Artigo de opinião por Valentina Eloi
Revisado por Amanda Martin
Publicado por Giovanna Martini
Desde a gênese da história da nação brasileira, a violência e exclusão estiveram entrelaçada em sua formação: ao avistar um indígena, adestrava-o; ao ver um negro, escravizavam-se; ao ver uma mulher, silenciavam-se sua voz e ao reconhecer o pobre, faziam questão de escondê-lo até desaparecer. Essa história se repete a um pouco mais de 500 anos, consequência de séculos de erros e atos desumanos que configuraram alicerces de opressão e violência para a base de uma nação que cai aos pedaços.
A partir dessa diferenciação e segregação social evidente de grupos marginalizados, o ciclo se repete continuamente na contemporaneidade. Durante muito tempo, as populações oprimidas foram desconsideradas da sociedade e, como consequência que perpetua até os dias de hoje, são obrigadas a conviver em ambientes precários com mínimas condições, as favelas, por exemplo,com o excesso de pessoas, a deficiência em setores básicos e a localização em áreas de risco são as únicas habitações acessíveis para essa parte da população. Por outro lado, vemos a elite isolar-se em condomínios fechados e bairros seguros, com toda a possível atenção do poder público.
Nesse sentido, a periferia não é o problema, e sim fruto de um, que deriva de anos de insuficiência estatal. Onde o Governo não exerce plenamente suas funções, outros agentes podem ocupar parte desse espaço, e um sistema criminal se fortifica e organizações passam a exercer o papel do poder público. Entretanto, essa atuação não representa garantia de direitos e melhorias, mas uma forma de controle baseada nos interesses das estruturas criminosas. Assim, aquilo que pode ser entendido como assistência ou proteção transforma-se em mecanismo de dependência, submissão e manutenção do poder territorial e do sistema criminal.
A cultura do crime é amplamente apresentada à população por meio da apologia à criminalidade, que se mostra efetiva quando figuras associadas ao crime passam a ser vistas como símbolos de poder, respeito ou ascensão. Entretanto, ao mesmo tempo em que é correto afirmar que a periferia é mais vulnerável às estruturas criminosas, seria errôneo generalizar que ela produz necessariamente o crime. A presença do crime nesses territórios não transforma seus moradores em criminosos, mas expõe uma população inteira à convivência cotidiana com essas estruturas. É nesse contexto contínuo que a criminalidade corre o risco de ser percebida como normalidade social e deixa de ser apenas uma atividade ilícita e passa a ser um comportamento cultural.
É importante ressaltar, contudo, que atribuir a existência do crime exclusivamente à omissão governamental seria ignorar a profundidade do problema. Trata-se de um sistema que se retroalimenta, no qual o Estado, a desigualdade, a história e a criminalidade estão interligados, sem que um único fator seja capaz de explicar sua permanência. Esse ciclo, além de doentio, não possui cura barata, e apesar de quinhentos anos se passarem, a violência apenas encontrou novas formas de se reproduzir e permanecer viva.
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