pode ser colocada de lado para a realização de um massacre. Como pode um elemento tão importante quanto a culpa por atos que violam os valores do personagem, fato que rege toda a proposta do filme, ser ignorado quando conveniente? A hipocrisia seria um elemento interessante a ser explorado, mas, em vez de contribuir para a complexidade narrativa, apenas deixa de apresentar coesão com a proposta. Os personagens são descaracterizados não apenas em relação ao poema que serve como material original, mas também pelo próprio filme, que não é convicto das ideias que propõe.

A despeito das críticas descritas, a adaptação de Odisseia, poema tão relevante há séculos, traz visibilidade ao texto original, que estava dormente para o público geral, incentivando a busca por conhecimento acerca de histórias que moldaram a sociedade atual. Além desse aspecto, o filme, apesar de deixar a desejar como adaptação, é um espetáculo de fotografia, trilha sonora e dinamicidade cênica, elementos que possibilitam sequências envolventes e tornam o longa-metragem interessante para o público que não se interessa pelos aspectos narrativos e por sua complexidade. Mesmo assim, nem toda obra tem a necessidade de possuir teor intelectual para ser interessante. Não é um filme ruim, mas suas características se assemelham às de um espelho d’água: belo, superficial e, dependendo da atenção dedicada, capaz de parecer profundo.

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